A primeira vez que tive contato com a Suzi foi em 2014, semanas antes da Feira do Livro de Buenos Aires. Eu estava começando minha pesquisa sobre saraus na universidade e queria muito acompanhar a viagem dos coletivos e saraus para a Argentina, convidados pelo país para representarem São Paulo, cidade homenageada naquela edição do evento.
Fui perguntando para as pessoas que conhecia onde iam ficar, quantos dias, para eu não me sentir tão perdida ao viajar sozinha e sem falar muito bem espanhol. Me indicaram a Suzi como referência da excursão. Enviei mensagens para ela pelo Facebook, ambas desconhecidas uma da outra, e ela me passou todas as informações sobre a viagem do Sarau do Binho, que acontece no Campo Limpo, e em Taboão da Serra, município vizinho do bairro da zona sul de São Paulo. Ela foi muito solícita, disse que poderia ficar junto com o grupo, passou os valores gastos, dentre outras coisas.

Crédito: arquivo pessoal

Crédito: arquivo pessoal


Durante a viagem conheci um pouco desta mulher que, nos bastidores, produz, administra e promove um dos saraus periféricos mais tradicionais da cidade. Apesar de o sarau levar o nome de seu companheiro de 34 anos, e pai de sua filha de 24 anos,  é ela a peça fundamental para que todas as artes e poesias se transformem em realidade. Com jeito discreto, mas atencioso, ela cuida da programação, dos editais, do contato com parceiros, e cuida, como uma mãe, de todos os membros que integram o Sarau do Binho.


 
No próximo domingo, 14 de maio, às 17h, o Sesc Santo Amaro promoverá em homenagem ao Dia das mães o evento “Sarau Vozes Femininas”, realizado pelo Sarau do Binho, com a presença de poetas, cantoras e artistas e será a primeira vez que Suzi de Aguiar Soares, de 50 anos, fará a apresentação e mediação das atrações.
Entrevistamos a professora de Língua Portuguesa e Inglês da rede pública de ensino, e produtora cultural nas horas “vagas”, para contar um pouco sobre o evento e também sua história.


 
NMP: Como você e Binho se conheceram?
Nos conhecemos numa festa organizada por um antigo professor de Artes da E.E. Presidente Kennedy, professor Tony.
NMP: Você sempre participou de atividades culturais do bairro?
Na minha infância e adolescência havia poucas atividades culturais no bairro, apenas os bailinhos nas garagens e salões paroquiais, mas desde 1993, quando eu e Binho montamos um bar no Campo Limpo, começamos a realizar atividades culturais na região e não paramos mais. Sempre participei mais na parte da organização e produção mesmo, porque a parte artística ficava mais a cargo do Binho. Eu sempre procurei dar suporte da melhor maneira.
NPM: Quando o sarau acontecia no Bar, o que você fazia?
Quase sempre estava atrás do balcão atendendo aos clientes.
NPM: Sua vida mudou depois do sarau?
Mudou muito, novas possibilidades se apresentaram, tanto profissionais e, principalmente, de conhecimento de pessoas, de formação de rede e crescimento.
NPM:Como era antes e como é agora?
O sarau sempre deu uma energia diferente ao nosso trabalho. O bar era importante, era o nosso ganha pão, mas o sarau era um respiro no meio do trabalho pesado. Antes do sarau meu trabalho se limitava, na maior parte do tempo, a cuidar das necessidades do bar, mas depois do fechamento do bar resolvi me dedicar mais às atividades culturais vinculadas ao sarau e acabei me tornando uma produtora cultural, pela necessidade mesmo. O Binho tem muitas ideias, muita criatividade, mas não tem o menor jeito pra organizar e administrar isso. Acredito que isso aconteça com a maior parte dos artistas.
Quais atividades você realiza hoje pelo sarau?
Faço parte também da organização da Felizs-Feira Literária da Zona Sul e também faço a produção do Sarau do Binho e de algumas outras atividades culturais que vão surgindo.
Como você analisa a participação das mulheres no movimento da literatura periférica?
A participação das mulheres no movimento da literatura periférica vem crescendo mais a cada dia. Quando começamos com o Sarau há mais de 15 anos, havia poucas mulheres participando. Muitas se sentiam intimidadas a subir num palco, ainda por cima num bar e muitas vezes não tinham coragem de expor em seus textos os problemas e as questões que as afligiam. Hoje já está muito diferente. As mulheres vêm participando de forma ativa, com muita força em seus textos e ocupando lugares que sempre lhes foram limitados ou até mesmo proibidos.
Crédito:  Sheila Signário

Crédito: Sheila Signário


É a primeira vez que vai ser a apresentadora do Sarau no SESC?
Quando surgiu esta proposta do SESC de um sarau apenas com mulheres, eu pensei: Ora bolas, se vai ser um sarau só de mulheres, por que não eu mesma apresentar? Acho que depois de tantos anos dando aula e também participando dos saraus como ouvinte, pelo menos o medo do microfone eu não tenho. Não sei como vai ser. Pode ser que na hora vai me dar uma tremedeira e vou gaguejar ou me enrolar toda, mas como as convidadas são todas parceiras de longa data, acredito que vou me sentir em casa e tudo vai dar certo (risos). Minha expectativa é que seja lindo e que seja o primeiro de muitos. Que muitas outras portas se abram pra gente.
Você acredita que é uma espécie de mãe para o coletivo do Sarau do Binho?
Nossa, que pergunta difícil (risos). O Marco Pezão, que é um dos pais dos Saraus, me chama de mãe e tem um tanto de gente bem mais velha e também mais jovem que eu que me chama de tia Suzi, que já incorporei isso. Não sou muito ligada à astrologia, mas muitos dizem que é característico do meu signo- câncer – este jeito de ser meio mãezona de todo mundo. Estou sempre preocupada se o povo se alimentou, se trouxe agasalho, se está trabalhando e até fico perguntando se já fez xixi quando vamos pra algum lugar mais longe. Bem típico de mãe, eu acho (risos). No fundo sinto como se todos fossem parte da minha família e desta forma preciso cuidar para que fiquem bem. Minha casa está sempre aberta a todos. Não tem um dia que não aparece alguém pra filar a boia ou pra tomar um café e desta forma vou construindo minha “Grande família”.
Serviço – Sarau Vozes Femininas
Evento mescla música e poesia em homenagem às mães.
Data: 14/5/2017 (domingo).
Horário: 17h.
Local: Sesc Santo Amaro – R. Amador Bueno, 505 – Santo Amaro, São Paulo – SP.
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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.