Peguei o último domingo para assistir o conto de fadas que mais marcou minha infância: A Bela e a Fera. A sessão, num shopping da Parada de Taipas (zona norte da periferia de SP), estava lotada de crianças acompanhadas de seus pais e mães. Eu também fui com a minha. O intuito era relembrar a infância e deixar de lado as tantas problematizações que não saem mais da minha cabeça. Eu juro que gostaria de ver um conto de fadas e apenas dar risada, ou, então, ficar emocionada com o amor romântico. Mas eu não consigo. Peço desculpas, de antemão, aos que odeiam as problematizações, mas uma vez do textão, sempre textão.
A real é que sempre elogiei “A Bela e a Fera”. Pra mim, a narrativa fugia do enredo sempre patriarcal do príncipe que salva a princesa com um beijo. Da safra de contos da Walt Disney, era o único que se salvava, já que a mensagem sobre a “beleza interior” sempre me fez muito sentido e continua fazendo. Uma pena que a Fera tenha voltado a ser aquele homem branco, padrão europeu, né? Pois aí sim a mensagem teria um sentido completo, quebrando com os estereótipos do que é ser belo, colocando em evidência o sentimento de um pelo outro.
Sim, Bela já sai do padrão das princesas tradicionais. É apresentada ao público como uma mulher que visa o conhecimento e a ampliação de seus horizontes, adora ler e se sente diferente do restante da pequena população de seu vilarejo. Não tiro esse mérito do filme, que, com certeza, à época que fora lançado, representava um novo paradigma. Claro, continua sendo a moça branca de ares angelicais, mas isso é tema para um outro artigo.
Depois de tanto tempo desde a primeira vez que vi, assisti-lo dessa vez só me fez pensar que ele não mais me representa, por um fato que quase me passou despercebido, não fosse a lembrança da frase de uma mulher da zona leste de São Paulo, Tarcila Pinheiro, uma das personagens do documentário Nós, Carolinas, produzido pelo Nós, mulheres da periferia:

– ” Eu não sei em que momento isso é passado para a gente, mas a gente acredita que o nosso amor vai mudar um homem, e o nosso amor não muda ele, e aí a gente se sente fracassada, porque parece que o fracasso é nosso e não que foi a sociedade que moldou o sujeito daquele jeito. [ Na nossa cabeça] foi a gente que não foi capaz, a gente que não foi mulher suficiente para mudar um homem, porque se a gente fosse mulher suficiente, a gente tinha mudado ele. Isso de certa forma entra na nossa cabeça e para sair é muito difícil”.

"Desde muito pequenas, aprendemos que temos que cuidar dos homens que nos cercam, aprender a amá-los como eles são".

“Desde muito pequenas, aprendemos que temos que cuidar dos homens que nos cercam, aprender a amá-los como eles são”.


Em nome da vida de seu pai, Bela abre mão de seus sonhos para, então, viver como prisioneira em um castelo escondido no meio da floresta. Depois, é enxergada por todos os objetos falantes da casa como a única que realmente pode salvar o príncipe em não ser uma fera para sempre e, automaticamente, não deixar que os outros se tornem coisas obsoletas.
Durante todo o filme, as personagens se esforçam para agradar Bela e fazer com que a Fera seja cordial com a moça. Ela, em algum momento, cede ao carinho dos seus anfitriões e passa a enxergar a Fera de outro modo, admirando seu gosto por livros. Até que, realmente, se apaixona por ele. Mas, de novo, precisa salvar seu pai. Ou seja, mais uma vez, ela precisa salvar um homem.
Eu imagino que à época do lançamento, esta era uma quebra de paradigma gigantesca e que poderíamos enxergar a trama como a mulher  ocupando um espaço de poder na sociedade. No entanto, não é bem isso que acontece. Pois se, realmente, quisessem passar a ideia de empoderamento feminino de Bela, ela teria ganhado o mundo para além de sua vila, como, de fato, era o que cantava para todos os cantos. O poder que depositam em Bela é apenas o de salvar a humanidade, assim como acontece na vida real.
Como aponta Tarcila, desde muito pequenas, aprendemos que temos que cuidar dos homens que nos cercam, aprender a amá-los como eles são, mesmo quando isso gera sofrimento, visto a total perda de liberdade de Bela. Enquanto nós nos transformamos na tentativa de agradá-los. E nos doamos deixando a nós próprias para salvar o mundo com amor.
Ainda bem que os contos de fadas estão se transformando. Vide Sherek, com ênfase no terceiro, onde Fiona aparece na imagem de uma guerreira. Outro exemplo é Frozen, no qual o amor fraternal de duas irmãs é o ponto central da narrativa. E uma produção brasileira, “A princesa e a costureira” fala ainda sobre o amor entre duas mulheres. Existem outros, é claro, e mesmo nos que citei podemos encontrar ainda formas de machismo. Porém, existe a esperança de que uma nova mentalidade pode surgir entre as meninas que, querendo ou não, recebem as diversas mensagem jogadas pela indústria cultural.
Jéssica Moreira é jornalista, co-fundadora do Nós, mulheres da periferia e moradora de Perus, zona noroeste de São Paulo.
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