Há exatamente um ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a Covid-19 como pandemia. Naquele momento, o Brasil tinha ainda poucos casos da doença em território nacional, e os que haviam eram principalmente entre os mais ricos.

Não existia ainda nenhuma estratégia pensando no vírus quando ele chegasse nas pontas. Algumas de nós integraram a articulação nacional #CoronaNasPeriferias, que teve como intuito reunir comunicadoras e comunicadores e comunicadoras de todo o Brasil para informar as periferias sobre como se proteger. 

Mesmo sem ter respostas governamentais precisas, veículos entenderam a importância de dialogar com as periferias e favelas considerando nossas peculiaridades.

Entre elas, a falta de água para lavar as mãos, a não possibilidade de realizar home-office ou deixar de trabalhar, e as condições físicas e estruturais comunitárias de moradia nesses espaços — casas próximas uma da outra e grande número de habitantes em um mesmo espaço — que impedem um isolamento total.

Desafios e ajuda mútua

Diante das incertezas e medos, a primeira reação do Nós, mulheres da periferia foi fazer aquilo que estamos fazendo nos últimos sete anos: contamos o impacto da doença na vida das mulheres negras e periféricas, a partir de suas experiências.

Ouvimos de princípio mulheres profissionais de salões de beleza, mostrando os impasses de quem depende apenas do trabalho como autônoma para sobreviver.

Além dos desafios, desde o princípio, evidenciamos também a potência envolvendo mulheres na luta contra a fome, seja na entrega de marmitas ou cestas básicas para quem já sentia, antes ou durante a pandemia, as dificuldades sociais e econômicas que só ficaram ainda mais evidentes diante da crise de saúde. Você pode conferir um vídeo sobre a rotina dessas mulheres aqui.

Importância do SUS

Ainda em março, publicamos o especial ‘Na periferia da saúde – precarização do SUS afeta mais mulheres negras e pobres’, reafirmando nossa defesa desse que é um dos sistemas de saúde referência em todo o mundo e que atende pelo menos 75% da população brasileira.

Mostramos os retrocessos e desmonte do financiamento da saúde e como isso impacta a população, principalmente em meio à pandemia, também conversamos com agentes comunitárias e conselheiras de saúde e expoentes históricas da periferia da zona Leste de São Paulo criaram o movimento embrião do que viria se tornar o SUS.

Auxílio emergencial e outras tretas

Com o avanço da doença, as dificuldades também foram se atenuando. Não deixamos de cobrir a incidência e início do auxílio emergencial, garantindo informação sobre o que importava às mulheres, muitas delas chefes do lar. Também ouvimos quem foi vítima de fraude e não conseguiu acessar o recurso que tinha por direito.

Profissionais da saúde da periferia na linha de frente da Covid-19/ Arquivo pessoal

Linha de frente da saúde

Ouvimos as profissionais da saúde: enfermeiras, agentes, médicas. Linhas de frente que nunca puderam parar, mesmo com medo de contrair a doença. A elas, todo nosso respeito e admiração.

Também continuamos mostrando a solidariedade das mulheres periféricas — algo que vem de muito longe — produzindo máscaras de pano ou sabão caseiro, a fim de colaborar ao com quem não tinha condições de se proteger.

Racismo Ambiental: quando falta água, quem pode lavar as mãos?

Produzimos um especial mostrando como as desigualdades de estrutura e proteção diante de uma pandemia era ocasionada também pelo racismo ambiental, ouvindo mulheres indígenas e quilombolas.

A falta d’água durante dias, o impacto das queimadas do Pantanal nas periferias e a invasão das terras indígenas, continuando a dizimação etnocida dos povos indígenas do Brasil foram tema que também discorremos aqui, munindo nossa audiência de informações de diferentes periferias.

Trens e ônibus lotados na pandemia

Também ouvimos aquelas que não puderam parar de usar transporte e mostramos como desafios históricos de longas distâncias, lotação e de estrutura pioraram ainda mais a vida de mulheres que não tiveram outra escolha, senão a de se arriscar para conseguir continuar levando o sustento para casa.

Cultura: o show teve que continuar

Também entrevistamos as artistas, grupo de trabalhadoras tão importante e que democratizou a arte nas bordas nos últimos anos, que enfrentaram o desafio de continuar auxiliando a saúde mental da população, com peças, música e lives, mas também sobreviver.

Educação pra quem?

Professoras, mães e estudantes. Nossa cobertura, do ano passado até hoje, olha para as várias dimensões que envolvem a educação nesse momento.

Os grandes desafios educacionais ficaram ainda mais evidentes. Não havia e ainda não há internet para todo mundo. Estudantes lutaram para adiar o Enem e nós ouvimos seus sonhos e como estavam comprometidos sem acesso à educação.

A estudane Nataly viralizou a campanha #AdiaEnem/ Arquivo pessoal

Crédito: Arquivo pessoal

Crianças e adolescentes perderam praticamente um ano de estudo. Educadoras aguerridas continuaram fazendo o que podiam, mas bem sempre com o apoio que precisavam. Mães ficaram sem sua rede de apoio e tiveram que dar conta de casa, das aulas remotas dos filhos e do trabalho remoto.

Se tem algo que aumentou ainda mais na pandemia, foi o trabalho doméstico. Desde o início, nos dedicamos a refletir esse tema e mostrar o cansaço das mulheres, principalmente as mães, que incidiram por licença maternidade até o fim da pandemia.

Vidas negras importam

Como se não bastasse a doença que mata diariamente, também tivemos que lidar com o racismo estrutural de nossa sociedade, que há muito vem nos matando.

O Nós foi às ruas e se somou a outros veículos para cobrir os protestos ‘Vidas Negras Importam’ de São Paulo e Rio de Janeiro, denunciando as estruturas racistas que deixaram evidentes as diferenças entre brancos e negros, ainda mais na pandemia.

Ato Vidas Negras Importam Largo da Batata - 7 de junho de 2020

Ato Vidas Negras Importam Largo da Batata – 7 de junho de 2020

Crédito: Semayat Oliveira

Saúde mental das mulheres

Com o tempo passando, muita gente vivendo muitos lutos, dores e medos, também entendemos que tínhamos que intensificar nossa cobertura sobre saúde mental das mulheres negras.

Terapia e Yoga a baixo custo, sex shop na periferia, músicas para relaxar sem sair de casa, e aprender a amar na distância foram algumas de nossas pautas também.

Greve dos apps e violência doméstica

Quais foram e ainda são as dificuldades das mulheres entregadoras de Apps na pandemia? Não ter lugar pra fazer xixi, nem trocar o absorvente, e sofrer com o machismo diariamente são algumas das respostas que elas nos deram diante de uma das maiores greves de 2020.

Infelizmente, a violência doméstica também não deu trégua em meio à crise. Com o isolamento social, ela só se intensificou.

Uma mulher é morta a cada 9h no Brasil. Em uma escuta difícil e dolorosa, conversamos com mulheres que sofreram violência ou que cuidam das que sofreram, mostrando como o corte na área da assistência social afetava inclusive mulheres negras e periféricas. Além disso, produzimos um serviço com lugares que as mulheres podem sempre acessar caso precisem.

Abuso e aborto legal

Além da violência, o abuso sexual de crianças e jovens subiu exponencialmente no país, principalmente com as crianças isoladas, sem ir à escola. Além dos casos subnotificados, um teve repercussão nacional, pois trazia o debate do aborto em caso de estupro. Produzimos um serviço com uma lista extensa de lugares que oferecem aborto legal às mulheres, mostrando quando o aborto é permitido e o que fazer.

Boletim Curva das Periferias

De agosto a dezembro, Nós, mulheres da periferia e Alma Preta nos dedicamos a construir o boletim quinzenal ‘Curva das periferias: Negros e pobres diante da pandemia de Covid-19 em São Paulo’.

Apresentamos o número total de mortes, confirmadas e suspeitas, por Covid-19 na cidade de São Paulo, a partir de um ranking com os cinco distritos mais e menos afetados desde o começo da pandemia.

Além disso, traçamos um panorama de como a curva de mortes se comportou nesses distritos mês a mês, desde março, indicando também como os bairros mais afetados eram majoritariamente negros. Demos rostos às histórias por trás dos dados em grandes reportagens que mostraram o dia a dia de trabalhadoras ainda em meio à pandemia e denunciamos as falhas do Estado em conter a pandemia localmente.

Vacinas e o preço do arroz

Denunciamos os altos preços dos alimentos nas prateleiras dos mercados e fomos até os portões de nossas vizinhas para saber o que elas pensavam sobre a discussão em torno da vacina.

As mulheres da periferia sempre foram à favor da vacina, assistiram com esperança Monica Calazans ser a primeira mulher do Brasil a receber o imunizante e agora as nossas mais velhas vibram em receber as primeiras doses.

A assistente social Maria Lúcia Silva recebe a primeira dose da vacina.

Crédito: Arquivo pessoal

Desistir não é uma opção

Perguntamos para mulheres que entrevistamos em 2020 o que esperam para o ano de 2021. A pandemia deixou marcas e muitos desafios foram enfrentados pelas moradoras das periferias. A Covid-19 assustou, mas não fez esmorecer.

Diante desse contexto cheio de incertezas, a esperança ainda permeia o sentimento de cada uma das entrevistadas. O nosso também. Hoje, após um ano cobrindo a pandemia e contando as histórias de nossas iguais desejamos que as políticas de morte abram espaço a mais políticas de vida. As mulheres negras e periféricas também querem viver.

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