Marcela Bonfim

É economista e vive em Rondônia. Adquiriu uma câmera fotográfica e no lugar das ideias deu espaço a imagens de uma Amazônia afastada das mentes do lado de fora. Escreve sobre imaginários, imagem, negritude.

 

De Marcela Bonfim e Ana Aranda com a voz de Ana Maria, a mãe deste retrato

Atualmente, o campo da fotografia tem absorvido e difundido reflexões mais humanizadas e oportunas à coletividade do que anteriormente. Principalmente para nós, e por nós, mulheres e homens negros, frutos-alvos da racialização da nossa própria condição humana, com a segregação de nossos corpos-imagens por séculos sujeitados a um mercado estruturado às bases do fenótipo da cor. 

A Arte, por si, teve e ainda tem um papel decisivo nesses contrastes que até hoje nos polarizam de preconceitos, além de nos cercarem de estigmas, sempre associando o nosso corpo a objetos de submissão, tendo nas galerias o veículo ideal com suas formas sutis e veladas na desvalorização da humanidade de nossos direitos, difundidos em obras valorizadas, calando nossos sentidos aos valores dos estigmas. 

Carol com Heitor seu primeiro filho em 2015. Retrato de Marcela Bonfim, intitulado Madona Negra.

Crédito: Marcela Bonfim

Neste aspecto, refletir as camadas históricas e estruturais que envolvem a imagem de Carol, é também subverter a criação da minha imagem negra recriando uma potente forma de me organizar do lado de dentro do meu próprio imaginário: até aqui mesclado aos padrões e estigmas que ainda me cercam diante dos olhos que me reproduzem.

Ademais, para esta reflexão é importante termos a consciência econômica dessas relações de pele, uma vez que ainda permanecemos encaixados como peças lógicas de um capital-visual, margeado pela cor e principal conservador de grande parte da massa humana racializada e sujeita aos próprios limites da experiência como imagem, a partir da constante exposição e disponibilização de seus corpos à violenta engrenagem dos lucros tendo como base a alta produtividade do plano racial. 

Carol é uma imagem vital que se comunica por si, mas que carece de fala e cuidados, atualmente destoando desse reflexo que aparentemente aponta uma mulher negra de semblante pleno, também sujeita ao que os olhos alheios carregam consigo. 

Assim, apresentamos Carol, filha da enfermeira Ana Maria Ramos, mulher negra, militante que chegou em Rondônia, de São Paulo, na década de 1980, contratada da Cáritas (entidade beneficente ligada à igreja Católica), trazendo a missão de cuidar da saúde dos mais pobres. Cumpriu o papel com destaque. Percorreu terras indígenas, quilombos, acampamentos de sem terra, assentamentos do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e outras áreas periféricas. Ana ensinou, orientou, salvou vidas e também aprendeu muito. 

Ana Maria com a amiga Ursula Maloney ao fundo em 2013.

Crédito: Marcela Bonfim

Hoje guarda um rico conhecimento das plantas medicinais e nutricionais da região. E ela foi mais adiante: tornou-se uma voz forte pela cidadania negra e hoje é uma das mais importantes lideranças deste movimento em Rondônia. 

Ana Maria, lembra a mãe que, como ela conta, foi obrigada pelo marido a escolher entre o matrimônio e os filhos e não hesitou em ficar com as crianças. 

Já na velhice e caminhando com dificuldades, Ana Maria enfrenta o seu momento mais difícil em Porto Velho. A filha Carol, esta imagem vital a qual nos dedicamos em apresentar nesta coluna, hoje dependente e vítima do craque, recentemente  foi mãe pela segunda vez, sendo agora de uma menina, irmã mais nova de Heitor, com sete anos.

Pensar na imagem atual de Ana Maria é, sobretudo, sentir uma mulher negra correndo contra o tempo para conseguir uma vaga em instituições que possam ajudar Carol a superar a dependência. 

O desafio é aproveitar este momento em que ela está longe das ruas por causa do parto para que inicie o tratamento tão necessário. 

“Só quem já conviveu com um dependente químico pode avaliar esta situação. Poucos acreditam que a dependência seja uma doença grave e de muito difícil superação, mesmo entre os poucos que conseguem tratamento médico eficiente.  A incompreensão do problema desencadeia a discriminação e o preconceito e a situação se agrava com a falta de acesso à internação e terapias eficientes. Uma sinuca de bico”, diz a mãe. 

Hoje, a imagem de Ana Maria é a sua própria necessidade de apoio. ‘Precisamos com urgência encontrar uma oportunidade para Carol se tratar e se reintegrar à nossa família. E o fato dela estar longe das ruas, repito, pode ser o momento deste retorno à vida. Por favor, dê uma chance para este retrato, minha filha”. 

Ana Aranda é jornalista em Porto Velho (RO) e acompanha a história de Carolina Grumble


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