Você já se sentiu julgada por gostar ou discutir política? Na última semana, fizemos essa pergunta nas redes sociais do Nós e a resposta é, infelizmente, óbvia: as mulheres se sentem julgadas por apresentarem suas opiniões sobre temas políticos.

“Parece que nossa opinião não tem credibilidade nenhuma e qualquer homem desinformado se acha no dever de saber mais que nós, mulheres”, comentou a leitora Thainara Caproni.

‘Minha vida é um ato político’

Uma outra leitora reafirma seu gosto pela discussão política, dizendo que o assunto virou um de seus preferidos. “Amo política. Ouço análise política, geopolítica. Depois que entendi que minha vida é uma ato político, política virou meu assunto favorito no mundo”, conta Michelle Viana.

Embora a sociedade tenha aumentado a compreensão sobre o importante papel político das mulheres negras e periféricas, isso nem sempre foi assim. O voto feminino só foi liberado no Brasil em 24 de fevereiro de 1932, sendo um direito ainda muito recente no país.

Antonieta Farias Gama foi a primeira deputada mulher e negra a ocupar um cargo político em todo o país, em 1934. Na foto que registra o dia de sua posse, havia dezenove pessoas: apenas ela enquanto mulher, apenas ela enquanto negra.

Mesmo passado mais de 88 anos, os caminhos para as mulheres negras na política continuam desafiadores. Segundo o estudo da Oxfam “Democracia Inacabada”, mesmo sendo 27,8% da população brasileira, as mulheres negras ainda são apenas 2,53% das Cadeiras na Câmara dos Deputados, por exemplo.

No mesmo estudo, podemos ver que o Brasil ainda é um exemplo negativo quando o assunto é a presença de mulheres no Parlamento. “No cenário internacional, o Brasil ocupava a 133ª posição no ranking anual de mulheres nos parlamentos nacionais da Inter-Parliamentary Union (IPU), entre 192 países monitorados em 2019”, diz o relatório.

Em 2018, 77 mulheres foram eleitas para a Câmara dos Deputados, mas 85% dos deputados federais eleitos ainda foram homens. Na eleição de 2018, na qual 54 assentos estavam em disputa do Senado Federal, apenas sete foram ocupados por mulheres (13%).

A representação institucional continua limitada. Há, no entanto, um movimento de mulheres negras no passado que abriu caminhos para que as mais jovens continuassem reivindicando e ocupando os espaços de poder de maneira propositiva.

É o caso do Mulheres Negras Decidem e o Instituto Marielle Franco, que, em 2022, criaram o “Estamos Prontas”, um projeto que incentiva e apoia das mais diversas formas a candidatura de mulheres negras, periféricas, indígenas e LGBTQIA+.

“O Estamos Prontas é um projeto de fortalecimento de candidaturas de mulheres negras que pretendem ser deputadas estaduais. Ele procura unir as expertises das duas organizações sobre inovação política para o aprofundamento da democracia e articulação estratégica para defesa de uma agenda programática orientada pelos Direitos Humanos, respectivamente”, explica a porta-voz do Mulheres Negras Decidem, Tainah Pereira.

Ao todo, serão apoiadas 27 mulheres, uma por unidade federativa. Elas receberão oficinas de formação sobre segurança física e digital, mobilização territorial, sistema político e os novos dispositivos eleitorais, entre outros temas. As inscrições ficam abertas até o dia 17 de março, no site estamosprontas.org.

Para Tainah, o olhar de mulheres das periferias e favelas é um diferencial quando pensamos as problemáticas encontradas ainda hoje nas cidades, estados e do país. “Serão essas mulheres as agentes capazes de transformar a maneira de fazer política pública, trazendo para os espaços de tomada de decisão uma perspectiva interseccional sobre o exercício da cidadania”, aponta.

Legados de Marielle

Nesta quinta-feira (17), acontece o bate-papo “Legados de Marielle: mulheres negras construindo o futuro”, no Twitter Space. O encontro contará com a participação de Anielle Franco, diretora do Instituto Marielle Franco, Simone Nascimento, do Movimento Negro Unificado (MNU), Jéssica Moreira, diretora institucional do Nós, que falará sobre o projeto Recados Sobre Nós, e contará com a mediação de Bárbara Barboza, da Oxfam Brasil.

Confira as reportagens do Projeto Recados sobre Nós, uma parceria da Oxfam Brasil com o Nós, mulheres da periferia:

“Lecis, Marielles, Beneditas: por mais mulheres negras na política”

De Xica Manicongo a Erica Malunguinho: as mulheres trans na política

Sementes de Marielle: as mulheres periféricas na política

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