Por Beatriz de Oliveira e Semayat S. Oliveira 

Foi ao longo de diversas viagens de trem que a jornalista e cofundadora do Nós, mulheres da periferia, Jéssica Moreira, escreveu as crônicas que compõem o livro Vão: trens, marretas e outras histórias. Sua primeira publicação autoral trata do cotidiano dentro dos trens. Mais especificamente, da linha 7-Rubi da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), na região noroeste da cidade de São Paulo. 

“O Vão traz humanidade ao que muitas vezes é tratado como uma grande massa que não tem rosto, e tem” diz a escritora. Ela afirma que, sem romantizar a realidade, o livro traz histórias de amor e também de violência, de situações que ela ouviu e presenciou no trem. 

“O Vão traz humanidade ao que muitas vezes é tratado como uma grande massa que não tem rosto”

A obra, lançada pela editora Patuá, tem prefácio da escritora e artista plástica Paloma Franca Amorim. Segundo ela, a escrita de Jéssica “perpassa o apuro descritivo da crônica e os sobrevoos e rasantes do poema”. 

Vão: trens, marretas e outras histórias”.

O lançamento do Vão ocorrerá no dia 13 de novembro na Biblioteca Padre José de Anchieta, que fica em Perus, bairro da região noroeste de São Paulo, onde mora a autora.

Desde pequena, Jéssica tinha paixão pelas palavras. Aos seis anos de idade já falava que queria ser escritora e, num cantinho da sala de casa, escrevia histórias e as guardava debaixo da poltrona. “Eu venho tentando fazer uma leitura de mundo por meio da palavra desde que eu conheci a palavra”, conta. 

O processo que começou com posts em uma rede social e acabou com a publicação de um livro, foi longo. Jéssica começou a escrever as crônicas em 2011 e iniciou a organização da obra em 2019. 

Eu venho tentando fazer uma leitura de mundo por meio da palavra desde que eu conheci a palavra

Apesar de se nomear como escritora a partir da publicação de Vão, ela reflete que já exercia esta vocação. “A gente é escritora quando a gente se coloca nesse mundo e usa esta linguagem para expressar ou para existir no mundo”, diz.

 

Esta é a primeira viagem da autora em uma obra solo, mas Jéssica já tem um caminho percorrido no mundo da literatura. É uma das autoras de Queixadas – por trás dos 7 anos de greve (2013), Heroínas dessa História – mulheres em busca de Justiça por familiares mortos pela ditadura (2020), Longe de Monte Carlo (2020) e Chão Vermelho (2021). Também integra o coletivo poético Terracota e é uma das organizadoras da FLINO (Festa Literária Noroeste).

Conversamos sobre o lançamento do livro e seu processo de criação. Confira a entrevista!

Nós, mulheres da periferia – Como foi o processo de entender que o trem é um lugar em que se pode nascer histórias?

Jéssica Moreira – Eu vou voltar um pouquinho no tempo. Quando eu tinha 17 anos e estava no Ensino Médio, tentei cursar Letras, fui até a segunda fase da USP [Universidade de São Paulo]. Eu fiquei super animada, seria uma super oportunidade de estudar em uma faculdade pública. Estudei muito, mas não consegui passar da segunda fase, o que me deixou muito frustrada. Me senti quase num processo meio depressivo. Eu estudava em ensino integral, então estudava de manhã, de tarde e de noite. E de repente parar de estudar foi bastante duro para mim.

Então, eu me voltei muito para o bairro de Perus, que é onde eu nasci e cresci. Foi quando eu fui estudar na Fábrica do Conhecimento, que é um cursinho popular aqui do bairro, e também fui fazer teatro, Nessa época existiam os cursos de teatro vocacional no CEU [Centro Educacional Unificado] e dentre eles existia o curso de direção teatral. Durante todo o ano eu fiz esse curso e um exercício da professora, era pegar o trem e anotar exatamente tudo que você via. E eu falei ‘nossa gente, nunca pensei nisso’.

Eu senti que o trem tinha muita possibilidade, seja dentro, ou seja na paisagem, na geografia que se estende do lado de fora do vagão.

 

No outro ano, entre 2010 e 2011, eu entrei na faculdade. Fui estudar na Vila Mariana e era uma longa distância de Perus até lá. No meio disso, eu fazia cursos na Vila Madalena. Então, eu utilizei muito o transporte ferroviário para chegar nos lugares. Viagens que muitas vezes chegavam até uma hora e meia, duas horas. Eu ia anotando as coisas, e as pessoas iam conversando do meu lado. 

Eu lembro que nessa época as pessoas começaram a sentar do meu lado e contar a história delas de vida, eu ficava impressionada. Eu gosto de ouvir histórias, daí eu ficava só ouvindo, em nenhum momento eu gravei nenhuma história, em nenhum momento eu escrevia enquanto a pessoa me contava.

Eu sempre escrevia depois que a pessoa partia, era quase que um exercício de memória e de ressignificação. 

Eu comecei a postar no Facebook algumas dessas histórias, ou que eu via como testemunha ocular ou que eu ouvia. Esses textos que estão dentro do transporte público, tem esse lugar da crônica, do dia e da hora que aconteceu. E aí o pessoal começou a achar divertido e engraçado. E se tem uma pessoa ou outra que gosta, você fala: ‘ah, vou escrever de novo’, e o pessoal ficava assim: ‘e aí, cadê a próxima crônica de trem?’. Aí eu comecei a ficar com vontade de escrever mais. 

Nós – E quando a Jéssica escritora nasceu? 

“Vão: trens, marretas e outras histórias”

Crédito: Luank Photo

Jéssica Moreira – Essa é uma pergunta difícil, eu tenho feito muito essa reflexão. Agora, lançando o livro eu consigo nomear que eu sou escritora, mas na verdade eu já era. A gente é escritora quando a gente se coloca nesse mundo e usa essa linguagem para expressar ou para existir no mundo. A gente às vezes acha que ser escritora é publicar livro, mas ser escritora é utilizar a palavra para fazer uma leitura de mundo.

Eu venho tentando fazer uma leitura de mundo por meio da palavra desde que a conheci.

Eu às vezes me sinto literal, minhas amigas brincam comigo, porque eu acho que uma palavra dita pra mim é como a honra da palavra, sabe? É realmente muito forte. Eu costumo brincar que eu tenho uma memória letrética. Quando eu leio alguma coisa ou quando alguém me escreve, aquilo significa mais até do que uma imagem. 

Quando eu tinha oito anos, eu tive uma professora chamada Eliane na 2ª série do Ensino Fundamental. Ela era negra, baixinha e evangélica. Deu uma aula ensinando o que era substantivo abstrato e aquilo foi incrível pra mim. 

Quando eu aprendi a ler aos seis anos de idade, eu falei: ‘eu vou escrever os meus próprios livros’. Eu lembro que nessa idade eu já falava que queria ser escritora. Eu brincava de escrever, não tinha um quarto solo na minha casa, mas tinha um cantinho na sala. Eu escrevia e colocava tudo debaixo de uma poltrona e às vezes eu pegava alguns livros da minha tia também. 

Nessa época tinha muitos quadros dos meus tios na sala, eu ficava desenhando os quadros e escrevendo histórias do que poderiam ser essas pessoas. Eu tenho uma família muito acolhedora e ficava lendo para eles. O pessoal lia e falava: ‘escreve, escreve’. Como a Conceição Evaristo comenta que ela não cresceu cercada de livros, mas cresceu cercada de palavras. Eu cresci cercada de palavras e de muitas histórias. As histórias da própria família, de memórias familiares, muitas histórias de assombração, lembro do meu avô e da minha avó contando histórias de santos, da religiosidade. Cresci ouvindo rádio, o Eli Corrêa com a minha vó, e ele tem toda essa narrativa, um storytelling

Mas foi no dia que eu aprendi o que era substantivo abstrato que eu achei que estava fazendo poesia. Eu tenho até hoje o meu primeiro caderninho de poesia, tem uma capinha rosa e ali tem tudo que eu escrevia. Eu escrevia sobre morte, sobre perdão, sobre amor, eu escrevia coisas que são um pouco duras para uma criança de oito anos. Talvez eu não conseguisse expressar o que eu estava sentindo, então eu escrevia, eu dava nome, eu dava forma e materialidade ao que eu estava sentindo. É claro que eu só consigo entender isso hoje, depois de tanto tempo, mas a palavra foi o meu jeito de encontrar um lugar no mundo. 

Você vive tanto em coletivo que às vezes você não sabe qual é o seu lugar ou quem é você neste espaço todo. A escrita era o meu lugar. 

Eu brincava de escrever, não que escrever seja fácil, para mim é muito difícil, mas eu brincava de escrever.  Eu não sei se eu consegui responder a sua pergunta de quando a Jéssica escritora nasceu, mas eu acho que ela foi nascendo e ela está nascendo ainda, a cada palavra que eu escrevo, a cada livro que eu vou desenvolvendo. O Vão é um livro que eu comecei a organizar há dois anos e comecei a escrever há oito. A escrita é esse lugar muito fluido da memória que atravessa o tempo, porque a sua escrita está se renovando a cada momento.

Nós – Em um momento você comentou que parece que a gente só se torna escritora quando publica um livro e agora você vai lançar um. Como foi chegar nesse universo das editoras? Qual foi seu principal desafio? E como você conseguiu chegar nesse ponto para publicar o Vão?

Jéssica Moreira – Quando eu comecei a escrever as crônicas as pessoas falavam assim pra mim: ‘ah, isso dá um livro’. Mas eu não sei se eu acreditava muito que aquilo dava um livro, eram posts de Facebook. Eu realmente demorei muito para acreditar na minha escrita.

Antes de tudo, até do desafio das editoras, eu tive um desafio interno de acreditar que a minha escrita poderia ser potente, poderia interessar alguém.

Para gente, que nem sempre esteve próximo da palavra escrita, porque eu venho de uma família em que poucas mulheres escrevem, então vem da oralidade, e de repente você pensa: ‘isso interessa para alguém?’. É um longo percurso também, mais dolorido até do que quando você decide. 

Quando eu organizei o Vão, mostrei para alguns colegas, para algumas pessoas. Para mim foi muito importante quando eu decidi [publicar]. Mas antes que eu decidisse, foi um longo processo. Eu tenho acesso a terapia e sei que isso não é fácil para todo mundo. Mas na terapia a gente chegou a fazer um ritual fúnebre do livro que estava na minha cabeça e eu tinha que matar a fantasia. Porque a gente fica fantasiando tanta coisa e isso paralisa a gente. Eu tive que fazer esses rituais dentro do processo terapêutico para que o livro viesse na realidade dele e não uma fantasia. 

Nessa primeira organização, que hoje está muito diferente, eu enviei para três editoras. Ninguém me respondeu. Depois eu fui entender que as editoras independentes são muito pequenas, com pouquíssimas pessoas trabalhando e que as pessoas não respondem porque elas não conseguem. 

Todas as pessoas que eu mandei o livro naquele momento me responderam depois, às vezes até depois de dois meses. Então, é importante ter paciência. Eu achava que no fim de 2019 eu já estaria com o livro pronto, eu tinha uma cabeça bem ingênua sobre o processo de escrever um livro. 

Aconteceu uma coisa muito legal em agosto de 2018. O Valter Hugo Mãe veio até Perus, na biblioteca Padre José de Anchieta, pela Balada Literária, organizada por Marcelino Freire. Eu tinha tentado entrar no curso do Marcelino Freire mas eu não consegui porque é muito disputado. E aí o Marcelino veio, eu fiz uma matéria com ele para a Agência Mural. E então dei um toque nele, falei: ‘queria muito ter participado do seu curso’. Ele falou: ‘vai lá na terça-feira’, e eu fui. Depois de um tempo eu virei monitora dessa oficina literária. Isso foi uma coisa muito generosa, eu sou muito agradecida a ele. Acho que ele quis de alguma maneira devolver algo para aquele território que recebeu a Balada Literária. 

Eu tentei também o Proac [Programa de Ação Cultural], não passei, mas não fiquei triste, porque quando você tenta um projeto você dá uma materialidade e eu consegui organizar na minha cabeça o que eu queria do Vão.

No meio desse processo, uns amigos que estavam criando uma editora, ofereceram para publicar o Vão. Mas quando a pandemia começou eu me senti muito fragilizada e decidi pausar o processo com essa editora. Eu fui mandar e-mail para o Eduardo Lacerda, editor da Patuá, em agosto de 2020, isso quer dizer muito tempo depois. Eu falei: ‘Eduardo, eu parei o Vão, mas eu quero tentar o Proac de novo, posso tentar com a Patuá?’. Ele deixou claro: ‘se você não passar no Proac, a gente quer publicar o Vão mesmo assim pela Patuá, você topa?’, eu falei: ‘topo’.

O processo com a editora foi longo, mas passou muito por mim. Há um grande número de editoras independentes hoje, editoras de mulheres, de mulheres negras, e isso é muito importante para a cena literária, mas é muito difícil para esse pessoal. São equipes enxutas. Se o mercado editorial está difícil para editoras grandes, quiçá para editoras pequenas. São duas, três pessoas trabalhando e tentando correr contra o tempo para publicar, para fazer um trabalho legal. Eu acredito que esse espaço se abriu um pouco mais para novos escritores e escritoras por conta das independentes, porque existe um muro muito forte entre novos escritores e as editoras consideradas grandes. 

Eu até tentei enviar o manuscrito para a Companhia das Letras, mas é muito difícil ir com poesia para essas editoras. O lugar da crônica e da poesia é renegado muitas vezes. Você encontra pouquíssimas pessoas que fazem crônica, por exemplo, quem assina o prefácio do livro é a Paloma Franco Amorim que é uma super cronista, é uma mulher do Pará, uma mulher negra que tem dois livros e conta dos desafios. 

Nós – No release você fala que o Vão é um livro para se ler numa viagem de trem. O que as pessoas vão encontrar quando abrirem o Vão?

Jéssica Moreira – Sim, é um livro para se ler numa viagem de trem. Parafraseando Milton Santos, é um livro que, para além de você ter de fundo os desafios da mobilidade urbana numa cidade tão grande como São Paulo, você vai encontrar o que sentem e vivem as pessoas que atravessam todos os dias a ponte. A gente que atravessa a cidade, principalmente das periferias para o centro, todos os dias para trabalhar, para estudar, para se divertir, parece entre muitas aspas que é uma manada, a gente é tratado como nada, como uma grande massa. 

No Vão eu trato as histórias em sua individualidade, na humanidade das pessoas. Na humanidade dos marretas e das marretas, que são os vendedoras ambulantes, na humanidade de quem passa, seja das crianças dentro desses vagões, seja das pessoas que utilizam o trem para pedir auxílio, seja de outros trabalhadores e trabalhadoras.

O Vão traz humanidade ao que muitas vezes é tratado como uma grande massa que não tem rosto, e tem. Cada pessoa dentro desse trem tem uma história. 

Tem alguns poemas que são reflexões de quem atravessa a ponte e isso é muito louco porque eu sou uma mulher que acessou outros espaços. Eu fiz universidade, fiz intercâmbio, então eu pude acessar o outro lado da ponte. Parafraseando Mano Brown, muito da quebrada para ser do centro, mas muito do centro para ser da quebrada. E o trem é exatamente essa ponte, é um lugar onde você comporta ser ponte.

Todo o dia quem está desse lado aqui da noroeste atravessa literalmente a ponte e para mim serve como uma grande metáfora dessas várias pontes que a gente foi atravessando mesmo e agora vai perdendo esses direitos. Para mim, vários textos servem como uma grande metáfora do que eu sinto. Quão difícil também é quando você atravessa a ponte, você pode morar no centro de São Paulo, você pode viver lá, trabalhar, mas as pessoas muitas vezes vão te tratar com preconceito que elas tratam quem é da periferia. O Vão fala sobre isso, sobre esses vãos de acessibilidade, esses muros que separam, essa ponte, essa geografia que a gente vai atravessando. Quando eu saio de Perus, uma região arborizada, daqui a pouco vem uma nova geografia de dentro do trem, ficando mais laranja, prédios gigantes. O que esse corpo sente quando está dentro do trem? Quais são as nuances?

O que uma pessoa que pega trem durante 10, 20 anos vai sentir no seu corpo e na sua psique? O Vão traz um pouco isso. 

Tem histórias de amor, como por exemplo, O amor de trem é passageiro. Tem histórias de coisas que eu flagrei, de pessoas se paquerando no trem, tem histórias de violência infelizmente, porque eu sempre assisti aos marretas passando por tudo isso, eu sempre sofri junto, às vezes sem saber muito o que fazer. Infelizmente tem uma violência muito grande. Tem uma realidade posta de um Brasilzão, em que o desemprego, a falta de oportunidades leva muitas pessoas a serem vendedores ambulantes dentro dos trens, ou até pedirem auxílio. 

O trem é essa grande casa onde tem muita gente e que muitas vezes está saindo até pela janela de tão cheio. É uma imagem meio dura até de se imaginar, e nessa imagem tão dura eu quis trazer humanidade, eu quis trazer as histórias das pessoas. Não tem como romantizar e falar ‘nossa, agora vou pegar um trem, vou escrever uma poesia’ . Não existe isso, existem pessoas e a vida não é só ferro bruto, não é só carcaça de ferro e só essa imagem bruta dos guardas que batem nas pessoas. 

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