Marielle Francisco da Silva nasceu em 27 de julho de 1979. Crescida no Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, sua história pessoal e política é completamente atravessada por este território. Iniciou sua militância após ingressar em cursinho pré-vestibular comunitário, quando perdeu uma amiga vítima de tiroteio entre traficantes e policiais na Maré.

Foi mãe aos 19 anos e, desde então, entendeu a importância de lutar pelos direitos de suas iguais: mães, irmãs, mulheres, negras, amigas, defensoras de direitos humanos, faveladas e periféricas que fazem política todos os dias, em todas as horas.

Em 14 de março de 2022 completa-se quatro anos do brutal assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. A dor sentida naquele dia e nos demais que se estenderam ainda permanece entre as mulheres negras. Mas, desde então, muitas decidiram que era importante cultivar não só a memória da vereadora, como também seu modo de fazer política.

Em seu último pronunciamento, em Sessão Plenária em 8 de março de 2018, a geografia de sua política se fez mais uma vez presente e mostrando a importância de se pensar políticas a partir das favelas e periferias:

“(…) O embate para quem vem da favela, nós somos violadas e violentadas há muito tempo e muitos momentos. Nesse período, por exemplo, onde a intervenção federal se concretiza na intervenção militar, eu quero saber como ficam as mães e familiares das crianças revistadas. Como ficam as médicas que não podem trabalhar nos postos de saúde. Como ficam as mulheres que não têm acesso à cidade? Essas mulheres são muitas. São mulheres negras; mulheres lésbicas; mulheres trans; mulheres camponesas; mulheres que constroem essa cidade”.

 

‘Quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro’


A chegada de Marielle ao poder institucional foi também a representação da chegada das mulheres negras e periféricas a este espaço. A tentativa de frear sua voz surtiu um efeito contrário.

Como disse Marielle no seu último discurso em plenário:

 

“Não serei interrompida, não aturo interrupção dos vereadores desta Casa, não aturarei de um cidadão que vem aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita”.



Os aprendizados e modo de fazer política da quinta vereadora mais votada no Rio de Janeiro nas eleições de 2016, com 46.502 votos, deixou um legado de muitas práticas. Nas Eleições de 2018, marcadas por tanta violência e fake news, tivemos algumas luzes no cenário político: a chegada de mulheres negras, mulheres trans, travestis e das periferias no espaço institucional.

Talíria Petrone (Psol-RJ) e Áurea Carolina (Psol-MG) e as deputadas estaduais Renata Souza (Psol-RJ), Mônica Francisco (Psol-RJ) e Dani Monteiro (Psol-RJ) são, inclusive, algumas das mulheres que atuavam diretamente com Marielle e são retratadas no filme Sementes – mulheres pretas no poder, dirigido por Éthel Oliveira e Júlia Mariano, lançado em 2020.

No mesmo ano, o Instituto Marielle Franco sintetizou o jeito de fazer política na Agenda Marielle Franco, inspirando muitas candidaturas também naquele ano. Entre as pautas trazidas pelo compilado, estão: a diversificação e não uniformização de pautas; ampliação de alianças; honrar e não apagar trajetórias que vieram antes; coletivizar a luta e não individualizar; puxar e não soltar a mão daqueles que ainda estão por vir; cuidar e não abandonar, inclusive mentalmente falando e encarar, não encastelar as pautas e conhecimentos.



Política com cor, CEP e gênero

 

A política empreendida por Marielle é a que vem das bordas. Tem cor e CEP. É periférica, favelada, preta, LGBTQIA+, e nasce do exercício diário e orgânico de um território marcado pela omissão do Estado. Mas nascer em um território à margem da sociedade é aprender a sevirologia – a arte e tecnologia de se virar – desde cedo. Falta tudo, muitas vezes, mas não falta criatividade e também solidariedade.

Elaine Mineiro é vereadora pelo Mandato Quilombo Periférico (PSOL-SP)/ Divulgação

Crédito: Divulgação

A vereadora Elaine Mineiro (PSOL-SP), 38, parte dessa realidade em sua atuação no Mandato coletivo do Quilombo Periférico, eleito em 2020. Nascida e crescida na zona leste da periferia da cidade de São Paulo, Elaine entende este território como uma grande escola social e política em sua trajetória.

“Cresci na década de 1990. Neste período, muitas mulheres — e minha mãe era uma dessas — eram lideranças comunitárias de bairro. Corriam atrás de abaixo assinado, asfalto na rua ou escolas melhores. Minha mãe militava sobretudo no movimento da infância junto à Igreja Católica, e no Movimento de Moradia”, aponta a vereadora.



“Isso me atravessou profundamente já na primeira e segunda infância. Eu entendi que pra nós, negras, pobres e periféricas, todas as coisas que a gente conseguia –inclusive as coisas a partir do poder público — eram carregadas de muita luta, união e muita história”.



O local de onde vem Elaine é o mesmo onde, entre os anos de 1970 e 1980, mulheres se reuniram para lutar por mais saúde. No Jardim Nordeste , zona leste da cidade de São Paulo, as mulheres utilizavam as comunidades eclesiais de base para discutir seus direitos.

Na união com médicos sanitaristas, mobilizaram toda a periferia, nascendo assim o que hoje conhecemos como Sistema Único de Saúde (SUS). Você pode ler mais sobre essa história no especial publicado no Nós “Na periferia da Saúde”.

Em Cidade Tiradentes, há um hospital e alguns postos de saúde que foram conquistados com lutas longas. “O Hospital da Cidade Tiradentes foi uma luta de 30 anos empreendida por mulheres como a da Dona Geralda Marfisa, por exemplo, que é uma senhora do Movimento de Saúde do bairro, que ficou 30 anos lutando para que fosse construído um hospital em um bairro com mais de 300 mil habitantes”.

Atualmente, parte das emendas parlamentares do Mandato do Quilombo Periférico foram destinadas a Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Cidade Tiradentes, indicadas inclusive por Dona Geralda e pelo Movimento de Saúde local, mostrando a importância de ouvir a comunidade também no espaço institucional. “Quando nos aliamos a essas pessoas que dedicaram a vida a defender uma política pública, certamente vamos fazer essas coisas ficarem muito mais próximas da realidade”, aponta a vereadora.



‘Nossa cabeça pensa onde os pés pisam’



No outro lado do país, na zona leste da cidade de Santarém, interior do estado do Pará, a estudante Renata Moara, 23, também tem no território a inspiração para as suas lutas políticas.

Renata Moara, integrante da Rede Emancipa em Santarém (PA)

Renata Moara, integrante da Rede Emancipa em Santarém (PA).

Crédito: Arquivo Pessoal

 


“Toda a minha experiência de socialização, de troca e de compartilhamento de vida foi a partir do chão da periferia. Essa vivência, para mim, teve uma importância de nunca deixar que eu esquecesse o lugar de onde eu vim, o lugar que me construiu”.



A família de Renata sempre foi muito envolvida com as questões sociais do bairro. Seus pais integravam associações, fazendo com que ela crescesse com o referencial das lutas locais.

“Como diria o ditado, ‘a cabeça pensa onde os pés pisam’. O meu pé na periferia foi importante para que a minha cabeça pensasse a partir das necessidades da periferia” diz a ativista, e complementa dizendo que toda sua vivência está voltada para as necessidades da periferia.

Parte do movimento de educação popular Emancipa, que oferece cursinhos populares a jovens das periferias e de baixa renda, Renata entende que está no território o maior exemplo do fazer político que precisa compor os congressos, assembleias e câmaras.

“Está na periferia aquilo que eu enfrentava e enfrento até hoje, como falta de saneamento básico, de escolas, de posto de  saúde, alagamentos quando chove, falta de infraestrutura, a violência: tudo isso é o lugar onde eu estou e vivo. Minha cabeça pensa a partir dessas políticas que a periferia necessita”, diz.



Violência política de gênero e raça



O Instituto Marielle Franco contesta: ‘quem é que cuida destas sementes?. A partir das pesquisas e acompanhamento constantes, o Instituto vem fazendo um importante trabalho que busca formar toda a sociedade para pensar a segurança das mulheres negras na política e monitorar as leis e medidas de proteção.

São Paulo tem ato em homenagem à vereadora Marielle Franco.

Crédito: Jéssica Moreira,

A pesquisa “Violência Política de Gênero e Raça no Brasil – 2021: Eleitas ou não, mulheres negras seguem desprotegidas”, do Instituto Marielle Franco, mostra que a violência política consiste em práticas que têm como objetivo impedir a candidatura destas mulheres e que questões representadas por elas sejam visibilizadas.

Embora a literatura em torno da violência política de gênero com uma perspectiva racial ainda seja incipiente e com poucos dados no Brasil, o Instituto conseguiu colher algumas percepções importantes para o debate público em torno do tema.

No primeiro estudo foi possível identificar que, das 142 candidatas negras que responderam a pesquisa em  2020, 98,5% sofreram algum tipo de violência durante a campanha, mas somente 32% das vítimas denunciaram. Nesta segunda edição, o Instituto traz depoimentos e também bibliografias que narram as agressões sofridas por mulheres que se candidataram nas últimas eleições.

Para mudar esse cenário, o Instituto Marielle Franco, junto ao Mulheres Negras Decidem, lançou o projeto “Estamos Prontas”, que pretende apoiar, acolher e incentivar mais mulheres negras e das periferias a disputarem as eleições e ocupar o espaço da política institucional.

 



A luta das bordas já dialoga com a política institucional



Mesmo de locais diferentes e com demandas distintas, Elaine e Renata concordam que a chamada política institucional deve passar essencialmente pelas periferias. Mas, essencialmente em ano eleitoral, os desafios são ainda maiores.

“A política institucional não foi, historicamente, pensada para nós: periferias, mulheres, principalmente para as mulheres negras que ocupam estes espaços. É só observar a fotografia que temos das câmaras legislativas pelo país inteiro que conseguimos perceber muito facilmente como esse lugar ainda é pouco ocupado pela periferia, mulheres, negritude, indígenas, quilombolas”.

Mesmo com avanços, Renata se lembra que, mesmo sendo maioria (27% da população total do país), as mulheres negras não ocupam o espaço político de maneira equânime. “Ainda que a gente tenha tido um avanço nos últimos anos, é muito pouco perto de toda reparação histórica que o povo preto, periférico e indígena precisa nesse país. Os desafios são muito grandes de ocupar esses espaços”.

Para Elaine, o desafio de ser mulher na política é ainda anterior ao período eleitoral. “A política que fazemos não é só uma política eleitoreira. As mulheres já estão na política do dia a dia. As mulheres já são maioria e, muitas vezes, as principais lideranças do movimento de base. As mulheres já conseguem dizer quais são as políticas públicas necessárias para a redução de desigualdades. O que falta mesmo é que as mulheres consigam ocupar os mesmos espaços de liderança e de protagonismo que alguns homens conseguem chegar”, aponta a vereadora.

Para ela, o caminho é pensar na atuação das mulheres para além de um nome que  dispute as eleições.

 



“Precisamos pensar como as mulheres podem ser reconhecidas pelo trabalho que elas já fazem, nos quais já são lideranças, seja dentro das organizações, movimentos ou partidos. Quando nossas instituições, organizações, parceiros e partidos reconhecerem esse espaço, que já foi conquistado, a gente vai ter capacidade de investimento financeiro, de tempo, de dedicação, dos partidos, das correntes e organizações para que essas mulheres possam ocupar esses cargos”.



“Se nós queremos mudar a política e virar a mesa do poder, não podemos fazer política institucional sem ser a política que vem das ruas. Nos Congressos, nas Câmaras, e em todo lugar que se ocupa, as nossas vozes devem ser megafones das lutas que vêm das ruas”, diz Renata.

Para ela, as periferias trazem aquilo que há de mais dinâmico hoje na construção de um novo jeito de se pensar política. “Quanto mais mulheres negras, periféricas, indígenas e quilombolas nós tivermos nos espaços institucionais, mais políticas públicas para essas populações nós vamos ter. Nós sentimos na pele, diariamente, as dores, aquilo que falta no espaço da periferia, para que a gente possa viver com dignidade”

Esta reportagem integra o projeto “Recados sobre Nós”, realizado pelo Nós, mulheres da periferia em parceria com a Oxfam Brasil.




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