Após a retomada do Talibã, imagens de eventos impressionantes como o desespero dos afegãos em fuga, agarrados aos aviões que levantavam voo, e os vinte anos do 11 de Setembro renderam muitas manchetes e capas de jornais e portais de notícias nas últimas semanas. Mas essa é apenas a superfície de problemas muito profundos.

E agora, que “a pauta esfriou”, o que fica sob os escombros destes eventos históricos e traumáticos? A quem atinge e a quem abandonamos quando a notícia morre?

No caso do 11 de Setembro, todos os anos acompanhamos relatos de familiares de vítimas, revemos as imagens da poeira e do aço torcido que restou das Torres Gêmeas.

Mas o que a mídia em geral deixa de lado é o dever de relatar também as consequências e os prejuízos humanos de um outro lado.

Com o objetivo de trazer essas questões à tona, busquei a orientação de Lima Ahmad, mulher afegã, doutoranda nas áreas de Segurança Internacional e Segurança Humana na Fletcher School of Tufts University. Lima possui pesquisa em zonas de conflito com foco em jovens e nas vulnerabilidades à violência extrema.

Ela fundou a Paywand Afghanan Association, que se concentra em pesquisas relacionadas às questões femininas, trabalhou com o governo e parceiros internacionais no Afeganistão nos últimos 20 anos em diferentes funções e publicou três relatórios de pesquisas: “Sistema Penal das Mulheres no Afeganistão”, “Participação das Mulheres no Processo de Paz do Afeganistão” e “OTAN como Organização da Reforma do Setor de Segurança”, além de vários outros artigos analíticos.

A pesquisadora expôs sua indignação quanto ao mundo estar tão silencioso sobre o que ocorre no país. “Temos no governo Talibã 17 membros oficialmente classificados pelos EUA como terroristas procurados e me pergunto como o mundo está de acordo com isso? Como entregar um país para este grupo terrorista internacional e esperar que nada vá acontecer? Nada como um novo 11 de Setembro, por exemplo? Não somos somente nós, os milhões de afegãos, que vamos enfrentar as consequências, mas o mundo inteiro se torna vulnerável como Talibã no poder”, alertou a pesquisadora.

País está no caminho de ter o número mais alto de mortes de civis em um único ano

Crédito: IOM/Muse Mohammed


Resultados da ocupação militar estrangeira

Vinte anos depois, constata-se que a presença das tropas dos EUA no Afeganistão causou mais deslocamentos internos em massa de civis, mortes, pobreza e gerações vivendo com o trauma da guerra. E, de fato, os norte-americanos contribuíram para o fortalecimento da teocracia e do jihadismo que hoje ameaça a vida do povo, sobretudo, das mulheres e meninas afegãs.

Para ter melhor ideia da real situação atual no Afeganistão, pedi informações para as afegãs da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão, cuja sigla em inglês é Rawa.

A ativista que concedeu a entrevista se identificou como Fareema. Ela faz parte deste movimento que atua clandestinamente no país há 40 anos, trabalhando pela conscientização das mulheres e por direitos à alfabetização, educação e outras pautas feministas.

Má administração e abandono

Fareema explicou um pouco sobre as consequências da ocupação dos EUA e da Otan em 2001 e relatou que “milhões de dólares foram supostamente destinados ao empoderamento e às organizações de mulheres, mas que essas organizações atuavam sob a direção dos EUA e sequer uma gota desse fundo chegou aos necessitados que vivem em áreas remotas”.

“A maioria dos fundos foi desperdiçada em altos custos administrativos e projetos superficiais. A maioria das agências de ajuda humanitária eram próximas ou parceiras amplificadoras de governos ocupantes. Após a retirada das tropas, todas essas organizações foram fechadas e a maioria dos responsáveis que estavam à frente dessas organizações deixou o Afeganistão”, contou.

Rawa é um dos poucos movimentos que ainda permanecem em território afegão após a volta do Talibã. Para as militantes da Rawa, “a luta por direitos às mulheres nunca se deu separada da luta contra os fundamentalistas criminosos, como o Talibã e seus criadores internacionais”.

Fareema contou que “a Rawa foi a primeira organização feminista a acreditar que é necessário haver mudanças políticas profundas no sistema para a liberdade de todos os grupos oprimidos, incluindo as mulheres. Afirmamos que a luta pela igualdade das mulheres não é separada da luta contra a ocupação e os terroristas misóginos”.

Na província de Herat, nove em cada 10 mulheres sofreram violência conjugal.

Crédito: UNAMA/Torpekai Amarkhel

Visão orientalista

Em qualquer lugar do mundo, algumas vidas são retratadas com mais valor do que outras. Não é diferente no Brasil ou quando pensamos em Ocidente e no lugar construído pelo olhar carregado de orientalismo e preconceitos.

Orientalismo é um pensamento carregado de colonialismo, que se coloca como civilizatório mas que distingue oriente e ocidente de maneira estereotipada, identificando as culturas como inadequadas e atrasadas.

Logo após a retomada do Talibã no Afeganistão, as notícias ao redor do mundo pautaram a opinião pública e o interesse pela situação política e social sobre o país asiático.

Com isso, uma onda de senso comum definiu as avaliações, como por exemplo a ideia de que todos os afegãos são como os membros do Talibã ou de que as mulheres são submissas e à parte da vida em sociedade.

A pesquisadora afegã Lima contou que antes da retomada do Talibã havia certo clima de “normalidade” no país. Ainda destacou a presença das mulheres ativas na sociedade.

“Havia um governo, as mulheres atuavam como servidoras públicas, professoras, ativistas sociais. Claro que sempre houve desafios, como existe em qualquer outro país de democracia recente ou em desenvolvimento. Os desafios que as mulheres sempre enfrentam ao ter de provar, de maneira mais exigente, a capacidade de participar da sociedade”, ponderou.

Agora, sob o domínio do Talibã, há mais preocupação. Tanto a pesquisadora quanto a militante da Rawa consideram que as vidas das mulheres afegãs estão seriamente ameaçadas. Lima contou que muitas mulheres ativistas ainda estão presas no Afeganistão, algumas já fugiram, mas a maioria ainda segue em perigo.

“As que permanecem ainda organizam protestos contra o Talibã, mas estão sendo agredidas, sequestradas e algumas até torturadas. Então há forte temor pela vida delas. E sabemos que algumas delas serão mortas porque não temos governo nem leis com as quais as pessoas podem contar. Os jornalistas estão sendo mortos e ninguém está dizendo quem comete esses crimes. Não há nenhum tipo de lei ou direito, então digo que a situação é muito ruim no país”, relatou.

Já Fareema contou que durante o protesto de mulheres em Cabul, “tiros foram disparados contra as manifestantes, além de bombas de gás lacrimogêneo. Muitas ficaram feridas, jornalistas foram espancados até a morte, mataram uma mulher policial grávida na província de Ghor, forçaram milhares de pessoas a deixarem suas casas na província de Kandahar”.

Foto publicada na na página do Revolutionary Association of the Women of Afghanistan (RAWA) no Facebook

Crédito: RAWA

Guerra ao terror

Reivindicado pelo Al-Qaeda, no ataque de 11/9 foram quase 3 mil mortos somente em Nova York. Em resposta, o governo norte-americano gastou 40 bilhões em um pacote emergencial antiterrorismo, invadiu o Iraque e o Afeganistão.

Tinha início, então, a chamada “guerra ao terror”.

Segundo dados de projeção de estudo das Universidades de Boston e Brown, a invasão e permanência dos Estados Unidos em território afegão custou cerca de 2 trilhões de dólares dos cofres públicos norte-americanos.

Um verdadeiro mercado bélico foi alimentado com esta ofensiva militar, além do interesse geopolítico e da exploração caracteristicamente colonial, que beneficia empresas e gente grande e influente.

Vale mencionar, apenas para exemplificar, que o ex-premiê britânico Tony Blair tinha negócios na casa de um milhão de libras por ano na Companhia de Investimentos Mubadala, com planos de extrair um trilhão de dólares em recursos e minérios do Afeganistão.

A corrupção e o desvio de recursos também aumentaram com a invasão. E isso custou vidas.

Além dos altos gastos financeiros empregados nesta ofensiva “contra o terror”, e embora o governo dos EUA não faça qualquer questão de contabilizar corpos – o general Tommy Franks, à época comandante da coalizão de forças no Afeganistão e Iraque, falou exatamente isso: We don’t do body counts (Nós não contabilizamos corpos) -, o número de mortos é assustador.

Foram mortos 66 mil militares e policiais nacionais afegãos, 47.245 civis afegãos, 444 ativistas humanitários e 72 jornalistas. Ao considerar o resultado de toda a operação de “guerra ao terror”, quase meio milhão de pessoas morreram violentamente.

Os drones, orgulhosamente considerados como uma das principais “ferramentas da guerra do século 21”, com suposta “precisão cirúrgica”, mataram muitos inocentes.

No Afeganistão, de acordo com informe da ONU (Organização das Nações Unidas), o número de vítimas civis de ataques de drones norte-americanos aumentou de 158 no primeiro semestre de 2018 para 430 no mesmo período de 2019. O número total de vítimas civis no país aumentou 39% até o final de 2019.

Um recente ataque de drones dos EUA em Cabul matou “acidentalmente” um voluntário de ações humanitárias, Zemari Ahmadi, de 43 anos. Junto do ativista, morreram mais nove membros de sua família, incluindo sete crianças.

A diretora-geral da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, está fazendo um apelo por liberdade de expressão e pela segurança de jornalistas no Afeganistão.

Crédito: UNAMA/Fardin Waezi

Quebrar o silêncio

Muitos consideram que a concepção internacionalista das lutas é fundamental para a organização da classe trabalhadora. Isso porque em um mundo de relações interconectadas e a percepção de que o sistema é o mesmo e as ofensivas também, a solidariedade e o fortalecimento do local pelo global pode significar concretamente salvar vidas e interromper movimentos de violência e sufocamento e de opressão e exploração dos povos.

O povo afegão vive há décadas processos violentos internos, que deixaram muitas vítimas, milhares de viúvas e órfãos. Mas é um povo que nunca parou de lutar.

A militante da Rawa ressalta que “a geração de hoje não é a mesma de 20 anos atrás”. Segundo a ativista, o papel das mulheres mudou muito desde 2001 e elas desempenharam um papel ativo nos setores de saúde, educação e nas organizações não-governamentais.

“Mas é preciso lembrar que nunca foram os militares ocidentais que nos concederam esses valores, mas que foram conquistados ao longo de um curso natural de uma sociedade em evolução. Hoje existem mulheres e meninas conscientes, que sabem exatamente quais são seus direitos e que eles não podem ser concedidos por outro país. Que é preciso se defender e fazer ser ouvida sua própria voz”, afirma Fareema.

Para nós, as mulheres afegãs da Rawa deixam um recado: “ao povo amante da liberdade e às forças antifascistas da América Latina, pedimos que demonstrem apoio e unidade com o povo, em especial às mulheres do Afeganistão, para fortalecer a luta, porque temos um inimigo comum e uma experiência comum na luta contra fantoches e ditadores de regimes imperialistas”.

Após tudo o que nos foi compartilhado, penso que fica nosso dever internacionalista de sermos verdadeiramente irmãs de luta das mulheres afegãs. Vamos potencializar a causa? Busque mais informações, acompanhe os relatos dessas mulheres, acolha, divulgue e fortaleça a resistência.

A comunicação entre nós, de baixo e das periferias, é uma de nossas armas. Nem as dores nem a grandeza da mulher afegã caberão no noticiário ou numa capa de jornal. Que todo o movimento seja adiante e revolucionário.

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