Sâmia Teixeira

Sâmia Gabriela Teixeira é mãe de gêmeas e jornalista. Foi assessora da União Nacional Islâmica, onde criou o jornal Iqra. Atualmente integra a comunicação da CSP-Conlutas, escreve sobre movimentos sociais e mundo sindical internacional.

 

Quem aí não aguenta mais ouvir quando alguém diz “a pandemia foi um aprendizado”? Eu não.

Mas algumas lições todos nós podemos tirar para superar o ano de 2022 e, para a primeira coluna do ano, vale destacar algumas delas.

Talvez seja importante nos lembrarmos do que enfrentamos, o que superamos, para que possamos sobreviver a mais um ano, e quem sabe avançar um pouco rumo ao lugar tão merecido por nós, com um pouco de sol esquentando a carne.

Um lugar digno para nós, a classe trabalhadora, que move e constrói esse mundo.

Vamos à lista:

1 – O absurdo é possível

É verdade que tivemos que lidar das mais variadas formas com fatos surreais ao longo do ano.

Tivemos que começar 2021 assistindo à invasão ao Capitólio norte-americano, incrédulos com tais cenas de pessoas ensandecidas e homens portando chifres invadindo o símbolo político estadunidense.

Com essa memória dos EUA ainda fresca, por aqui, às vésperas do 7 de setembro, Bolsonaro ameaçava, mais uma vez, aplicar um golpe. Ofendeu ministros do Supremo e TSE (Tribunal Superior Eleitoral), insuflando alguns malucos que foram às ruas dizer “eu autorizo” com o apoio de ninguém mais ninguém menos que Sérgio Reis. Figura mais icônica, Impossível. Caminhoneiros pilhados foram à Brasília em meio às discussões amalucadas sobre a volta do voto impresso. Acabaram abandonados na viagem delirante, um tanto decepcionados com o presidente.

Michel Temer apaziguou os ânimos e Bolsonaro chegou a ser piada num jantar de políticos e empresários, num Brasil em que pessoas formam fila para receber ossos ou vasculham o caminhão de lixo por algum alimento que possa amortecer a fome.

É como cantavam os Mutantes: essas pessoas na sala de jantar, são ocupadas em nascer e morrer..

Outros eventos no Brasil foram bem traumáticos, como a falta de oxigênio para pacientes em Manaus, o experimento nazista da Prevent Sênior, as rachadinhas e corrupção com vacinas, a chacina no Jacarezinho.

Vivemos toda essa dor, enquanto bilionários viajavam ao espaço e a gente aqui desejando que nunca mais voltassem.

Tudo isso nos mostrou que não há mais limites para a atual realidade, que o Sensacionalista tem sido um veículo bastante razoável e que é preciso respirar fundo, tentar olhar com certo distanciamento, tomar um chazinho de camomila e focar no que é importante. E lutar a luta direta, por nossas vidas.

Neste ano, talvez mais do que em qualquer outro anterior mais recente, teremos que ter habilidade para lidar e superar a onda de desinformação, polarização, teorias bizarras e intolerância.

Ainda é (quero acreditar que sim) o último ano de Bolsonaro no poder. Não vai ser moleza.

 

2 – A rua é nosso lugar

Neste período, além de termos que diariamente buscar pela sobrevivência própria e dos nossos, os governos nos retiraram ainda mais direitos. Tivemos que brigar mesmo em meio ao risco de contaminação. Nada novo. Para quem é pobre – e sobretudo preto – se proteger é luxo.

Segundo um levantamento da Carnegie Endowment for International Peace, ao menos 72 grandes protestos ocorreram em mais de 100 países ao redor do mundo. Algo em torno de 25 destas manifestações de mais impacto tinham relação com a pandemia.

Especialmente para as mulheres, sobrou um rescaldo amargo do aprofundamento da miséria devido à crise econômica, a falta de emprego e alimentos. Tivemos que exigir o mínimo: democracia, direitos básicos e medidas de proteção contra a Covid-19.

Além disso, mantivemos em alta as velhas pautas das lutas dos movimentos feministas.

Exemplo claro é a onda de protestos contra violência à mulher, por igualdade de gênero, contra a restrição às medidas de interrupção de gravidez que aconteceram ao longo de 2021.

Em janeiro e outubro, na Polônia, com a limitação ainda mais dura para a realização do aborto, as mulheres foram às ruas, mesmo com restrições da pandemia.

Na Índia, mais um estupro seguido de morte foi motivo para inúmeras manifestações. Uma menina dalit, de apenas nove anos, foi abusada e assassinada enquanto buscava água. No país asiático, mais de 32 mil casos de estupro foram registrados em 2019, um estupro a cada 17 minutos.

Outro exemplo de luta que tomou as ruas durante a pandemia, e ainda sob sérios riscos à vida, foi a mobilização corajosa de mulheres afegãs contra o Talibã. E a respeito desta luta, vale um importante lembrete: na coluna de setembro, o Nós deu espaço à afegã ativista Lima Ahmad, que pediu que o mundo não esquecesse o que ocorre no Afeganistão, e nos alertou também sobre como as nossas realidades estão interligadas. 

Desde a retomada do grupo extremista, inúmeros direitos das mulheres foram retirados. Atualmente elas são proibidas de realizar atividades básicas em sociedade, como por exemplo utilizar casas de banho públicas, de sair, mesmo com familiares do gênero masculino ou de ocupar certos cargos profissionais. 

Segundo o Repórteres sem Fronteiras, 80% das jornalistas mulheres perderam seus empregos no Afeganistão. Figuras políticas tiveram contas bancárias congeladas e pedidos de asilo dificultados.

É difícil cravar o que seria se não estivéssemos nas ruas denunciando todos os ataques que sofremos, mas acredito que sem resposta direta, nosso buraco estaria certamente mais fundo.

Estamos lutando para manter um pouco de energia e seguir nossa jornada, mas é assim que, passo a passo, vamos recuperar, obter conquistas e avançar nos objetivos por uma sociedade mais justa e igualitária.

Portanto, com todos os cuidados, a rua sempre será nosso lugar de mostrar nossa existência e resistência. É nela que, incomodando a muitos, quebramos a invisibilidade que tentam impor a nós.

3 – Nós por nós

Considero este ano já passado um período longo, sombrio e distópico, porque nele tivemos a certeza de que a pandemia não veio para propiciar aprendizados – pelo menos não daqueles que agentes da espiritualidade tóxica pregam. 

Serviu para que tenhamos certeza de que não podemos prosseguir da mesma maneira. Essa crise começou nos matando por falta de ar – já morremos há muito tempo sem poder respirar com o joelho sobre nossos pescoços, como George Floyd, João Alberto. 

Aliás, o ano de 2022 começou com a sobrinha de George Floyd, a pequena Arianna de apenas quatro anos, sendo baleada em seu quarto enquanto dormiaNa base dessa pirâmide, nunca tivemos momento de trégua.

E depois da falta de oxigênio, o governo então passou a aniquilar a população pobre que com fome perdeu teto, acolhimento, perspectiva. Num momento de extrema necessidade de repensar este sistema que nos esmaga, governos e patrões nos empurraram ainda mais para baixo. 

Apesar de tudo o que nos foi exigido e tirado, tivemos dignidade. No mundo inteiro tivemos dignidade até mesmo quando o estômago gritou de fome e o filho morreu de Covid-19 ou tiro.

Quando a água, literalmente, bateu no pescoço, como ocorrido nas enchentes não somente no Brasil, mas em outros países também, foi a solidariedade de classe que nos salvou.

A gente precisa fortalecer essa consciência e alavancar nossa força, construir a luta na base, para derrubar os de cima. 

4 – A luta ambiental é urgente

Já que falamos de problemas ambientais no tópico anterior, vamos aprofundar o tema, por sua importância cada vez mais urgente.

Além das inundações devastadoras no Brasil, na Alemanha e nos Estados Unidos, por exemplo, também vimos ondas de calor mortais no Canadá, com incêndios de amplo alcance, e no Paquistão, que hoje enfrenta duras tempestades e nevascas.

Todos estes desastres “naturais” sabemos ter relação direta com a desigualdade e o capitalismo.

No Haiti, por exemplo, mais um terremoto devastou o país, já tão conturbado social e politicamente.

Como pude apurar em matéria para a CSP-Conlutas, “especialistas afirmam que a ilha caribenha, se melhor preparada, assim como países mais ricos e desenvolvidos, em situações extremas teriam menos mortes e destruição de casas e outras importantes infraestruturas.

Jonathan Katz, jornalista da Associated Press e autor do livro “O Grande Caminhão que Passou: Como o mundo chegou para salvar o Haiti e deixou para trás um desastre” relata que “grande parte dos gastos militares dos EUA logo após o desastre foi mais centrado na prevenção de protestos e para interromper a imigração em massa do que na reconstrução do país”.

Se todos os fundos gastos com tropas militares fossem canalizados para melhorar as condições de vida da população, o número de mortes por terremoto nunca ultrapassaria o saldo de 100 vítimas.

No Brasil, tivemos um retrocesso com o aumento acelerado do desmatamento da Amazônia, a mineração desenfreada e o garimpo ilegal que mata rios e comunidades originárias e tradicionais.

As mudanças climáticas de modo geral também são responsáveis por deslocamentos internos e migrações transnacionais. Isso faz com que milhares de pessoas em vulnerabilidade tenham que enfrentar jornadas exaustivas e perigosas, a hostilidade do Estado e a xenofobia enquanto buscam recomeçar suas vidas.

As pessoas que enfrentam a miséria, tendem a agir de maneira absolutamente raivosa e irracional nesses contextos. Na África do Sul, por exemplo, em protestos contra o aumento do custo de vida, mais de mil pessoas foram presas e centenas morreram, após saques a mercados e lojas. 

No mesmo período de tensão, demonstrações de intolerância e xenofobia contra imigrantes de outros países africanos foram registradas, com mortes e expulsão de pessoas de suas casas e até mesmo do país. 

Esse evento foi o mais violento desde o período de apartheid no país e pude tratar um pouco a respeito na primeira coluna de 2021 para o Nós: Ódio é ferida aberta do pós-apartheid na África do Sul.

Por isso, é preciso que nós e os movimentos organizados conectem as pautas sociais e ambientais, porque já sentimos os resultados mais catastróficos do aquecimento global e seus efeitos nas vidas dos mais pobres e das pessoas em trânsito que fogem de situações dramáticas.

5 – A democracia está capenga

Conforme dados publicados no livro de acesso gratuito “Protestos ao redor do mundo – Um Estudo das Questões Chave do Protesto no Século XXI”, o número de manifestações em todo o mundo mais do que triplicou em menos de 15 anos.

A partir de mais de 900 movimentos ou episódios de protesto em 101 países e territórios, o estudo apontou que vivemos atualmente um período da história como os anos por volta de 1848, 1917 ou 1968 “quando um grande número de pessoas se rebelou contra a realidade, exigindo mudanças”.

Para se ter ideia, em 2006 foram registrados 73 protestos, enquanto em 2020 houve 251, número mais elevado que as manifestações que ocorreram depois da crise financeira de 2008 ou das revoltas da Primavera árabe de 2011. 

A maioria dos eventos, mais precisamente 54%, foi motivada por uma percepção de fracasso dos sistemas políticos e representativos. Cerca de 28% dos protestos incluíam exigências como “democracia real”. Outros temas incluíam a desigualdade, a corrupção e a falta de ação nos enfrentamento à mudança climática. 

O tema é campeão não à toa. No mundo inteiro, direitos básicos democráticos foram ameaçados ou retirados.

Nas Filipinas, com a desculpa da “guerra às drogas”, o número de assassinatos de civis cresceu em mais de 50% nos primeiros meses da pandemia. Segundo dados da polícia, desde a posse de Rodrigo Duterte, quase 8 mil suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas foram mortos durante ações policiais.

Na Nicarágua, Daniel Ortega se livrou de opositores, censurou a imprensa e perseguiu militantes. 

Em Myanmar, o golpe militar prendeu opositores, professores e manifestantes. Professores e outros funcionários públicos foram perseguidos, demitidos ou presos por se declararem contra o golpe. 

Como forma de resistência, um forte movimento partiu de dentro de hospitais, escolas e órgãos públicos. Uma das mobilizações mais bonitas foi organizada pelas tecelãs – cerca de 700 mil, das indústrias de calçados e tênis para exportação, que paralisaram as atividades para participar das manifestações. 

Outro intenso movimento de questionamento dos sistemas de organização e econômicos que nos serve de inspiração é a luta chilena.

No Chile, uma revolta popular iniciada em 2019 não perdeu força nem mesmo nos períodos mais críticos da pandemia. Muitos manifestantes perderam a vida, os olhos e a liberdade. O povo chileno conquistou o plebiscito pela nova Constituinte e comemorou as conquistas inclusive na virada do ano, com uma bonita manifestação no local palco de grandes protestos, rebatizado de Praça da Dignidade.

Outro lampejo de esperança, ano após ano, especialmente pra mim, é a Palestina. Esse povo enfrentou mais um duro ataque militar em todos os territórios ocupados. 

Famílias foram expulsas do vilarejo de Sheikh Jarrah e os protestos deixaram centenas de feridos e detidos. Ainda assim, esse povo nos ensinou que a memória e o pertencimento são indestrutíveis.

Em homenagem às mulheres palestinas, a coluna internacional de agosto trouxe a história da parlamentar presa política palestina Khalida Jarrar, que perdeu a filha e não obteve autorização para comparecer ao seu enterro. 

Penso que todas essas experiências e inspirações são o recado para que possamos seguir questionando o que está colocado com a grandeza de gente inteira.

A cada morte de bala achada, a cada míssil da ocupação, a cada tiro no globo ocular, a cada tortura nas prisões, a gente se pergunta: a democracia serve a quem? Quais os interesses? A quem beneficia?

Temos um ano eleitoral pela frente e não é raro que períodos assim dispensem energia apenas nas urnas e nas viradas de votos. Não nos esqueçamos, porém, de que o nosso caminho é da luta diária, da construção com gente da gente, e que isso não pode ficar de lado.

 

6 – Cuidar de nós e dos nossos é importante

Temos vivido anos massacrantes. Ao longo de 2021 vi muitas pessoas próximas e queridas quebradas. Mesmo desconhecidos, que compartilharam relatos nas redes sociais expondo os cacos e as aflições.

A situação financeira piorou, a depressão e a ansiedade vieram com força e tudo isso sob o medo constante da contaminação pela Covid-19. 

Como muitos dizem: “o que adoece é a conjuntura.” Agora, com esse aumento de casos pela variante Ômicron e por Influenza, parece que chegamos ao ponto da normalização da pandemia.

A classe trabalhadora nunca teve o direito da escolha de se proteger. Para a maioria, a pandemia é parte encravada na vida há tempos, seja nos transportes públicos lotados, ou na única diversão possível nos botecos e churrascos.

Não parece existir solução possível na atual realidade – e pode ser que exatamente por isso a noção de real democracia apareça tanto nas discussões dos últimos anos.

E para além do físico, me questiono o quanto apoiaremos uns aos outros para o que não é visível. Estamos todos remendados, buscando forças para vencer etapa após etapa, vivendo um dia de cada vez.

Saberemos cuidar uns dos outros? E quando a pandemia se tornar endemia, nos reorganizaremos de qual maneira, aos pedaços ou com integridade? 

Essa é uma pergunta honesta mesmo, que me preocupa e me enche de um misto de desânimo e esperança.  Chegamos aqui, neste momento sombrio, por escolhas antigas, por descuidos e desatenções.

Saberemos ao menos olhar para isso tudo com a intenção de fazer diferente? Escolheremos a dignidade ou a sobrevivência? Mudanças substanciais ou paliativos? 

Nessa última anotação mental, não consigo trazer nada fechado, mas queria muito saber o que você pensa a respeito. Quais são as lições que precisamos aprender para este ano?

Quero crer que saberemos caminhar juntes, com memes, discussões sérias e firmeza nas ruas. Quero crer que amanhã vai ser outro dia. O nosso dia. Que 2022 comece.

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