Semayat Oliveira

Jornalista, escritora e cofundadora do Nós, mulheres da periferia.

Têm coisas que as mulheres não falam em público. Às vezes, apenas para poucas amigas ou amigos. Algumas passam anos ou a vida sem contar para ninguém que um dia, uma noite, meses, anos, foram a outra de alguém. Às vezes, a dor de uma traição dói tão profundo que destrói, destroça e marca a vida das pessoas. Qualquer pessoa. Mas na vida das mulheres, ser corna é visto como: “Ah, normal”. E se você é a outra, é tipo: “Ah, uma vadia”. 

Que não lugar da poha. 

Que solidão.

Que silêncio.

A mente de uma mulher se joga em cada calafrio, cada lugar sem cor. Teve dias em que quis ir embora, mas não consegui. Mesmo sabendo que não havia amor algum ali. Já me senti menor, pequenininha, uma nada. E passei noites pensando se “ele faz amor comigo como faz com ela”. Ou do dia em que liguei,  me joguei no chão e gritei: “Folgado! Maldita hora que eu chamei você de namorado!”. E fui embora. 

Marília Mendonça foi quem sentou ao meu lado numa mesa de bar. Me disse que “amante não tem lar”. Entendeu a vontade de pedir desculpas para outras mulheres e sumir.

Disse também que “bem pior que eu, você… que não deixa ela e nem deixa de viver”. Conversei com ela, deitei no colo. Pedi a mão. Chorei horrores. Parecia que não ia passar, que eu não mereceria nada melhor. Nenhum amor saudável iria me querer, suportar.

Mas aí ela me mostrou uma legião de mulheres em um show, de olhos fechados, berrando: “Para de insistir, chega de se iludir. O que cê tá passando eu já passei e eu sobrevivi!”. Propuseram um pacto comigo: “Promete pra mim que dessa vez você vai falar não”. Depois, todas juntas, me disseram firmes: “Se ele não te quer, SUPERA! De mulher pra mulher: SUPERA!”.

Marília Mendonça falou de nós: otárias, malandras, ciumentas, barraqueiras, potentes, as que bebem sem dó, as que foram embora, amantes, as que são rotuladas como vadias, as traídas, as solitárias, maltratadas pelos amores que nunca chegaram, as danadas, apaixonadinhas e as que já não sentem sal-dades do que foi ruim. 

Por todas as amigas que se uniram depois de se odiarem porque “o cara que eu tava deu em cima de você”, mas entenderam que, no final, “a culpa é dele”. Todas aquelas que não procuraram ninguém e, sozinhas, com dores, medos e confusões se aliviaram cantando em casa: “É melhor aguentar seus gritos do que me afastar e nunca mais voltar”. Todas as amigas que cantaram, juntas, bebaças: “Tentou até ligar pro ex/Pra sua sorte eu não deixei”. Ou que confessaram que beberam, ligaram e foram parar no colchão do mal me quer.

Que pena, nossa amiga de copo se foi. Nova, cedo, antes do que todas imaginamos. Que pena. Que pena. Que pena. De nós. Com 26 anos, Marília teve a maturidade de fazer uma passagem que fizesse com que a gente se sentisse humana. Errantes. Possíveis. Humanas. Humanas. Mulheres humanas. Nos deixou a missão de sermos brilhantes, de encararmos quem somos. Sonhar. Viver e ser. Ela brilhou. Acreditou em si e brilhou. 

Um legado gigante antes dos 30. Uma mensageira: a gente merece amor e, antes de tudo, o próprio. 

Marília, seu brilho aliviou nosso coração. Que a gente tenha a coragem que você teve. Que toda a luz te guie. Obrigada!

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