Bianca Pedrina

Bianca é jornalista, cofundadora e gestora operacional do Nós, mulheres da periferia e comentarista de BBB nas horas vagas.

Sim, esta é uma coluna de uma mulher da periferia, mas você não lerá apenas sobre gênero e território. Hoje quero falar sobre algo que também atravessa essas condicionantes, mas não apenas. Afinal, como estar contente sendo mulher e pobre em um mundo machista e capitalista? Não há autoajuda que sustente esta mentira!

Estive pensando nessa pressão de estar ou tentar ser positivo o tempo todo e de como isso tem sido nocivo por aqui. Eu mesma faço isso. Vire e mexe compartilho frases motivacionais na linha: ‘força guerreira’, ‘estamos juntas’, acompanhadas de poesias de empoderamento feminino ou qualquer coisa desse tipo.

Me julguem, porque minha referência de infância é o filme da Xuxa “Lua de Cristal” cuja música chiclete versa sobre “tudo pode ser, só basta acreditar”, ou seja, sou a primeira a fazer a autocrítica de que sim, também sou adepta da positividade tóxica.

Mas estou cansada dessa pressão e talvez você também esteja. No momento que escrevo essa coluna, o dia está meio bosta, eu estou cansada e mais uma vez não consegui fazer tudo o que eu pretendia.

Em momentos assim, eu flerto entre ficar em posição fetal, chorando até pegar no sono, ou sair correndo gritando pela rua: “eu não aguento mais!”. Mas eu faço o que? Digo para mim mesma: ‘força guerreira’, ‘você dá conta’. Não me permito cair, porque até para isso é preciso tempo, coisa que não temos por aqui.

Olha que violento isso, ultimamente nem tempo para viver nossos momentos de crises existenciais temos tido. A moda é ser resiliente, que é a arte de ter paciência e não se estressar, contar até dez diante das adversidades da vida. Mas como eu tenho dificuldades em seguir tendências, por dentro estou queimando em brasa e com vontade de explodir coisas (é só uma figura de linguagem, pessoal!).

Como também consumo essas frases motivacionais: ‘respire, relaxe e conte até dez’ me sinto frustrada quando falho miseravelmente e minha única vontade é mandar alguém ir à merda.

Olha que loucura, eu me frustro porque não consigo domar a raiva que tenho dentro de mim e fico com mais raiva ainda. Contra fatos não há argumentos: parei de tentar porque é muita frustração para lidar. Às vezes não há o que ser feito a não sentir a raiva e mandar pessoas para aquele lugar. 

Buda que me perdoe, Gandhi também, mas eu não evoluí o suficiente para lidar com esses sentimentos apenas meditando ou ouvindo mantras. E olha que eu sou dessa turma. Até yoga já fiz. Também tomo chás, acendo incensos e tudo mais, mas nem sempre resolve.

Convenhamos que estar sempre no controle nesse mundo cão  – repito, sendo mulher e pobre – é tarefa quase impossível (se você consegue me dá as dicas).

Todas as vezes que eu senti raiva, tristeza e frustração isso também me levou para algum lugar: o fundo do poço (hahah). Mas, depois de ir para lá e  abraçar e xingar a Samara – referência ao filme “O Chamado” -, voltei e a vida seguiu o fluxo de sempre. 

Em um episódio do podcast Conversa de Portão com a Pam Ribeiro, que tem como ofício ser bruxa e subverter algumas ordens, ela me disse uma frase que fez sentido sobre abraçarmos nossas tristezas. “Pode surgir alguns medos e inseguranças e situações de sentimento, que antes nem reconhecíamos, mas não acho que temos que nos culpar por acessar nossas “sombras”; é sobre reconhecer que ela existe e não deixar que ela nos determine”.

Até entendo que o clima good vibes propagado sobretudo nas redes sociais, é um fio de esperança de que dias melhores virão. Mas até que ponto isso tem consonância com a realidade ou só está nos anestesiando?


Coluna originalmente publicada no Expresso Na Perifa

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