Esta reportagem integra a série “O Valor da Escola”, uma parceria entre a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e o Nós, mulheres da periferia.

“O Ensino Médio é uma fase escolar, mas também é uma fase da vida”, diz a mestre em Ciências Sociais e doutora em Educação Ana Paula Corti. Ela aponta que esse momento é peculiar, pois o adolescente começa a entrar na vida adulta e romper com referências da infância. É também um momento de maior cobrança da sociedade em relação à futura profissão e trabalho. Além de ser um período de questionamentos e conflitos existenciais.

“O Ensino Médio é uma fase escolar, mas também é uma fase da vida”

A escola é o ambiente que vai acolher esses jovens, como um lugar para viver coletivamente esta fase da vida. “Não ter a oportunidade de estar na escola é quase que não ter esse espaço um pouco mais livre para poder fazer essa experimentação”, afirma Ana Paula.

Ensino médio

Ana Paula Corti é mestre em Ciências Sociais e doutora em Educação.

Crédito: arquivo pessoal

Dados da PNAD Educação (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostraram que mais da metade da população adulta do país não havia concluído o Ensino Médio em 2019. A pesquisa mostrou também que 57% dos adultos brancos haviam concluído essa fase, frente a 41,8% dos adultos negros.

A educadora e socióloga Ednéia Gonçalves critica a ideia de que a continuidade dos estudos depende apenas da autodeterminação do adolescente. Isso, segundo a também coordenadora executiva adjunta da ONG Ação Educativa, desconsidera todo um contexto de vida e esvazia a noção da educação de qualidade como um direito coletivo.

Novo lugar da juventude periférica

Thaisiane Dutra está no 3º ano do Ensino Médio.

Crédito: arquivo pessoal

Thaisiane Dutra está no 3º ano do Ensino Médio, e, portanto, finalizando essa fase escolar. Ela mora em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e conta que no 2º ano iniciou em uma escola nova. Mas antes que pudesse criar vínculos com professores e colegas as aulas presenciais foram suspensas em razão da pandemia da Covid-19.

Com as aulas online e a redução de salário da mãe, ela decidiu começar a trabalhar. De modo autônomo, atua como manicure e pedicure, design de sobrancelhas e trancista. O serviço ocupava suas manhãs, tardes e início da noite, então não conseguia assistir as aulas remotas. Optou apenas por fazer as atividades passadas pelos professores na plataforma virtual. A nova rotina prejudicou o desempenho escolar, Thaisiane chegou a ficar de recuperação. “A  minha prioridade naquele momento era trabalhar”, diz.

A pesquisa Juventudes e a Pandemia do Coronavírus, do Atlas da Juventude, revelou que de 2020 para 2021 aumentou de 23% para 38% a proporção de jovens que buscaram complementar sua renda por necessidade. Entre os adolescentes negros, o indíce é de 47%.

Ednéia Gonçalves salienta que as responsabilidades dos jovens negros e periféricos aumentaram durante a pandemia, um período caracterizado pela experiência do luto e maior empobrecimento.

“A gente tem que pensar que essas jovens e esses jovens fizeram parte das soluções das famílias, isso quer dizer você ter que buscar grana, participar do cuidado dos irmãos menores”.

Acrescenta que essa nova realidade não interfere somente na rotina de estudos, mas também “no lugar dele [jovem] dentro da família, eles assumiram um papel muito diferente do papel que tinham antes”.

Com a volta às aulas presenciais, Thaisiane passou a aproveitar melhor os estudos. “Como as aulas estão presenciais, eu me obrigo a vir e depois ir trabalhar”, conta. No retorno, se sentiu acolhida por professores e colegas “parece que eu conheço eles há anos”.

No entanto, a educadora Ednéia aponta que as transformações que ocorreram na vida dos estudantes não se resolveram com a retomada do ensino presencial. Isso porque as famílias continuam mais pobres e na tentativa de se reestruturar.

Jovens fora da escola

O abandono escolar foi notável nas turmas de 3° ano do Ensino Médio na escola de Thaisiane, o que vai se refletir numa redução de formandos neste em 2021. “Muitos foram para o período noturno para conseguir trabalhar durante o dia, outros só largaram o colégio para conseguir trabalhar mesmo”, relata.

Alicy Neres criou, junto a colegas, o Projeto Células Motivadoras.

Crédito: Arquivo pessoal

Numa outra escola, em Santana do Cariri, no Ceará, o abandono escolar de colegas incomodou a estudante Alicy Neres. Ela finalizou o Ensino Médio em 2020 e atualmente está cursando Biologia. Alicy e uma amiga perceberam que muitos colegas não estavam comparecendo à escola. Fomos atrás de saber quais foram os motivos para que esses alunos faltassem tanto”. A partir disso, foi criado o Projeto Células Motivadoras, em 2018.

O projeto conta com palestras e rodas de conversa que discutem a importância de permanecer na escola. Além disso, os estudantes também desenvolveram as chamadas “Cartas Quentes”, que trazem mensagens de incentivo e são enviadas aos alunos que deixaram de comparecer às aulas.

Se a carta não é respondida e os estudantes não voltam à escola, o próximo passo é a realização das visitas domiciliares. “Alguns ficavam bem constrangidos”, conta Alicy, mas “a gente procurava ter uma conversa de aluno para aluno, porque eu sei que é meio intimidador se um coordenador ou um professor for falar”.

Alicy conta do caso de uma estudante que engravidou e decidiu se manter fora da escola. Na visita a sua casa, o projeto a convenceu de continuar estudando, e então Alicy e ela finalizaram juntas o 3º ano do Ensino Médio.

A pesquisa do Atlas da Juventude indicou que passou de 26%, em 2020, para 36% em 2021, a porcentagem de jovens entre 15 e 29 anos fora da escola. A necessidade de trabalhar foi a maior causa relatada para o abandono das salas de aula.

Ensino Médio

Ednéia Gonçalves é socióloga, educadora e coordenadora executiva adjunta da ONG Ação Educativa.

Crédito: arquivo pessoal

Para Ednéia Gonçalves o aumento da evasão escolar tem a ver também “com o fato de mudar a forma como se vivencia a juventude coletivamente, porque as comunidades tiveram que se organizar para poder manter a vida”. A socióloga chama a atenção para o papel social da escola de dialogar com esse novo momento.

Ana Paula Corti aponta que exclusão educacional é uma consequência desse cenário de menor acesso à renda vivenciado na pandemia. “A educação nesse contexto vai ocupar um lugar secundário para essas famílias mais empobrecidas”.

Já Ednéia menciona nossa inserção em um sistema criado para manutenção de privilégios: “quando a gente olha o quanto a evasão aumentou, a gente percebe o quanto essa política construída a partir de privilégios da supremacia branca consegue se manter, porque o Brasil é essencialmente e estruturalmente racista”.

Para Ana Paula os impactos da evasão escolar na vida dos jovens são de várias ordens: econômica, social e pessoal. Ela chama atenção para a importância da convivência na juventude, que foi prejudicada pela necessidade do isolamento social. “Os efeitos da pandemia na educação foram muito mais profundos e deveriam gerar políticas públicas muito mais profundas de distribuição de renda do que querem os economistas que estão tentando colocar em planilhas o tamanho desse prejuízo para o país, como se o prejuízo do pobre fosse igual ao do rico”, afirma.

Aprendizados do Ensino Médio

Ana Paula conta que o Ensino Médio tem “história meio atrapalhada” e foi implementado de maneira improvisada no país. “O Ensino Médio nunca foi um projeto do Estado brasileiro para os jovens das classes populares e trabalhadoras”, diz e acrescenta que a entrada desses grupos nessa etapa ocorreu a partir da reivindicação por vagas.

O bom Ensino Médio, segundo Ednéia, é aquele que considera as diferentes realidades e experiências dos estudantes, e consegue articular essas questões com os conhecimentos escolares. Este período “não pode ser visto apenas como pré-alguma coisa, apenas como o antes do ensino superior”.

Além dos aprendizados nas áreas de linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas e sociais, os alunos devem ter também uma preparação para o trabalho e para a cidadania. Conforme aponta a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), os três anos do Ensino Médio também devem propiciar ferramentas para leitura da realidade e tomada de decisões éticas.

O Ensino Médio se consolidou como uma “etapa de formação geral para todos, com 2400 horas de formação”, afirma Ana Paula. É também um momento para pensar em projetos futuros, como o ingresso na universidade.

Mudanças em 2022: reforma do Ensino Médio

Esse formato do Ensino Médio como formação geral para todos os estudantes mencionado por Ana Paula deve mudar em 2022. Isso porque está prevista a implantação da reforma do Ensino Médio. Com a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional pela Lei nº 13.415/2017, os alunos deverão escolher uma parte de seu currículo. Terão aprendizados previstos na BNCC e a opção de escolha entre variados itinerários formativos, cada um deles com foco em uma das áreas de conhecimento.

Para a doutora em Educação, a reforma vai aumentar as desigualdades educacionais, pois vai segmentar conhecimentos que antes eram gerais. No vestibular, esses aprendizados serão cobrados. Ela questiona também a antecipação de uma escolha que era feita após a conclusão do Ensino Médio. “Ele [estudante] vai escolher com base em que?”.

Ednéia também chama atenção para a desigualdade: “não é porque você tem ali um cardápio que você vai ser servido da mesma forma”. Acrescenta que a reforma coloca como uma escolha individual o futuro do estudante, sem considerar sua trajetória, em que o jovem muitas vezes já está inserido no universo do trabalho.

Menos estudantes negros no Enem 2021

A estudante Thaisiane Dutra prestou o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) neste ano. Teve mais facilidade no primeiro domingo de prova, que contou com questões de ciências humanas, linguagens e códigos e também com a redação. Já no segundo dia teve dificuldade com as questões relacionadas a ciências da natureza e matemática. A jovem está confiante e sua meta é ingressar em curso tecnólogo de Estética e Cosméticos.

Thaisiane fez a prova num cenário de diminuição de mais da metade do número de estudantes negros inscritos. Em 2020, foram 3,4 milhões de estudantes, em 2021 o número de alunos negros baixou para 1,6 milhão. Esse dado é anterior ao período de reabertura das inscrições determinada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), quando houveram mais 280 mil inscrições.

Para Ednéia esse número é reflexo das já mencionadas mudanças na realidade dos estudantes durante a pandemia e também da escolha das políticas públicas de educação. A educadora salienta que o direito à educação não pode estar desarticulado de outros direitos como moradia, saúde e renda.

“Quando a gente olha lá na ponta a redução dos estudantes e das estudantes pretas e pretos no Enem, é porque antes já tinha ocorrido um processo de exclusão”, diz. Ela afirma que deveríamos ter ações afirmativas para que os estudantes mais prejudicados pudessem participar da prova. “O estudante está lutando sozinho”, conclui.

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