Jéssica Moreira

Jéssica Moreira é escritora e jornalista. Cofundadora do Nós, mulheres da periferia e uma das autoras do Blog Morte Sem Tabu (Folha de S.Paulo). Mora em Perus, região noroeste de SP.

Chove, faz frio, o tempo está ruim em São Paulo. De longe, uma triste notícia dói bem de perto: bell hooks morreu. Uma das maiores escritoras, filósofas, feministas, e defensoras do amor enquanto prática política nos deixou.

Há pouco mais de um mês, perdemos Marília Mendonça. Aquela que nos ensinava a superar a dor. Inclusive a dor do amor. Agora, perdemos hooks, que nos mostrava por meio de suas palavras e reflexões que o amor é libertação, arma firme contra as opressões.

Quando nossas referências se vão, ficamos sem chão. É como se não fossemos conseguir fazer aquilo que essas pessoas ecoavam. Mas mesmo com dor, a gente ainda consegue dar play nas músicas da Marília ou folhear as palavras de hooks – sempre em minúscula, pois ela quis dar maior peso às palavras do que a si mesma.

Mas como é que a gente continua amando na distância, bell hooks?

“Amar faz isso. O amor nos empodera para viver plenamente e morrer bem. Então, a morte se torna não o fim da vida, mas uma parte dela”, é o trecho de seu livro “Tudo sobre o Amor”, que chegou até a minha timeline assim que fiz essa pergunta, que gostaria de ter endereçado diretamente a ela.

Há quase dois anos, eu venho escrevendo sobre morte no Blog Morte Sem Tabu, na Folha de S. Paulo. Este assunto me pegou quando o meu pai morreu, em 2 de julho de 2014.

Naquele dia, eu morri. O tempo parou, congelou. Ontem, quando a notícia sobre hooks chegou, eu tive a mesma sensação. Paramos tudo que estávamos fazendo no Nós para falar sobre sua morte. Não importa o que você esteja fazendo, quando a morte chega ela arrasta, para tudo, exigindo que a gente reorganize tanto o dentro quanto o fora.

Eu precisei morrer para aceitar o que era viver sem meu pai.

Até ali, eu só sabia como era ser no mundo com ele ao meu lado. A queda desta pilastra remexeu com todas as minhas estruturas. Insegurança e medo tomaram conta de mim por vários anos.

No meu luto, eu não parei. Nem todo luto é igual. Pelo contrário, eu acelerei.

 

 

Desde então, a idade de meu pai se tornou um limite. Parece mórbido, eu sei, mas custou para mim começar a imaginar que eu poderia ir além dos 56.

Nos dois últimos anos, escrever frequentemente sobre morte me fez encontrar vida.

Há vida nas memórias de cada pessoa que fala sobre quem tem saudade. Há vida em cada pessoa enlutada que se ressignifica para continuar (sobre)vivendo, mesmo com muita dor. Há vida nessa vontade acelerada de viver tudo que o meu pai, meus tios, meu primo, minha avó não vão viver mais.

Falando sobre luto, coloquei meu medo na sala e passei a olhar de forma crua e doída, muitas vezes, o que a morte significava pra mim (muito individualmente falando). Acomodar a falta é também um exercício de amor.

Eu tive que ir procurando o amor próprio para, dentro de mim, achar o amor do pai e de todas as pessoas que fisicamente não estão aqui.

A morte de hooks, que tanto falava sobre amor, deixa para nós uma missão: encontrar em nós o amor que moveu a vida dessa mulher. Estou nessa busca e publicar um livro em meio à pandemia (conheça aqui o VÃO: trens, marretas e outras histórias), tem sido o jeito de acomodar as dores do luto em forma de palavras. Palavras que vêm sendo retribuídas por quem lê em forma de amor.

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