Mariana Felix de Quadros

Doutoranda em Ciência Política UFRGS, mestra em Ciência Política, internacionalista e pesquisadora sobre a questão racial.

O gatilho de ver outra mulher negra humilhada, rejeitada e criticada por todas e todos foi inevitável (Não é à toa que, para Vilma Piedade, nós mulheres pretas compartilhamos “dororidade” ao invés da “sororidade” do feminismo branco). A participante do programa Big Brother Brasil, Natália Deodato, o só não foi para todos os paredões porque esteve imune em um.

Natália foi massacrada no Jogo da Discórdia por quase todos jogadores. Aqui fora, também somos as mais julgadas, as menos perdoadas, as mais observadas e as menos compreendidas.

A socióloga e ativista brasileira Vilma Reis cunhou o conceito de dororidade a partir da inquietude de não se identificar com a palavra Sororidade, necessitando de algo que contemplasse mais a sua existência de mulher negra. Dororidade é a empatia das mulheres negras ligada pela dor comum.

Se as pessoas compreendessem como o racismo nos molda como sujeitos sociais, talvez entenderiam o tom da nossa fala como um pedido de socorro. Talvez compreenderiam que o fardo realmente é muito grande e, por vezes, a gente desaba. E isto não é vitimismo: é, sobretudo, exaustão. A escritora norte—americana Audre Lorde discute a raiva como ferramenta de ação política para o feminismo negro, descolonizando a ideia de “mulheres negras raivosas” em nível pejorativo. Somente para quem não precisa se autoafirmar durante a vida toda, a “voz calma”, a leveza e a “good vibes” são possíveis.

O que vocês chamam de “mulher assustadora”, “raivosa”, “desagradável” eu chamo de racismo.

Estamos cansadas. Não esperem calmaria a todo momento em meio à ventania de viver em uma sociedade estruturalmente racista e desumana. O que há de mais perverso do que termos nossos corpos desumanizados e termos que ser gentis a todo custo?

Considerando um contexto não muito longe, onde nossos ancestrais tinham que sofrer calado, expressar a nossa raiva também é um ato de liberdade! Leiam e entendam mulheres negras. O massacre em praça pública de uma mulher negra em reality também acontece cotidianamente aqui fora.


Este texto foi publicado originalmente no Instagram da Mariana Felix de Quadros.

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