Você sabia que a cada 100 mil mortes, pode haver até 1 milhão de pessoas em luto? No último domingo, o Brasil chegou a mais de 373 mil mortos em decorrência da pandemia da Covid-19, ultrapassando os Estados Unidos em mortos por 1 milhão de habitantes. Isso quer dizer que temos muito mais que 3 milhões de pessoas enlutadas nesse momento no país.

Nas periferias, os números são ainda mais altos. A morte em decorrência do coronavírus encontrou também outras desigualdades históricas, como a fome, as comorbidades, a necessidade de trabalhar e a falta de infraestrutura que impedem o isolamento social.

Diante dessa constatação, entendemos a importância de falar sobre morte de maneira cuidadosa, para não cutucar ainda mais as feridas abertas de quem perdeu alguém que ama. Além do episódio #31 do Conversa de Portão sobre o assunto, organizamos esta lista, com 8 conselhos para acolher alguém em luto.

Antes, no entanto, é importante dizer que essas são apenas algumas sugestões. Você, leitora ou leitor, pode encontrar também outras soluções e nos enviar. Para a criação dessa lista, foram consultadas as páginas Conselhos para o Luto, in.FINITO.etc e o Blog Morte Sem Tabu, espaços especializados no assunto.

Não tente mostrar o lado positivo da perda

Não diga frases como ‘foi melhor assim”, ‘ela estava sofrendo muito’ ou ‘está em um lugar melhor agora’ ou ‘isso acontece com todos nós’. São frases que pouco se conectam com a dor da pessoa e não acolhem a dor da perda. “É melhor tomar cuidado antes de assumir que o enlutado tem ou não uma crença pós-morte”, aponta o in.FINITO.etc.

O enlutado não precisa de uma frase de efeito ou conselho, mas sim sentir que sua dor é válida e entendida pelo outro. Uma dica da comunicóloga Iaçanã Woyames, do Projeto Missão Girafa, é não repetir essas frases, escutar a pessoa e, quando possível, parafraseá-la, para ajudá-la a se conectar com o sentimento. “Uma técnica que nos ajuda é a paráfrase, é dizer pro outro que você está escutando. Se a pessoa disser eu estou com muita raiva, porque meu filho morreu’, você pode dizer ‘está doendo muito em você, você está com saudades’. Parafrasear nas minhas palavras mostra para o outro que eu estou ouvindo”. A página Conselhos para o Luto também fala sobre como escutar de maneira ativa.

Na tentativa de ser empática, não compare sua dor com a da outra pessoa

Muitas vezes, na tentativa de sermos empáticas, acabamos não ouvindo o que a outra pessoa tem a nos dizer, e disparamos a falar sobre a nossa própria dor. Nenhum luto é igual ao outro, mesmo quando moramos na mesma casa. Por isso, quando a pessoa falar sobre seu luto, ouça com atenção e sem trazer comparativos com a sua própria história. E se você é uma pessoa passando pelo luto agora, não compare seu processo com o de outras pessoas, cada um terá um jeito de atravessar esse período.

Quando falamos sobre empatia, ouvimos que ser empática é vestir o calçado do outro, mas como vestir o mesmo calçado se calço um número diferente? Iaçanã diz que a empatia sozinha pode não ajudar tanto quanto gostaríamos, por isso a compaixão – que não tem a ver com piedade – caminha mais no lugar do olhar para o outro e ajudar sem esperar que o “problema” será solucionado.

Não diga à pessoa enlutada o que ela precisa fazer

Segundo a página Conselhos para o Luto, da advogada especialista em testamento vital Janna Monteiro, o respeito ao luto passa também por respeitar os tempos da pessoa que está vivendo esse processo. “Não diga ‘você tem que voltar a trabalhar’, ‘tem que sair de casa’, ‘tem que voltar aos seus projetos’. O enlutado precisa viver esse momento, a seu modo e ter espaço para decidir como fazê-lo. Se está trabalhando com uma pessoa enlutada, dê tempo e espaço para ela dizer quando é o melhor momento para voltar”.

Não julgue nenhum sentimento, não há padrões para o luto

Diferente do que muitos pensam, a tristeza não é o único sentimento possível no processo de luto. Há diversas reações diante da perda e em meio ao processo de luto, que pode durar meses ou anos. Quem fica, tem sua vida totalmente modificada e encara o desafio de se reinventar sem a outra pessoa. São mudanças psicológicas, físicas, financeiras, afetivas, entre outras. Por isso, não julgue uma pessoa por ela estar se divertindo ou saindo com os amigos. Ou, então, por ela chorar ou ficar em silêncio. Não julgue nenhum sentimento, apenas ela pode saber sobre a dor que está sentindo.

“Não temos como generalizar o luto. Cada um vai viver uma experiência diferente. Isso vai depender das circunstâncias da morte. Depende do histórico prévio da pessoa enlutada, se ela tem suporte ou não, se tem com quem conversar. Temos que olhar para cada situação e entender o tamanho do buraco para cada pessoa”, explica a psicóloga Gabriela Casellato, no Blog Morte Sem Tabu.

Abra espaço para a pessoa enlutada se expressar

No processo de luto, muitos amigos se afastam, pois têm medo de falar sobre o assunto, o que também é comum. Em vez de desistir do contato, Iaçanã explica que é possível dizer à pessoa que você sente muito, mas que não sabe o que fazer, mas que você está aqui para ouvi-la ou ajudá-la como for preciso.

Além disso, esteja aberta a ouvir a mesma história mais de uma vez, pois atravessar esse momento passa também em ressignificar algumas memórias. Respeite as crenças de cada pessoa, mesmo que você não concorde. Nesse momento de pandemia, telefonar (caso a pessoa queira) e abrir espaço para ela falar pode ser uma possibilidade. Saiba mais nesse post da página Conselhos para o Luto.

Para além de ajuda emocional, ajude de maneira prática

Iaçanã explica que, muitas vezes, nós insistimos na pergunta ‘está tudo bem?’ para a pessoa em luto, sem imaginar que ela pode não ter uma resposta para isso, já que está elaborando seu processo de luto. Ações práticas como oferecer ajuda com o supermercado, limpar a casa, cuidar das crianças ou levar um prato de comida podem ser bons exemplos de como agir na prática.

Outras formas de dizer meus pêsames

Entendendo a dificuldade de encontrar palavras em um momento tão difícil, o in.FINITO.etc organizou uma série de outras frases que podem substituir os “meus pêsames”. No lugar desse jargão, você pode dizer ‘eu sinto muito pela sua dor‘, deve estar doendo demais e eu sinto muito’, ‘não sei o que dizer, mas vou ficar aqui pertinho de você’.

Luto não tem prazo de validade

Não imponha à pessoa um prazo de validade a seu luto. O processo de luto não tem uma data definida, isso varia de pessoa para pessoa. Algumas vivenciarão isso durante meses, outras durante anos. Aliás, não existe um fim em si, o que existe é o final do processo de elaboração e criação de novos significados.

“Não é que existam perdas mais difíceis, pois todas são dolorosas, mas as circunstâncias da pessoa que fica podem ajudar a oferecer mais ou menos conforto. De qualquer forma, uma boa ‘medida’ para saber se o luto está se transformando algo mais preocupante é observar o estado da pessoa enlutada”, é o que dizem os especialistas do in.FINITO.etc.

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Ouça também:

Conversa de Portão #31: como acolher o luto além de ‘meus sentimentos’