No dia 8 de março, Lilian Cristina, motorista de aplicativo, abasteceu seu carro por R$ 5,74 o litro da gasolina e trabalhou por dois dias. Dia 10, na quinta-feira, era seu rodízio, então ficou em casa. No dia seguinte, quando chegou ao mesmo posto de gasolina, tomou um susto: o valor havia aumentado para R$ 6,49. 

Desde 11 de março está em vigor mais um aumento de preço na gasolina e diesel. Em comunicado publicado no dia anterior pela Petrobras, a estatal anunciou o reajuste de 18,8% no valor da gasolina para as distribuidoras e de 24,9% no diesel. O botijão de gás também está mais caro: subiu 16,1%. Em 2021, a gasolina acumulou alta de 47,49%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Lilian trabalha há cinco anos como motorista de aplicativo e mora no Grajaú, zona sul da cidade de São Paulo (SP). Ela é presidente da AMMA (Associação de Mulheres Motoristas de Aplicativos), criada por mulheres em busca de melhores condições de trabalho. 

Ana Paula Aparecida é vice-presidente da AMMA, trabalha há seis anos como motorista de aplicativo e também tem sofrido com a alta dos combustíveis. A moradora de Barueri, zona oeste da cidade de São Paulo (SP), vê ainda um “efeito cascata”, com o aumento de preços em itens da cesta básica. “O básico tá difícil”, salienta. 

Mônica Costa, educadora financeira, reforça a fala de Ana Paula. “A alta dos combustíveis traz um impacto direto sobre os itens de consumo da população mais pobre, porque a gente vive em um país onde os alimentos são levados de um estado para outro por vias rodoviárias. Então, sempre que há um aumento no diesel, há um aumento no frete, que impacta diretamente sobre o aumento da cesta básica”, explica a fundadora da G&P Finanças, empresa de educação financeira para mulheres negras. 

“Eu até queria parar, mas não posso”

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Ana Paula é motorista de aplicativo há seis anos e mora em Barueri, região metropolitana de São Paulo.

Crédito: arquivo pessoal

Diante da alta dos combustíveis, muitos motoristas de aplicativo estão deixando de atuar na profissão, alguns que trabalham com carro alugado já entregaram os veículos para as empresas. É o que relata Ana Paula, que está em vários grupos de Whatsapp da área. “Não está valendo a pena”, afirma.  

Apesar disso, ela continua trabalhando no ramo por falta de opção.

“Eu até queria parar, mas não posso. Tenho dois filhos para sustentar, sou divorciada”. 

Quando conversou com o Nós, no dia 18 de março, a motorista contou que sua semana estava “negativa”: havia tido problemas com o carro e teve que arcar com a manutenção. O dinheiro restante já não era suficiente para arcar com as contas do mês. “O boleto [do carro] vai vencer dia 20 e eu não tenho nem a metade do valor”, diz ela, que está pagando o financiamento o veículo. 

Lilian Cristina é uma das que alugam carro para trabalhar, em seis meses foram cinco aumentos de valor, o último deles de R$119. A motorista divide as contas da casa com sua namorada.

A conta não fecha 

Todos os dias Lilian sai de casa às 4h30, e fica na rua por oito, dez horas ou mais. “Eu tinha colocado para mim que eu ia trabalhar até no máximo 16h, e agora eu não consigo mais voltar antes das 16h sem bater a minha meta”, afirma. Ela também trabalha em alguns finais de semana durante a noite e a madrugada. Por semana, gasta de R$ 600 à R$ 700 com combustível. 

Já Ana Paula costuma trabalhar das 20h até às 8h durante a semana. Por dia, gasta cerca de R$ 100 com gasolina. “Não está fechando a conta”, afirma sobre o alto valor gasto. 

O valor que foi aprovado pelo Senado para um auxílio combustível não duraria nem uma semana para essas duas motoristas. O PL (Projeto de Lei) 1472/2021, que está em discussão na Câmara dos Deputados, define pagamento de R$ 300 mensais para motoristas autônomos de baixa renda. O projeto também define regras para estabilização do preço dos combustíveis.

Lilian Cristina é motorista de aplicativo há cinco anos e mora no Grajaú.

Crédito: arquivo pessoal

Em outra medida, o presidente Jair Bolsonaro sancionou lei complementar que cria alíquota única do ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias) de combustíveis para todos os estados. No dia 22 de março, os governadores anunciaram o congelamento do ICMS da gasolina até junho. 

Para a educadora financeira Mônica Costa, o auxílio-combustível é “mais uma forma de jogar fumaça nos olhos da população, mas que não resolve efetivamente, não é uma solução”. A resolução, segundo ela, seria uma política para redução de preço da gasolina. 

Desde 2016, a Petrobras adota a Paridade de Preços Internacionais (PPI). Nesta política os preços dos combustíveis são equiparados ao barril internacional do petróleo, mesmo que a maior parte seja produzida no país. 

A educadora explica também que o preço dos combustíveis nacionais leva em consideração as commodities, matérias primas com valores definidos a partir da oferta e procura internacional. A guerra na Ucrânia afeta esses preços e “o país deixa de acessar alguns mercados”. 

Há mais um fator central: a especulação do mercado financeiro. Basicamente investidores “apostam” na falta ou na sobra de oferta de combustíveis, a partir desse cenário global. “A especulação de que vai faltar e justifica o aumento é sempre muito mais forte do que a especulação de que vai sobrar”, afirma Mônica. 

Ela acrescenta que: “esse processo da guerra na Europa deve trazer novas pressões para a população mais pobre e para as mulheres da periferia, mais especificamente, porque a gente está falando de um grupo cujo salário é destinado para compra de consumo”. 

Ana Paula sente essas pressões na sua rotina, afirma que está pagando uma conta por vez, quando consegue juntar a grana. “Não dá mais pra fazer mercado, então eu vou fazer fracionado, hoje eu compro arroz, amanhã eu compro feijão. Eu estou fracionando para conseguir sobreviver, eu estou sobrevivendo. Essa é a verdade”, lamenta. 


Reportagem publicada originalmente em Expresso na perifa

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