Após um ano de pandemia, mulheres negras e da periferia – que já acumulavam sobrecargas antes da crise sanitária – enfrentam desafios ainda maiores quando falamos em atendimento psicológico nos contextos sociais em que estão inseridas.

A falta de perspectivas e o futuro incerto tem elevado o número de pessoas que precisam de atendimento psicológico e psiquiátrico.

De acordo com pesquisa sobre saúde mental, conduzida pela equipe do neuropsicólogo Antônio de Pádua Serafim, do IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP),  as mulheres são as mais afetadas.

O levantamento feito entre maio e junho de 2020, com três mil voluntários, dos  gêneros feminino e masculino, apontou que, entre os entrevistados, os níveis de desequilíbrio emocional eram maiores entre mulheres.

Os dados apontam que 40,5% das entrevistadas apresentavam sintomas de depressão, 34,9% de ansiedade e 37,3% de estresse.

Ao fazer o recorte de mulheres que moram nas bordas da cidade, e que são atravessadas por outras vulnerabilidades, como o racismo, o machismo e a pobreza, esse cenário se torna ainda mais preocupante.

A essas mulheres é destinado o lugar do cuidado, mas nesta realidade ainda mais desafiante, a mão estendida, por vezes, só encontra desamparo e solidão.

Refletir sobre esses desafios e encontrar caminhos para minimizar esse sofrimento, diante de problemas estruturais enraizados, podem ser saídas diante desses dilemas. É o que a psicóloga e coordenadora-geral da Casa de Marias, Ana Carolina Barros, 30, busca fazer.

A profissional atende no projeto fundado há um ano, que nasceu para ser um espaço clínico de escuta, acolhimento e atendimento psicoterapêutico, com especial atenção a mulheres negras e periféricas.

Na entrevista, Ana conversou sobre todas essas nuances que envolvem o ser mulher negra e da periferia, quando relacionadas à saúde mental.

A terapeuta reconheceu que essas mulheres, em especial, demoram a pedir ajuda, por outras demandas virem à frente.

“Porque essas mulheres não têm tempo, não tem espaço em casa, não tem estrutura, não tem uma série de coisas que seriam necessárias para você, de repente, pegar uma hora do seu dia e dedicar para uma sessão de psicoterapia”, avalia.

Ana destacou, ainda, que a pandemia fez com que a sociedade olhasse para a saúde física e a possibilidade de padecimento, mas que nesse processo esquecemos da nossa mente.

“Precisamos nos cuidar emocionalmente também. Eu acredito que é o momento da gente se proteger, usar álcool em gel, praticar o isolamento, quando possível, usar a máscara quando sair de casa, mas, além disso, o cuidado também precisa se estender para esse outro lugar, que é dentro”, pontua.

Confira a entrevista 

Psicóloga e coordenadora-geral da Casa de Marias Ana Carolina Barros. Crédito: arquivo pessoal

Nós, mulheres da periferia: após mais de um ano de pandemia, se comparado com o início da crise sanitária no país, qual reflexo tem sido percebido na saúde mental, sobretudo, quando a gente fala de mulheres negras periféricas?

Ana Carolina Barros: A gente percebe um agravamento muito severo em termos de adoecimento. Se no começo da pandemia nós já atendíamos situações bastante delicadas envolvendo adoecimento psíquico, dentro desse grupo específico [mulheres negras e periféricas], um ano depois, temos quadros cada vez mais agudos.

Às vezes a pessoa tinha uma situação envolvendo um transtorno de ansiedade, crises ansiosas ou de pânico, que não eram frequentes. Se antes esses casos eram, por vezes, contornados sem o uso de medicação, hoje, esse recurso começa a ser adotado com o acompanhamento do psiquiatra, para além do psicólogo.

Em muitos casos é preciso o acompanhamento de outros serviços de uma rede de apoio, porque as crises se tornaram muito mais constantes e intensas. Pessoas que já tinham um quadro de algum adoecimento psíquico a gente vê uma piora, assim como as que não tinham nenhum quadro de instabilidade emocional passaram a ter.

No dia-a-dia da prática clínica, fazendo a escuta, o acolhimento dessas mulheres tem sido bastante difícil, porque a gente vê o quanto às questões sociais que a gente vive está atravessando essas mulheres de um jeito muito cruel. A vida das pessoas se desestabilizando emocionalmente.

 

 

 

 

 

 

 

NMP: O projeto adotou medidas para o acolhimento desses casos mais graves?

Ana Carolina Barros: a Casa de Marias lançou um projeto justamente para atender esses casos, com um serviço de orientação aos familiares com pessoas que estão com adoecimento psíquico grave. Nós estávamos recebendo muitas demandas de orientações de como encaminhar essas pessoas que precisam ser internadas devido aos transtornos emocionais. Nosso papel é dar orientação com mapeamento de redes públicas de saúde perto dos locais em que essas pessoas vivem e atendem esse tipo de demanda.

A gente pode dizer que são famílias majoritariamente negras, de periferia, pobres e que tem ali um ente querido, um familiar que, por algum motivo ou fator pré-existente ou não, desencadeia um quadro mais agravado, chegando, inclusive, num surto, num processo alucinatório, indevido, que muitas vezes ficam violentos.

Muitas pessoas não têm essa informação de como agir nesses contextos. Tentamos dar esse apoio mapeando por território os dispositivos de saúde mental que podem ser acionados para encaminhar aquela pessoa, quais profissionais da rede de saúde mental podemos contactar, os procedimentos necessários, por exemplo, para transportar esse paciente. 

NMP: pensando nas mulheres que moram na periferia em contextos que as atravessam, como raça e classe, como isso potencializa essa sobrecarga mental?

Ana Carolina Barros: podemos dizer que a pandemia tem seus desdobramentos de crueldade para todo mundo, mas para essas mulheres, em especial, é em um nível que beira a perversidade. Porque eu percebo que tem uma quase produção de enlouquecimento.

São mulheres que, muitas vezes, se percebem absolutamente isoladas, precisando lidar com uma série de demandas, sobrecargas, sem ter uma rede de apoio com quem contar.  Mães solos, em especial, tendo que lidar com a educação dos filhos e com as questões da escola, trabalho. Eu acredito que tudo isso para essas mulheres, em especial, é um atentado muito mais frontal, quando falamos em saúde mental. Nesse contexto, é muito difícil você se manter minimamente bem e equilibrada.

São as mulheres pretas e moradoras da periferia e que precisam de amparo, mas até mesmo ter esse amparo para acessar esses espaços é difícil. Porque essa pessoa não tem tempo, não tem espaço em casa, não tem estrutura, não tem uma série de coisas que seriam necessárias para você, de repente, pegar uma hora do seu dia e dedicar para uma sessão de psicoterapia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NMP: para essas mulheres que têm mais dificuldade de acessar esse serviço, como elas chegam até você, qual o estágio de conflito psíquico que as fazem procurar esse apoio?

Ana Carolina Barros: elas já chegam no limite e eu acredito que isso nos traz uma série de reflexões. Primeiro, porque eu entendo que essas mulheres não se percebem como podendo em algum momento usufruir de uma hora de olhar para si, para muitas isso soa fantasioso. Então, a pessoa quando procura ajuda é quando já não tem outra opção.

E, fora isso, eu diria que tem também o estigma que a gente também ainda tem que conviver, relacionada com a ideia de procurar ajuda, para a pessoa procurar o serviço deve estar em um estado absolutamente grave, ou seja, delirantes, pessoas em surto. 

Além disso, para mulheres negras que conviveram ao longo da vida com a ideia de que ela vai dar conta de tudo, de que ela tem  ser forte o suficiente, corajosa e superar todas as adversidades, muitas vezes, é difícil dizer que tem um limite.

Porque para elas cai muito em um lugar de fraqueza, de não querer ser a pessoa que vai precisar da ajuda do outro para lidar com alguma questão. Por isso, esse processo é permeado de muito sofrimento. Podemos dizer que 90% das vezes as pessoas que procuram estão em uma situação  limite.

NMP: quais seriam as dicas e orientações que você daria às mulheres que estão sobrecarregadas, que compõem essa intersecção por ser negra, pobre, para passar por isso de maneira mais saudável mentalmente?

Ana Carolina Barros: eu vou falar de três caminhos, que considero possíveis. O primeiro tem a ver com um exercício de auto-observação. Porque uma coisa é estar vivendo uma situação muito difícil, mas é preciso entender em que ponto isso deixa de ser manejável e possível de ser absorvido, com algum nível de estabilidade. Em que momento essa pessoa conseguia fazer coisas simples, da rotina e já não consegue mais e tem que se desdobrar para conseguir fazer essa organização.

E aí, eu acredito que é o momento de pedir ajuda antes do agravamento. Isso não significa que eu esteja falando de uma pessoa num estado de adoecimento. Estou falando de uma pessoa que está passando por um momento difícil e que se for ouvida e acompanhada, as coisas podem se contornar de um jeito a evitar, talvez, que isso se agrave.

A segunda coisa, dentro de uma série de limitações e restrições, podemos pensar que ficou ainda mais importante ter alguma forma de extravasar, de desconectar. Cada pessoa vai encontrar a sua.

Escutar sua música ou assistir um filme preferido, conversar com uma amiga, enfim, acho que dentro do que é possível e do que são as condições para poder desabafar, e para extravasar as coisas que ficam muito retidas ao longo do tempo e que acabam causando adoecimento.

Por fim, pensando em um terceiro jeito é tentarmos viver no presente. Buscar também diminuir essa sobrecarga e expectativas de que temos que fazer, precisamos ser produtivas, precisamos dar conta. A gente entender que diante dessas circunstâncias, dar conta do que foi possível agora, já é muita coisa. Está tudo bem se as coisas ficarem para depois, desde que você consiga chegar inteira nesse processo.

 

 

NMP: quais dicas você daria para mulheres que não tem condições financeiras para fazer terapia, quais outros caminhos?

Ana Carolina Barros: um dos projetos que a Casa de Marias oferece é a roda terapêutica das pretas, que atende mulheres  em grupo gratuitamente. A Casa de Marias está com uma série de projetos e com vagas gratuitas abertas neste momento e que ainda vai durar um tempo. Então, acho que vale a pena também ficar sempre checando e olhando lá as possibilidades.

Além disso, é necessário se atentar aos dispositivos de saúde próximos de onde você mora. A UBS, por exemplo, está habilitada a fazer esse encaminhamento. Claro que, quando a gente fala de saúde pública, temos necessariamente que falar dos processos de desmonte, de precarização, das dificuldades em encontrar vaga, de todas essas questões que aparecem.

Mas eu sempre digo isso, ao mesmo tempo que tem uma série de desafios, obstáculos e dificuldades em relação ao acesso, tem também uma série de trabalhos que são feitos dentro desse sistema, por exemplo, como grupos terapêuticos,  de acolhimento, com espaços de psicoterapia gratuitos.

Está precisando de ajuda?

Listamos alguns espaços que prestam esse serviço de atendimento psicológico gratuito:

Casa de Marias, espaço de escuta e acolhimento de mulheres negras e periféricas 

Clínica Periférica Psicanálise – Projeto de atuação periférica, com o objetivo de possibilitar acesso a psicanálise/psicologia

Roda Terapêutica das Pretas promove atendimentos grupais e oficinas para mulheres negras nas diferentes zonas da cidade de São Paulo;

Bordar Espaço Terapêutico é um espaço pensado para promoção de ações de autocuidado da população periférica, cursos, oficinas, cine debate e mobilização;

Mapa do Acolhimento é uma iniciativa que conecta mulheres que sofrem ou sofreram violência de gênero a psicólogas e advogadas voluntárias;

Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, por meio de atendimento exclusivamente pelo telefone 188 ou pelo site https://www.cvv.org.br/.

Instituto AMMA Psiqué atua na compreensão, prevenção e enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo e do sexismo.

Veja também:

Conversa de Portão #7: E a saúde mental da mulher negra, como anda?

 

 

 

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