Reorganizar a fotografia à flor da minha pele escura, tem sido a forma mais segura de permear os caminhos com os quais a história ainda permanece segregando a minha imagem e as memórias coletivas, de nossos povos de pele negra e indígena.

Remontar e difundir as nuances que fazem de nós, corpos sujeitos e limitados dentro da nossa própria experiência como imagem, tem trazido ao campo das artes visuais importantes linhas de reflexão e representatividade, essenciais ao alcance da ideia de uma imagem vital.

Isto é uma forma de me pensar como vida antes de ser imagem, onde busco me organizar no plano de dentro e de fora das inúmeras projeções de nossos cotidianos racializados, rompendo com a estética cartesiana sem compromisso e travando contínuas relações com a humanidade e direito de nossos corpos, ainda contrastados pela duradoura mentalidade Brasil-colônia.

Com a ampliação do acesso e da difusão dessas internas formas de reorganização, sobretudo, dentro do contexto preconcebido que é as artes em geral, percebemos nitidamente a pressão dirigida a nossos corpos tidos sujeitos; mas também atalhos de dignificação dessas margens imaginárias.

É assim no caso de “Pseudo-indígenas”, de Ana Mendes, série vencedora do programa “Um Olhar sobre o Brasil”, dedicado à projeção da fotografia documental brasileira no festival Les Recontres d’Arles, na França, no mês julho deste ano, com o tema “Rituais Fotográficos/Rituais de Resistência”.

Galeria

Les Recontres d’Arles

Organizado pela Iandé Fotografia, por Glaucia Nogueira, as regiões brasileiras foram representadas pelos seguintes curadores convidados e suas regiões: a região Sul com Sinara Sandri e Lucila Horn; a região Sudeste com Mônica Maia, Eder Chiodetto, Milton Guran e Eugênio Sávio; a região Centro-Oeste: com Diógenes Moura e Denise Camargo; a região Nordeste com Marcelo Reis, Eduardo Queiroga e Tiago Santana; a região Norte com Mariano Klautau, Makiko Akao e Marcela Bonfim; e pela França Ioana Mello.

O celebrado “Pseudo-indígenas é parte da composição curatorial que apresentei ao programa, também atravessado pelo trabalho de Joelington Rios, em “O que sustenta o Rio”; garantindo à região Norte, a premiação e participação no PhotoDoc e Paris Photo, em novembro, com o processo fotográfico de Ana Mendes, 36, gaúcha que atualmente reside no Estado do Pará, onde partilha a vida com a companheira paraense e também fotógrafa documental, Nay Jinknss.

Brasil na França
Em novembro, a feira do PhotoDoc e Paris Photo, exibirá além do premiado  Pseudo-indígenas, o segundo e terceiro lugar; respectivamente, O Grande Vizinho, por Rodrigo Zeferino, e Eu Sou Xakriabá, pelo indígena Edgar Kanaykõ; ambos da região Sudeste, e mais a série Transparências do Lar, por Illana Bar, que recebeu menção especial do júri francês, pela região Sul.

A grande contribuição do ensaio de Ana

Ascender as pautas do enfrentamento ao genocídio das populações indígenas e deslocar a discussão para o centro do debate racial foi um dos aspecto mais fluentes do processo de reorganização imaginária realizado por Ana. Também demarcadas por uma espécie de imagens-interferências, gravadas em carvão e nanquim, internalizadas nas imagens registradas pela documentação das vulnerabilizações dirigidas principalmente aos Akroá-Gamella do Maranhão, povo afrontado em sua identidade por apenas defender seu legado, memória e territórios, oficialmente extintos pelo Estado brasileiro, embora vivos e lutando para provar a própria experiência de humanidade.


É economista e vive em Rondônia. Adquiriu uma câmera fotográfica e no lugar das ideias deu espaço a imagens de uma Amazônia afastada das mentes do lado de fora. Escreve sobre imaginários, imagem, negritude.

 


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