No último sábado, dia 23 de julho, estive junto com um grupo de escritoras negras que se reuniu nas escadarias da rua 13 de maio, no bairro do Bixiga, centro de São Paulo, para participar de uma sessão para uma foto histórica. 

A iniciativa foi organizada pelo Coletivo de Escritoras Negras Flores de Baobá e surgiu após a participação de escritoras mulheres em uma foto que aconteceu no dia 12 de junho no Estádio do Pacaembu, em ocasião da Feira do Livro, promovida pela Revista Quatro Cinco Um, da qual também participei. 

A inspiração para a fotografia foi um retrato histórico intitulado “Um grande dia no Harlem”, tirada em 1958 pelo fotógrafo Art Kane, que registrou 58 músicos de jazz da época nos Estados Unidos. 

Na ocasião, apesar do momento histórico e importante convocado pelas organizadoras da Feira do Livro, das mais de 400 mulheres presentes, as escritoras negras não chegaram a 30, o que correspondia a menos de 10% das mulheres ali presentes.

Após a foto, as escritoras negras presentes criaram um grupo de mensagens para se fortalecerem e partilharem suas vivências. 

O Coletivo Flores de Baobá resolveu convocar para uma foto só com escritoras negras, numa ação que compôs o Julho das Pretas, agenda em celebração ao Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha, comemorado no dia 25 de julho.

Mari Vieira: ‘Nosso chamado repercutiu, então, outras ações vão florir. Essa alegria é imensa’.

Crédito: @fridascomunicaefotografa

“A escrita de mulheres negras é ancestral, mas o título de escritoras é negado a essas mulheres constantemente. O Coletivo Flores de Baobá quer com essa foto mostrar que existem muitas escritoras negras e que o cenário da literatura brasileira também é composto por essas mulheres”, afirmou as integrantes do coletivo na convocação para o grande dia.

“Na outra foto estávamos em um número muito pequeno. Daquela foto a gente pensou nessa e o resultado foi incrível. É claro, sabemos que temos mais escritoras negras do que as que estão aqui presentes. Mas a gente sabe que a nossa chamada, do Coletivo Flores de Baobá, repercutiu, então outras ações vão florir. Essa alegria é imensa”, afirmou a integrante do coletivo Mari Vieira. 

A escolha da Escadaria do Bixiga para a ação foi uma forma de apoiar a resistência do bairro como território negro, principalmente após ter sido encontrado um sítio arqueológico do Quilombo Saracura no bairro. 

Nós, escritoras negras de diferentes regiões de São Paulo, até de outras cidades e estados, começamos a chegar por volta das 10h. A convidada para fazer o registro histórico foi a fotógrafa Anna Carolina de Souza Dias, do coletivo Fridas Comunica e Fotografia. A foto oficial aconteceu por volta das 11h.

 

A foto reuniu dezenas de escritoras negras, sendo a maioria da capital paulista

Crédito: @fridascomunicaefotografa

Esmeralda Ribeiro, uma das integrantes do Coletivo Flores de Baobá e uma das fundadoras e organizadoras dos Cadernos Negros, relembrou que, na década de 80 e 90, não existia acesso às redes sociais e muitas mulheres negras que escreviam não se conheciam. 

“Essa movimentação tem 45 anos, de trazer mais mulheres negras para que escrevessem, publicassem, trouxessem seus textos, seu corpo, o que elas pensavam. Os homens negros falavam da gente, mas a gente queria nós mesmas falar por nós. Esse momento, de escrever e falar da gente, dos nossos sentimentos, das nossas emoções, nossas relações afetivas, isso é importante”, contou Esmeralda. 

“A nossa luta é pela nossa liberdade enquanto escritoras, seres humanos, brasileiras, mulheres negras, em uma potência que é muito forte e que é negada pela sociedade”, disse Vera Campos.

Para ela, estar no Bixiga com a possibilidade de abraçar suas iguais era, além de uma alegria, uma forma de fortalecimento mútuo. “É em nome de todas as mulheres, da nossa ancestralidade, que nos permitiram os passos até aqui e muitos passos ainda teremos”, afirmou.

“Foi muito importante para mim, é meu primeiro livro, minha primeira escrita, eu nunca imaginava estar aqui entre tantas potências, então, para mim foi muito emocionante”, relatou Bruna Cristina. “É um dia histórico para guardar no nosso coração para sempre”, concluiu Samira Calais.

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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.