Por Mayara Penina | 18/08/2017

“O veganismo é vendido pra elite.
Só que tem uma coisa. Tem gente aqui inquieta tentando mudar esse quadro. Tem gente da favela que trabalha com comida vegana”.

Este é um trecho do texto escrito por Thallita Floripes, estudante e ativista vegana, moradora da comunidade do Caramujo, em Niterói, no Rio de Janeiro e que muita gente compartilhou este mês porque trouxe o veganismo para uma discussão diferente.

Thallita pensa, vive e discute o veganismo de uma perspectiva que engloba gênero, raça e classe. “Me tornei vegana em 2013, quando estourou o caso do Instituto Royal [instituto depredado por ativistas para a retirada de 178 cães da raça beagle usados em testes de medicamentos]. Toda aquela onda de boicote às empresas que faziam testes em animais, um monte de gente revoltada e eu só conseguia pensar: mas gente, comemos animais, por que a empatia agora?”, refletia.

A estudante Thallita Floripes | Crédito: arquivo pessoal.

A estudante Thallita Floripes | Crédito: arquivo pessoal.

Thallita estuda interpretação teatral na Unirio – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – e trabalha com arte de rua”. E, para ter uma rotina com horários menos rígidos e ainda assim ganhar dinheiro ela criou o Banana Buffet, que além de vender comida vegana congelada por um valor justo, também produz eventos.

O que é ser vegano
“O veganismo é uma forma de viver que busca excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e de crueldade contra animais, seja para a alimentação, para o vestuário ou para qualquer outra finalidade. É uma dieta baseada em vegetais, livre de todos os alimentos de origem animal, como: carne, laticínios, ovos e mel, bem como produtos como o couro e qualquer produto testado em animais.”
Fonte: Definição criada pela The Vegan Society, da Inglaterra, mais antiga entidade vegana do mundo.

Outra caminho que Thallita usa para discutir o assunto é o blog Sim, sou Vegana e Feminista Preta. Lá, ela fala de todos os assuntos que envolvem o veganismo, como uma forma de difundir conhecimento na periferia e mostrar que não é difícil ser vegano. “Falta informação mesmo, desmitificação da carne em todos os sentidos. Sentido de status, sentido nutricional, sentido egocêntrico. Falta o entendimento dos produtos de origem animal em tudo que a gente consome. E isso infelizmente ainda não chegou aqui. É claro que existem pessoas veganas e faveladas, existe o acesso ao computador. A questão é: de onde virá essa ‘luz’ sobre empatia com animais não humanos? Somos educados a ter a nossa paixão seletiva, a não maltratar apenas cachorros e gatos, como vamos descobrir que o veganismo existe? É claro que após descoberto, vai de cada um pesquisar sobre ele, mas ele é difícil de chegar até essas pessoas”.

O blog e a página no Facebook estão aí para dizer que “por incrível que pareça, ser vegana favelada é muito fácil. O mais difícil é viver fora da favela. Aqui dentro não iremos encontrar produtos industrializados feitos ‘para veganos’, como queijos, linguiças vegetais, mas temos material pra fazer, caso queiramos”, esclarece.

É realmente mais difícil cozinhar comida vegana?

A reposta para a pergunta acima é bem simples: “Não, isso é um completo mito!”. Segundo a estudante, o que pode ser difícil é fazer receitas que tentam simular a carne animal. “Mas, fazer receitas sem a carne é a coisa mais fácil do mundo. Arroz, feijão, refogar legumes, tudo super básico e barato. Alguns embutidos e industrializados veganos são caros, mas a alimentação natural, comprada toda em sacolão é super econômica e fácil!”, explica.


Mas por que o veganismo é elitista?
 É elitista porque mesmo não sendo caro o custo da comida, os lugares cobram caro por ela. Porque é criado um conceito que vegetariano é coisa de rico, e pessoas ricas sentem prazer em pagar caro. Por isso muitas vezes o vegetarianismo é associado a coisa de gente “fresca”, porque muito artista, por exemplo, é vegetariano pensando em saúde. E todos nós sabemos que cuidar da saúde é caro.
Uma das coisas que mais me indagam aqui na favela é “nossa, mas não ia conseguir, tem que ter carne no prato pra ficar de pé”. As pessoas não pensam primeiro naquele x-tudo delícia que não iriam mais comer, elas pensam em “preciso ficar forte pra trabalhar”. A gente sabe que o paladar mexe muito com o ser humano, e que temos caprichos. Mas acredite, para um morador de favela, sua maior preocupação é estar vivo.

O Banana Buffet foi criado para proporcionar comida vegana boa e barata às pessoas | Crédito: Sim, sou vegana e feminista preta!

O Banana Buffet foi criado para proporcionar comida vegana boa e barata às pessoas | Crédito: Sim, sou vegana e feminista preta!

O que torna a vida de um vegano favelado mais difícil é consumir comida fora da favela. “Você se sente um verdadeiro peixe fora d’água! Os eventos veganos são quase todos concentrados na zona sul, os estabelecimentos que tem opção vegana geralmente são muito caros, a maioria dos restaurantes veganos são na Zona Sul e Centro, os do centro até são mais em conta, mas não abrem sábado e domingo… aí a saga é infinita”.

Para conhecer e aprender ainda mais sobre o assunto, acompanhe Thallita aqui.

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Sobre a autora:

Mayara Penina

Mayara é jornalista e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

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