“Somos sementes plantadas através de nossos cantos por justiça social, por demarcação de território, pela floresta em pé, pela saúde, pela educação, para conter as mudanças climáticas e pela “Cura da Terra”.

O texto acima é um dos trechos do Manifesto da 2ª Marcha das Mulheres Indígenas, que começou em um dia emblemático no Brasil: 7 de setembro de 2021 e segue até o próximo sábado, 11 de setembro.

Enquanto apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) marchavam pelas ruas de Brasília, as mais de 4 mil mulheres indígenas esperadas para a marcha já começavam a chegar na Fundação Nacional de Artes (Funarte), também em Brasília, para o acampamento. Vindas de diversos estados, regiões e biomas, o encontro reúne pelo menos 150 povos indígenas. 

As originárias da terra: a mãe do Brasil é indígena

Crédito: Marcha das Mulheres Indígenas.

“Reflorestando mentes para a cura da terra” é o lema que acompanha toda a comunicação da Marcha, que traz como símbolo uma mulher indígena gestante, que também pode ser lida como uma árvore, cheia de raízes e folhas. 

Um dos grandes objetivos do encontro é garantir os direitos sobre os territórios indígenas, honrando quem veio antes e garantindo esses espaços para as presentes e futuras gerações. “Para além de mero recurso físico, o meio ambiente é morada dos espíritos das florestas, dos animais e das águas da vida como um todo, fonte de nossos conhecimentos ancestrais”, aponta texto de divulgação da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).

Embora a luta dos povos indígenas beneficie toda a população brasileira, a Anmiga relata que os povos indígenas presentes na capital federal para lutar por seus direitos, vêm sofrendo uma série de intimidações por quem é contrário às suas pautas.

De forma estratégica e sem arredar os pés, as mulheres indígenas não se intimidam. “Na luta a gente até passa perfume, mas se banha com proteção! Não lutar com a mesma arma do inimigo, não significa que estamos desarmadas”, afirma Célia Xakriabá, uma das organizadoras em comunicado oficial.

A votação do Marco Temporal no Supremo Tribunal Federal (STF), prevista para a última quarta (8) foi novamente suspensa para esta quinta-feira (9). Ele pode alterar completamente o direito às terras indígenas brasileiras, fazendo com que os indígenas só tenham direito às terras demarcadas antes da promulgação da Constituição Federal de 1988.

O segundo dia da Marcha foi marcado por homenagens póstumas às meninas e mulheres indígenas vítimas de feminicídioEntre elas, Raissa Guarani Kaiowá e Daiane Kaingang, adolescentes violentadas e mortas no Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul em agosto de 2021. “Não adianta pensar na demarcação de terra indígena se não pensar primeiro esse respeito aos corpos territórios das mulheres indígenas. Com o marco temporal, é retomado o genocídio, esse feminicídio que no Brasil acontece há 520 anos contra as mulheres indígenas, negras e hoje também com as não indígenas”, diz Nyg Kaingang, liderança da Anmiga.

Para entender a importância não só social e política, mas também afetiva e ancestral da 2ª Marcha das Mulheres Indígenas, o Nós conversou com a escritora e poeta indígena Jamille Anahata, nascida em Manaus (AM), se autointitula como experimentadora da palavra e do corpo e vem se dedicando à poesia nos coletivos Literatura Indígena AM e Terracota Coletivo.

Confira!

Nós, mulheres da periferia: Como foi o trajeto até o acampamento? 

Jamile Anahata: Estou aqui [no acampamento] desde segunda-feira (6). Eu vim com a delegação de São Paulo, que é multiétnica. Há Guarani. Tupinambá, Cariris. Multiétnica, como São Paulo é. Em torno de 55 pessoas, porque não tem só mulheres entre nós. Mas pelo menos em torno de 40 mulheres, com certeza. Viemos com ajuda de vaquinha e financiamento coletivo. Acho que também teve candidaturas de SP que ajudaram. A maior parte do financiamento é coletivo e a gente ainda está nesse processo de pedir ajuda financeira, porque chegando aqui tem outras questões. São muitos povos, precisa de muita estrutura.

Nós: Qual é a importância do acampamento e Marcha das Mulheres Indígenas?

Jamile Anahata:  É a segunda vez que acontece o acampamento e Marcha das Mulheres Indígenas,  sendo o primeiro em 2019. Esta é uma articulação prevista para ocorrer de dois em dois anos. Conseguimos vir não só porque as condições foram favoráveis no que diz respeito à pandemia, mas também porque precisávamos [estar aqui] com a articulação do Marco Temporal e os Projetos de Lei que estão tramitando. No ano passado, com a pandemia, a votação dessas pautas deu uma desacelerada. Mas neste ano, a Câmara dos Deputados está na gana de passar muitos PLs, como o PL 490, que altera a demarcação das terras indígenas. Por isso, é tão importante que essa articulação aconteça presencialmente também, para fazer pressão. Diante da votação do Marco Temporal, aconteceu o Acampamento Luta pela Terra algumas semanas atrás. Alguns parentes continuaram aqui, outros tiveram que voltar. Já no acampamento das mulheres indígenas, nosso objetivo é se articular entre a gente e fazer deste um momento de fortalecimento espiritual e de reconhecimento entre nós.

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Nós: Qual é a importância de estar entre as mais velhas para a continuidade da luta?

Jamile Anahata:  É um momento muito afetivo. Nossa luta tem esse lugar afetivo. Por estarmos em territórios separados, não conseguimos estar sempre juntas. Pra mim, é uma emoção reencontrar as pessoas, reencontrar as minhas mais velhas, receber um abraço. Depois que recebi negativo no teste de Covid-19, consegui abraçar com mais tranquilidade as parentes. Se rever depois de tanto tempo e sabendo que cada uma em seu lugar está passando por coisas distintas, ao mesmo tempo são semelhantes. Distintas nas suas especificidades, mas tem seu lugar de semelhança.

Nós: A marcha acontece em um momento de disputa ideológica e narrativa. O dia 7 de setembro foi marcado por atos bolsonaristas. Como veem isso?

Jamille Anahata: Sempre é tenso, todas as vezes que a gente tem manifestação aqui em Brasília existe uma tensão, porque a gente nunca sabe como vai ser recebida, às vezes até por ataques policiais. A noite de 6 para 7 de setembro foi uma noite tensa. Passaram vários carros aqui buzinando, às vezes tinha uma ou outra pessoa filmando. A gente faz um esquema de segurança, mas estamos sempre atentas. No dia 7 também existiu tensão. Tivemos uma orientação de não sair do acampamento e não ficar transitando muito. Os apoiadores de Bolsonaro ainda estão por aqui, tanto que no julgamento do Marco Temporal, íamos marchando até o STF e assistir de lá, mas vamos assistir daqui, também fazendo nosso fortalecimento espiritual, para que tudo ocorra de maneira favorável para a gente.

Nós: Podemos falar sobre os rumos da luta da mulher indígena a partir da 2ª Marcha?

Jamille Anahata: Temos que lidar não só com questões de gênero de não-indígenas, mas existem discussões a serem feitas dentro do movimento indígena. As relações de gênero, na maioria das vezes, não acontecem da mesma maneira que acontece com a mulher não-indígena. Existem atividades que são só das mulheres indígenas, e que são só dos homens. Isso não necessariamente significa uma hierarquia, nossas diferenças não se dão nesse lugar da divisão do trabalho, de atividades ou ritualística, mas a gente não pode esquecer que o mundo é mais receptivo para o homem do que para a mulher. Quando essa mulher é indígena é menos receptivo ainda. [A mulher indígena é] uma defensora da Terra. Por muitos povos, [a Terra] é vista como uma espírito que se conecta muito com a mulher, não é exatamente um espírito feminino, mas um espírito que se conecta com o feminino. Muito do que é feito com a terra, é feito também com a mulher indígena –defensora da terra –. É um impacto muito forte.

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