Lívia Lima

Lívia Lima é jornalista e produtora cultural, graduada em Jornalismo (Mackenzie) e em Letras (USP), e é mestre em Estudos Culturais também pela Universidade de São Paulo. É cofundadora do Nós, mulheres da periferia.

“Tudo o que eu consegui é fruto do meu trabalho”. “Meu esforço individual fez eu chegar onde cheguei”. Essas são frases bem comuns quando o assunto é reconhecimento profissional e podem até ter sua parcela de verdade, mas também escondem muita coisa. Você já parou para pensar o quanto o trabalho invisível das mulheres é fundamental para a garantia de sucesso dos homens?

Em um primeiro momento, sempre temos a figura materna, que nos nutre literalmente, e nos garante a sobrevivência. O quanto as mães abdicam de seus próprios sonhos e projetos para que seus filhos possam crescer e se desenvolver é incalculável.

 

Depois que minha mãe faleceu, senti muita culpa por, de alguma forma, não tê-la  poupado do trabalho exaustivo do lar, permitindo que ela fizesse mais por ela mesma para além da maternidade.

Em uma família, são as mulheres que apoiam umas às outras. Se uma mãe precisa trabalhar, é uma avó, uma tia, a vizinha quem será uma das primeiras opções para ajudar no cuidado das crianças. Você já agradeceu pelos cuidados recebidos na infância?

E se formos mais adiante e pensarmos em uma rede de apoio necessária para uma mãe, os rostos de outras mulheres são os que surgem novamente, em uma escala por vezes desigual. Se uma mãe tem o privilégio de terceirizar os cuidados dos filhos para profissionais, temos então uma categoria – em sua maioria mulheres negras e periféricas – que se forja para atender às necessidades de outras. Seria por acaso essa a profissão de seus sonhos?!

No Brasil, um país de herança escravocrata, mulheres negras ainda são tratadas como suas ancestrais “mucamas”, cuja existência era definida apenas para servir aos senhores, às sinhás. Intelectuais como Lélia Gonzalez apontaram para essa denúncia, e a importância de analisar as desigualdades de gênero a partir das intersecções com raça e classe.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil é o país com mais empregadas domésticas no mundo. Dados de 2018 do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas) apontam que, dos cerca de 6,2 milhões de trabalhadores do setor, 5,7% são mulheres, sendo 68% negras.

Na fase adulta, para que qualquer pessoa tenha acesso à educação, consiga se desenvolver profissionalmente, e, mais ainda, dedicar tempo e recursos para se atualizar, criar, se destacar no mercado de trabalho, há um trabalho de cuidado lhe dando suporte.

No livro “Um feminismo decolonial” a cientista social francesa Françoise Vergés afirma: “a cada dia, em cada cidade, milhares de mulheres negras, racializadas, ‘abrem’ a cidade. Elas limpam os espaços que o patriarcado e o capitalismo neoliberal precisam para funcionar”.

Da tia da merenda nos tempos de escola até a moça da limpeza do escritório, quantas mulheres negras garantem o pleno exercício das suas tarefas?

Da babá dos seus filhos à diarista que limpa mensalmente o “home office”, quanto tempo você ganha terceirizando o trabalho doméstico e reprodutivo? Quantas mulheres negras garantem seus momentos de estudo e lazer? E essas mulheres, o que ganham de recompensa?

Para uma verdadeira e justa luta antirracista é preciso romper com esse ciclo estrutural que se estabelece nas tarefas mais simples do cotidiano, no entanto as mais invisíveis, e que muitas vezes não são consideradas de fato como determinantes nas manutenções das desigualdades. Mulheres negras precisam de mais oportunidades e, acima de tudo, condições para fazer escolhas com liberdade.


Publicado originalmente em Expresso na perifa