Bianca Pedrina

Bianca é jornalista, cofundadora e gestora operacional do Nós, mulheres da periferia e comentarista de BBB nas horas vagas.

O espaço “Nossas Vozes” tem o objetivo de valorizar a subjetividade, trajetória e a opinião de mulheres. Os textos divulgados aqui não refletem necessariamente a opinião do Nós.

Pensar na administração da casa e no cuidado de uma maneira geral é uma tarefa das mulheres. Está decretado e cravado em uma “pedra social” que, sim, é nossa obrigação porque damos conta de tudo e conseguimos fazer muitas coisas ao mesmo tempo (contém ironia).

É deste lugar que me colocaram, que parto para uma reflexão sobre como eu me sinto quando, entre uma reunião e outra, preciso lembrar de tudo que envolve a dinâmica de ter uma casa limpa, comida no fogão e roupas lavadas. Isso parece ser uma preocupação só minha.

Fui casada por cinco anos e essa experiência me fez refletir sobre o por quê meu marido não se importava com essas coisas que listei acima, enquanto eu me desdobrava para garantir – depois do trabalho remunerado -, minha dedicação para os cuidados da casa.

De acordo com estudo feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística), divulgado em junho de 2020, as mulheres dedicam mais horas do dia ao cuidado de pessoas e aos afazeres domésticos do que os homens. Em comparação com o ano de 2019, a população com 14 anos ou mais se dedicava em média 16,8 horas semanais para esses serviços, as médias divididas entre homens e mulheres era de 21,4 para elas e 11 horas entre eles.

Não quero generalizar, mesmo porque estou partindo de uma experiência pessoal para dizer que essa carga mental era toda minha. Se você, mulher, que estiver lendo essa coluna consegue dividir essa dinâmica com seu parceiro de vida, eu sinto alegria por ti e um certo recalque (risos nervosos).

Meu marido não se importava porque a casa zoneada não impunha a ele culpa, mas a mim sim. O nome é esse mesmo: culpa. É muito nocivo como a sociedade nos impõe esses lugares, e como é difícil sair deles.

Longe de mim dizer que, por ele ser homem, também não havia obrigações socialmente impostas igualmente prejudiciais, mas esse lugar sempre o colocava em uma posição de provedor. Já a minha, era  de garantir que tudo estivesse em ordem para que ele pudesse cumprir o papel social considerado mais importante.

Mas não é. São essas atividades que garantem o crescimento da economia de qualquer país do mundo. Afinal, qualquer pessoa que produz riquezas teve alguém que garantiu seus cuidados da infância à fase adulta. Esse trabalho não visto equivale a pelo menos 11% do PIB (Produto Interno Brasileiro), que é a soma de todas as riquezas do país. O cuidado exercido principalmente por mulheres gera mais riqueza ao país do que a indústria de transformação e a agropecuária, como mostra a ONG Think Olga em levantamento realizado em 2020. Ou seja, o mundo e toda a economia tradicional não se sustentariam sem o trabalho cotidiano de nós, mulheres. Mesmo assim, essas atividades são desvalorizadas e não remuneradas, o que no Brasil se conecta profundamente ao resquício da escravidão. O Nós também fez um podcast do Conversa de Portão sobre a chamada economia do cuidado. Vale a pena ouvir!

Se em um mundo utópico, o trabalho doméstico e do cuidado fosse considerado valoroso economicamente para a sociedade, com ações na bolsa de valores e tudo mais, certeza que um macho estaria lá lavando banheiro, ninando neném.

Eu também trabalhava fora, mas era como se fosse um plus. Eu sentia que a minha tarefa principal era o cuidado para que a engrenagem – que só funciona com homens no poder – não parasse de funcionar.

Fui criada em uma família cuja matriarca foi provedora, mas isso não tirou dela o lugar do cuidado. Por mais que ela tenha sido dona da p* toda, o troféu simbólico que lhe foi dado era o de, mesmo trabalhando  fora, cuidou  dos filhos, do marido e da casa.

Por que quis falar disso? Porque tenho percebido que a gente está ficando doente mentalmente com todo esse acúmulo.

Essa cobrança de dar conta de tudo, fora o contexto já trágico da pandemia, tem abalado nosso emocional. Quando falamos de mulheres negras e das periferias, que já acumulavam sobrecargas antes da crise sanitária, nesse cenário enfrentam desafios ainda maiores. De acordo com pesquisa sobre pessoas afetadas mentalmente pela pandemia, conduzida pela equipe do neuropsicólogo Antônio de Pádua Serafim, do IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP), feita entre maio e junho de 2020, com três mil voluntários, dos  gêneros feminino e masculino, entre os entrevistados, os níveis de desequilíbrio emocional eram maiores entre mulheres.

Os dados apontam que 40,5% das entrevistadas apresentavam sintomas de depressão, 34,9% de ansiedade e 37,3% de estresse.

Refletir sobre essas questões, entender que elas existem pode ser um caminho. A louça pode esperar, mas sua saúde mental, não. Está tudo bem não dar conta de tudo!

Quer refletir mais sobre esse assunto? Acesse também os conteúdos relacionados no site do Nós. Vou deixar uns links de matérias para vocês acessarem. Até a próxima!

Coluna originalmente publicada no Expresso Na Perifa


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