“Precisamos nos afirmar e nos manter vigilantes a todo momento. Nós, mulheres da periferia, mais do que nunca, precisamos nos fazer presentes. Juntas, nossas vozes serão uma”, disse Joice Aziza, professora de História e moradora de Caieiras, na grande SP). Junto a outras mulheres, coletivos e movimentos sociais, ela está organizando um ônibus para levar mulheres de sua região para o ato #EleNão, que acontece neste sábado (29) no Largo da Batata, a partir das 15h. Haverá atos por todo o Brasil.

“Nós, mulheres da periferia, não podemos nos calar, pois estamos entre as maiores vítimas da violência doméstica que, muitas vezes, resulta no feminicídio e na violência estatal, quando nos nega direitos básicos para uma vida digna. Em defesa da democracia gritamos numa só voz: “EleNão!”, reforça a professora de filosofia da rede estadual, Lúcia Peixoto, 48.

A hashtag, assim como a mobilização erguida pelas mulheres contra o candidato de extrema-direita à presidência, Jair Bolsonaro, do PSL, ganhou fôlego após a criação de um grupo no Facebook que reúne milhares de mulheres. O que as une é a necessidade em comum de se posicionarem contra o comportamento opressor, machista, racista e homofóbico que ele expressou e expressa em diferentes oportunidades.

“Educação pública, estatal, gratuita e de qualidade para todos e todas não combina com fascismo, com Bolsonaro, nem com qualquer político que quer transformar Direitos em mercadorias; que defende abertamente e permanece impune o extermínio do outro que pensa diferente, que tem origem, gênero e orientação sexual diferente, religião de matriz diferente da hegemônica ou não tem religião nenhuma”, reforça Solange Amorim, professora na zona sul de São Paulo.

Durante sua trajetória política, Bolsonaro já fez declarações como “Só não te estupro porque você não merece”, direcionada a então deputada Maria do Rosário. Além disso, o vice-candidato de sua chapa, o General Mourão, declarou recentemente que “famílias com apenas mães e avós são desajustadas”. A maioria das famílias das periferias são chefiadas por mulheres, muitas delas por avós.

Levando todas essas questões em consideração, o Nós, mulheres da periferia ouviu nove mulheres que moram em regiões periféricas de São Paulo e que comparecerão ao ato para saber quais os motivadores da manifestação e como se posicionam diante da onda fascista e de ódio que vem tomando conta também dos territórios periféricos.

Rosana da Silva, Então , meu nome é Rosana, professora do Município de Caieiras (Grande São Paulo

“Apoio o movimento “Ele Não” por todo o incentivo ao racismo, preconceito e machismo que ele fomentou durante sua trajetória de vida. Eleger um presidente com o comportamento inaceitável, com imagens horríveis na mídia, em defesa da violência e uso de arma é um retrocesso ao Estado Democrático.

Joice Aziza, 38, mulher negra, periférica, mãe, professora e moradora da região de Bacia do Juquery, na Grande São Paulo

“Por meio da sociedade civil feminina, estamos mobilizadas para nos unir as outras mulheres do estado de São Paulo para que, juntas, possamos  fazer o que não conseguimos fazer sozinhas. Juntas, vamos dizer não ao machismo, não ao racismo, não à homofobia, à xenofobia e aos retrocessos. Precisamos seguir em frente com os avanços já alcançados, direitos conquistados através de sangue feminino. Nossos direitos, mesmo descrito na teoria e garantidos na Constituição de nossa nação, não estão assegurados. Precisamos nos afirmar e nos manter vigilantes a todo momento. E nós, mulheres da periferia, dia 29 de outubro, no Largo da Batata, mais do que nunca necessitamos nos fazer presentes, pois querem embantucar a periferia, e, juntas, nossas vozes serão uma”.


Lúcia Peixoto, 48 anos, professora de filosofia na Rede Estadual

Nós, mulheres da periferia, não podemos nos calar, pois estamos entre as maiores vítimas da violência doméstica que muitas vezes resulta no feminicídio e na violência estatal, quando nos negam direitos básicos para uma vida digna. Em defesa da democracia gritamos numa só voz: “Ele Não”!

Thais Valentiny, 26, é jornalista e mora em Perus

“É importante comparecer ao ato porque, aqui na quebrada, a gente sente na pele quando não há políticas voltadas ao nosso povo. E outra, além do voto, é a primeira vez na história que nós mulheres periféricas temos a oportunidade de manifestar nossa vontade em um ato político. Comparecer é um grito de resistência contra o discurso de ódio, a intolerância, o autoritarismo, o machismo e ao preconceito que parte da cor da minha pele e se estende até o Recanto dos Humildes, onde eu moro. Tudo que ele propõe ameaça a resistência diária de mulheres periféricas que, como eu, precisam enfrentar 4h de transporte público diariamente para conseguir trabalhar e estudar. Quando eu chego em casa, eu ainda tenho que coloca a roupa para lavar, dar comida ao cachorro, lavar a louça e ainda preciso dar atenção ao meu namorado. Se na visão deles, mulheres fortes que fazem esse corre todos os dias são “fábricas de desajustados”, então a periferia está cheia delas. Eu fico pensando o que seria de nós se ele assumisse o governo? Tenho medo até de pensar.

Karinny Paklandd, 45 anos, de Franco da Rocha

“Estou articulando com outras mulheres da cidade pra irmos juntas; infelizmente não acho prudente ir sozinha. Acho importante que as mulheres concretizem o movimento físico, não só virtualmente. Na eminência de um governo fascista é importante que as mulheres das periferias se posicionem contra, já que estariam ainda mais vulneráveis às perversidades misóginas, racistas e plenamente segregadoras”.

“Mesmo esse momento sendo tão tenso, eu tenho achado bonito demais as mulheres se organizando”, disse Irineide

Crédito: Tuane Fernandes | Mídia Ninja

Flávia Ribeiro , mulher preta e periférica, 42, moradora de Caieiras

“Eu e outras mulheres estaremos indo para o Ele Não com o trem da CPTM pra dizer que não aceitamos um país racista , machista e homofóbico. O Brasil deve ser para todos, não aceitaremos nenhum direito a menos”

Samanta Silva, 30 anos, Parque Vitória, Franco da Rocha/SP

“Eu sou mulher, negra, da periferia e estou vendo a proporção das falas e ações do Bolsonaro. A possibilidade desse candidato chegar à presidência me apavora, pois as falas dele só reforça e encoraja os fascistas a colocar em prática seus atos de violência. Muita gente que conheço perdeu o medo ou a vergonha de expor todos os tipos de preconceito, já que o candidato dele fala com naturalidade de todas essas aberrações”

Solange Amorim, professora, zona sul de São Paulo

“Nós, um grupo expressivo de Supervisoras da DRE Campo Limpo (Diretoria Regional de Educação), professoras de carreira, mulheres, mulheres negras e afrodescendentes em sua maioria periféricas, oriundas das escolas públicas, com marcas profundas em seus corpos e memórias do racismo institucionalizado presente desde sempre no interior das escolas; da educação historicamente instituída como privilégio de classe, que só permitiu que o povo fosse a escola a partir de muita luta, sobretudo das mulheres, vamos sim ao ato no dia 29/09, no Largo da Batata, dizer em alto e bom tom: #EleNão, #EleNunca. Educação pública, estatal, gratuita e de qualidade para todos e todas não combina com fascismo, com Bolsonaro, nem com qualquer político que quer transformar Direito em mercadoria; que defende abertamente e permanece impune ao extermínio do outro, que pensa diferente, que tem origem, gênero e orientação sexual diferente, religião de matriz diferente da hegemônica ou não tem religião nenhuma. Dia 29 não é só um dia para afirmar que não aceitamos torturadores, machistas, homofóbicos, xenófobos presidindo a nação. É dia de dizer também que não aceitamos nenhum direito a menos, nenhum passo atrás. Que o que aconteceu com o país foi golpe sim e que o Brasil não aceitará ser pautado pelo ódio, pela bala, pela banalização da violência, da vida, das desigualdades e sobretudo pela perda de direitos”.

Irineide, 43, Franco da Rocha

“Eu vou ao ato no sábado juntamente com outras mulheres que estão se organizando para chegarmos juntas lá, porque acredito que o momento é muito tenso e acredito que precisamos estar juntas para que a gente se sinta encorajada e fortalecida para esse momento, que é um momento de muita instabilidade e insegurança. Considerando que há uma possibilidade – espero que remota – de que seja eleito um candidato homofóbico, machista, com características negativas e interesses que podem ser muito danosos ao país, especialmente para nós, mulheres. Mesmo esse momento sendo tão tenso, eu tenho achado bonito demais as mulheres se organizando. Nós, mulheres da periferia, estamos encorajadas a buscar melhorias na saúde, educação e encorajadas a garantir um protagonismo que sempre nos foi negado. As questões geográficas e a falta de acesso às políticas públicas só aumentam as desigualdades na periferia. Saber que o projeto machista de nos fazer eternas rivais e submissas está sendo ameaçado por essa mobilização que nos une é uma esperança nesses dias sombrios.

 

Leia mais

Marcha das mulheres negras e indígenas: o que significa reivindicar o Bem Viver?

Como o debate de uma lei gaúcha pode afetar religiões afro-brasileiras

 

O que pensam as mulheres da periferia sobre o aborto?

Temas:

Local da notícia:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *