Esta reportagem integra a série “As mães que me criaram – rede de apoio e primeira infância nas periferias”, uma parceria do Nós com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

“Eu fiquei um tempo com a minha mãe e coloquei na minha cabeça que eu ia morar sozinha com o Heitor e consegui alugar uma casa. O pai vê o Heitor de 15 em 15 dias. Então, o Heitor está focado em mim. Eu tenho minha rede de apoio, que é minha mãe, minhas tias, minha avó, minha prima, porque eu trabalho em dois empregos. Elas ficam muito mais com o Heitor do que eu. Eu saio pra trabalhar às 4h40 e volto às 22h. Eu vejo meu filho pra dar a janta, tomar banho, tentar assistir alguma coisa, fazer alguma brincadeira e dormir. Então, o que me ajuda realmente é essa rede de apoio”.

A história da Camila Freires é a história de muitas mães no Brasil. Técnica em enfermagem, moradora de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo, ela é mãe solo do Heitor, de quatro anos. Na pandemia, sem o apoio da escola, ela conta quase que exclusivamente com mulheres da família para cuidar do filho.

Camila e Heitor – Arquivo pessoal

A chamada rede de apoio é a rede de cuidados – o conjunto de pessoas, instituições, políticas públicas, que, unidas, garantem as condições necessárias para o desenvolvimento da criança. 

Fernanda Lopes, psicanalista cofundadora da ‘Semana Mundial da Amamentação Negra’, acrescenta que a rede também pode ser composta por pessoas que não estão perto geograficamente da família. “Principalmente quando estamos pensando numa realidade mais classe média, cidades urbanas. Nem sempre seu vizinho é exatamente a sua rede de apoio. Às vezes, é uma rede virtual”, diz.

Este cuidado, atenção e possibilidade de apoio precisa ser garantido às crianças e suas famílias desde a gestação. A teoria bioecológica do desenvolvimento humano, da qual Juliana Prates é estudiosa, afirma que o desenvolvimento acontece em contexto, ou seja, ele é fruto das interações entre o sujeito e o ambiente onde as crianças têm contato com sua rede desde a gestação. As condições estruturais que serão dadas antes do nascimento é que vão favorecer ou prejudicar o desenvolvimento na primeira infância, período essencial para toda a vida. Isso significa as condições de pré-natal, de nascimento, o direito à licença maternidade, ao aleitamento exclusivo em função da licença maternidade remunerada.

“Obviamente que uma criança na primeira infância está muito mais no processo de simbiose com o cuidador primário, que é a mãe, sem muito atentar para outros cuidadores. No entanto, para que essa mulher possa estar disponível para cuidar da criança, ela própria precisa estar nutrida. E essa nutrição se dá através dessa rede de apoio. É a rede de apoio que conseguirá sustentar uma mulher para que ela consiga estar nesse estado de simbiose com o bebê”, afirma Juliana Prates.

Ao passo que a criança vá crescendo, é importante que haja alternância de adultos nos cuidados. “Isso é muito importante para a criança começar a entender que cada pessoa funciona de um jeito: ‘aqui essa pessoa é desse jeito; lá em casa, minha mãe fala assim, a minha vó fala de outra maneira; na casa da minha tia eu posso comer tal coisa’. A criança vai aprendendo essa dinâmica de que as coisas não são únicas”, enumera Fernanda Lopes.

Escola: dever do Estado

A Constituição Brasileira determina que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de assegurar com absoluta prioridade os direitos da criança e do adolescente. Quando os pais e as famílias sentem-se amparados pela comunidade e pelas políticas públicas, eles têm melhores condições de apoiar o desenvolvimento dos seus filhos. Portanto, todos somos responsáveis pelo pleno desenvolvimento da criança. Só que, muitas vezes, uma parte dessa rede falha – o Estado, quando não oferece vagas em creches.

É direito de todas as crianças brasileiras desde o nascimento até os 5 anos e 11 meses e de suas famílias o acesso à Educação Infantil. Ao Estado, por outro lado, cabe o dever de fornecer as vagas. O Brasil avançou nos últimos anos no que diz respeito ao acesso à Educação Infantil. O atendimento de crianças de 0 a 3 anos nas creches passou de 16% em 2005 para 30,4% hoje. Na pré-escola, o total de crianças matriculadas passou de 72% para 90%. Apesar disso, a oferta ainda é insuficiente e desigual. Números oficiais indicam que 1/3 das crianças de zero a três anos mais pobres do Brasil estão fora da creche por falta de vagas. A funcionária pública Erica Santos, moradora de Taboão da Serra, região metropolitana da cidade de São Paulo, é mãe do Rafael, de quatro anos, e esperou por vaga.

“Assim que ele nasceu foi muito difícil porque não achava creche para ele. Fiquei dois anos para conseguir creche e fiz de tudo, até ir à Secretaria de Educação. Quando consegui, estava longe da minha casa. Todo dia de manhã levava e voltava a pé. Em tempos de chuva, era muito ruim levar ele. Eu até recordo uma vez que eu estava levando ele de guarda-chuva na chuva, um casal parou e falou: ‘onde você está indo?’. Eles me deram carona, eu não acreditei. Quantas mães passando aqui, você acaba despercebida. Eles me viram, me deram carona. Até fico emocionada. Ainda dá para acreditar no ser humano”.

Juliana lembra que o acesso à Educação Infantil além de ser direito das crianças, também pode ser entendido como direito das famílias e mulheres. “A gente costuma, inclusive, julgar quando mulheres não trabalham, deixam seus filhos na creche.  Entendemos que se uma mulher não trabalha, ela tem que ficar exclusivamente e o tempo inteiro com a criança”. 

Este espaço institucional de educação, tem um papel fundamental de suporte para as famílias, antes de tudo porque distensiona as relações. “Uma criança na escola se comporta muito diferente de uma criança em casa, porque uma criança na escola aprende o papel e o ofício do estudante, aprende a lógica da coletividade. A escola ajuda a criança a fazer uma transição de papel, ela sai do papel de criança em casa, de filho, para ser um integrante de um grupo”, completa a psicóloga.

Uma aldeia de mulheres: “passa o olho nos meninos para mim”?

“A percepção que eu tenho como mulher, mãe, é que a nossa construção social dá esse espaço, essa liberdade, essa permissão para que homens não se impliquem no processo de responsabilização, educação, cuidado.  Para a mulher é compulsório”, opina  Thais Cassapian, professora da rede municipal de educação de São Paulo, mãe solo e cofundadora do Coletivo de Apoio à Maternidade Solo que atua arrecadando doações para mulheres que estão em situação de insegurança alimentar e sujeitas a vulnerabilidades sociais na cidade de São Paulo.

“Sabemos que o apoio oferecido diz respeito a um direito básico: a alimentação. Queremos apoiar as famílias em maternidade solo e ampliar o acesso a esse direito: uma infância saudável para os bebês e crianças, oferecendo o básico para que possam crescer com saúde”, afirma o grupo.

Diante desse cenário, as mulheres com suas redes de solidariedade têm sido o ponto de esperança dessas mães, solo ou não. “É como se uma mulher entendesse a dor da outra. Como se uma mulher entendesse o quão desafiador é o que a outra enfrenta. A minha rede de apoio é composta prioritariamente por mulheres também em maternidade solo e familiares”, diz.

Relatos de leitoras do Nós nas redes sociais

A auxiliar de cozinha Daniela Oliveira, mãe de três meninas e moradora de Paraisópolis, zona sul da cidade de São Paulo, resolveu morar com uma amiga para dividir os cuidados com as filhas: “A gente alugou uma casa maior, aí ela tem o quarto dela com a filha dela e eu tenho o meu com as meninas. Como a casa é grande, tudo bem dividido, dividimos o aluguel, as compras, os cuidados com as crianças, a filha dela de 13 anos ajuda a minha com a escola, aí dá uma aliviada tanto pra ela quanto pra mim”.

São as mulheres negras, aquelas que compõem a base da pirâmise social, que ocupam os cargos de serviço doméstico e que saem de suas casas para cuidar dos filhos das classes mais altas e deixando seus próprios em casa sob os cuidados de outros adultos.

Daniela e suas meninas – Arquivo Pessoal

Em entrevista ao Nós, Juliana Prates cita um trabalho da antropóloga e pesquisadora Claudia Fonseca, autora de ‘Caminhos da Adoção’ (1995), livro importante por lançar um olhar inovador sobre o cuidado e a circulação de crianças nas camadas populares brasileiras. Ela  diz que há uma circulação própria de crianças das classes mais pobres. 

“Por desamparo, por falta de cuidado estatal, falta de  apoio efetivo e estrutural, foi se criando redes de solidariedade nessas comunidades ou em classes mais pobres. As mulheres, os vizinhos contam muito mais uns com os outros, e  isso faz com que as crianças possam circular. Cláudia Fonseca, quando fala disso, ela vai falar não no aspecto de que é negativo a circulação,  ela vai dizer a circulação da criança como uma possibilidade de cuidados dessa família ou dessa comunidade extensa. É a criança que passa um tempo com a tia, que passa um tempo com a avó, que passa um tempo com uma vizinha”.

“As condições de cuidados dessas crianças são de uma atenção mais reduzida ou de um cuidado menor, considerando que não tem quem possa fazer isso. Então, a gente logo desde cedo vai ter irmãos mais velhos ou irmãs mais velhas, principalmente, cuidando dos menores”.

Você pode conhecer ou ouvir bastante a frase “Passa o olho pra mim”. Este passar o olho, na verdade, é tudo. “É um passar o olho que tem muito a ver com esse olhar social sobre a criança, e que dificilmente você encontrará num condomínio de classe alta. Você não encontra alguém que possa passar o olho como se fosse seu”, reitera Juliana.

Gerações de adultos que foram criados por mulheres

Quando perguntamos para Juliana Prates qual é o impacto na geração de adultos que foram criados por mulheres, ela respondeu: “Achar que só a gente vai poder cuidar. É achar que não tem outra saída, né? Não tem outro caminho”. É assim que tem que ser feito”.

A jornalista Jéssica Moreira, cofundadora do Nós, mulheres da periferia, é uma adulta que passou pela experiência de ter crescido em meio à uma rede de apoio familiar. Nascida e criada no bairro de Perus, zona noroeste da cidade de São Paulo, ela costuma dizer que foi criada por muitas mães e também por muitos pais na mesma casa.  “Eu acho que tem um desafio aí quando a gente cresce com todas as mulheres e é super cuidada, o que é super acolhedor e quentinho pro coração, mas a gente também, às vezes, acaba esquecendo de cuidar da gente mesmo, porque, embora essas mulheres fossem tão cuidadoras, muitas vezes elas esqueceram de cuidar de si próprias, ou não puderam, não tiveram tempo. Então, eu acho que o cuidado que eu tomo hoje é como que eu sigo o que eu aprendi com elas, mas também olhando pra mim, olhando pro meu autocuidado”, compartilha.

Essa falta de autocuidar está diretamente relacionada à culpa que toda mãe sente por não conseguir dar conta de tudo, vergonha de admitir que está cansada e que toda a satisfação não vem exclusivamente da maternidade. “A gente precisa poder ouvir mulheres que não têm uma boa relação com a  maternidade, mulheres que fazem a maternidade, mas não como um único projeto de vida. Precisamos deixar os meninos brincarem de boneca desde o início, porque cuidar de outro ser humano não é uma tarefa exclusiva das meninas”, defende a psicóloga Juliana Prates.

Cristiana Lopes reforça o pensamento de Juliana e escolhe lembrar que as mulheres também precisam recuar. “Eu acho que a gente está sempre nessa linha tênue entre saber que tem um lugar de potência, se construir em cima disso, e lembrar que tem muito mais dentro do ser mulher do que a gente aprendeu. Eu recebo mulheres muito sofridas nesse lugar inflacionado que a gente, por vezes, colabora, alimentando essa ideia de que a gente tem algo muito especial”.

“E quero dizer para todas as mães: não se cobrem. Não seja só guerreira, não dá pra ser só guerreira, precisamos de cuidado também, a gente precisa de amor, de atenção. Aos domingos, quando estou de folga sozinha, eu quero deitar no sofá, acordar mais tarde, assistir as filmes que eu gosto. Se ame, tome um banho longo, tome cerveja, tome café, assista ao que você gosta. A gente precisa disso. Não dá pra ser só mãe o tempo todo, a gente é mulher também. E eu aprendi isso agora porque quando Heitor nasceu, eu me cobrava muito”, finaliza Camila Freires.

Sobre a autora:

Mayara Penina

Mayara Penina

Mayara é jornalista e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.