Na Educação infantil, o processo de ensino e aprendizagem não se dá de forma conteudista. As crianças aprendem principalmente na interação e socialização. É o brincar coletivo que propicia uma aprendizagem com mais significados.

 

Assim, pensar uma escola dessa etapa de ensino sem o contato, o toque e a afetividade é uma escola que estará o direito à aprendizagem comprometido. Entendendo esse contexto e o cenário ainda complexo da pandemia, questionamos: retomar as aulas neste momento favorece a quem?

O Plano São Paulo, apresentado pelo governador João Dória, prevê um possível retorno às aulas em 8 de setembro. As datas ainda dependem da manutenção do status de segurança, que são estabelecidos a partir de critérios da Secretaria de Saúde.

A partir dos dados, podemos notar que a Secretaria de Saúde não aponta no sentido de que 8 de setembro seria uma data possível para o retorno. Já são mais de 81 mil mortes e mais de 2 milhões de casos em todo o país. 

Mas, caso essa volta se concretize, precisamos refletir sobre diversos pontos e nosso papel enquanto educadores também deverá ser revisitado à luz da nova situação mundial. Não podemos mais aceitar salas superlotadas. Precisamos rever até mesmo a relação professor-aluno e  o uso dos espaços coletivos. É preciso realmente planejar esse retorno, garantindo a segurança dos professores, dos profissionais de educação e das nossas crianças

É importante relembrar que nós temos pessoas com mais de sessenta anos, que integram o grupo de risco e têm mais chances de desenvolver um quadro mais grave da Covid-19. Quem irá substituí-los? Como? Como será a adaptação?

A minuta de retorno orienta que alunos que apresentem alguns sintomas, como febre, tosse, sejam mantidos em local isolado, sendo que uma sala deveria ser direcionada especificamente para que essas crianças fiquem aguardando a retirada dos responsáveis. Porém, as escolas não contam com esses espaços. Onde acomodar essas crianças? 

As famílias sinalizam para nós que se sentem inseguras, assim como nós, profissionais da educação. Isso porque não existe remédio eficaz, não existe vacina, não existe garantia nem mesmo com uso de máscara, de álcool em gel, e de equipamentos de segurança individual que são utilizados pela saúde.

Como nós, profissionais da educação poderíamos encontrar uma maneira de nos proteger, e assim proteger as nossas crianças?

Crianças de zero a três anos sabidamente não têm condições de usar a máscara e muito facilmente pode se distrair, e tocar sua boca, seu rosto, se tocar num momento de transição de um espaço para o outro, tocar no colega e tocar superfícies.

Como que a gente vai garantir a segurança dessa criança? Perguntamos à Secretaria Municipal de Educação se essas famílias vão ter garantido os seus direitos de não enviar as crianças para a escola, mas ainda não temos resposta.

A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) prevê que a obrigatoriedade da educação a partir dos quatro anos de idade e que a família não tem opção sobre isso, no entanto, dada a proporcionalidade apresentada pelo documento, que é 35% das crianças, retomarem agora, a gente não sabe como isso vai acontecer. Não sabemos se, diante dessa situação de pandemia, haverá uma adequação da legislação, pensando na situação dessas famílias.

É um momento de muita dificuldade para todos nós. Imaginamos os impactos emocionais que isso vai gerar nas crianças. Não temos nenhum indicativo de queda da contaminação, muito pelo contrário. Embora eu considere extremamente importante que a escola se reveja e repense o seu formato, a reabertura deve acontecer quando houver condições de segurança e de saúde, quando a transmissão estiver controlada e quando houver uma vacina e um remédio eficiente no tratamento e na cura da Covid-19.

Ou a gente tem o atendimento dos protocolos de segurança, ou a gente tem condições de aprendizagem real na infância. Uma coisa se opõe diretamente à outra. As propostas pedagógicas não estão contidas neste documento. Vamos voltar à escola. Porém, em detrimento da aprendizagem? 

Neste momento, é hora de parar, repensar os procedimentos, repensar a escola como um todo, mas que, definitivamente, de acordo com os especialistas da saúde, uma vez que esse é o lugar de fala deles, este não é o momento para o retorno.

Juciele Nobre é pedagoga, educadora da infância e gestora da Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) CEU Feitiço da Vila, na zona sul de São Paulo.

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