Futurar: imaginar o que ainda não aconteceu, antever, prenunciar. Afrofuturismo. Como sonhar amanhãs em um agora que apresenta tantas incertezas? Pelo menos 6 a cada 10 lares brasileiros viveram algum nível de insegurança alimentar em 2020. Já são 14,8 milhões de pessoas desempregadas e o país bateu a triste marca dos mais de 500 mil mortos pela Covid-19. Em meio aos desafios trazidos pela pandemia, unidos àqueles que já existiam, como será que as mulheres negras estão imaginando e criando futuros possíveis?” 

Para refletir sobre Meio Ambiente, Economia do Cuidado e Tecnologia o Nós, mulheres da periferia e a Revista Azmina se uniram e criaram a série de podcast Futurar, que em três episódios vai conjugar o verbo futuro com mulheres negras que fazem acontecer no presente sem nunca esquecer do passado.

Para falar sobre os futuros do meio ambiente no Brasil, iremos utilizar o conceito de afrofuturismo e as histórias e respostas de futuro de Donana, griot do Quilombo Quingoma, primeiro do Brasil, situado na Bahia; Marcela Bonfim, do Projeto Amazônia Negra, em Rondônia, e Sônia Ara Mirim, das terras indígenas do Jaraguá, São Paulo.

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Afrofuturismo

O termo afrofuturismo foi cunhado no anos 1990, mas uma de suas maiores referências, o pesquisador, jazzista e teórico sun Ra, já na década de 1960 dizia que o lugar das pessoas negras não era a Terra, mas o futuro. Embasado na chamada filosofia cósmica, ele organizou o curso o Homem Negro no Cosmos e também inseriu sua filosofia no filme “Space is the place”. Na década de 1980, temos a dama da ficção científica, a escritora negra Octávia Butler com seus livros voltando ao passado da população preta. Em 1992, o estudioso Mark Derry lançou um artigo chamado Black to the Future, no qual entrevista diversos artistas e pensadores que estão trazendo o conceito de afrofuturo naquele momento, principalmente na área da cultura pop e tecnologia, como os escritores Samuel Delany, Greg Tate e a crítica cultural Tricia Rose”. Um pouco depois, em 1998, Alondra Nelson, uma socióloga norte-americana, foi fundamental para a propagação do termo, criando uma lista nomeada afrofuturismo, com exemplos de diversos autores, artistas e possibilidades de aplicação do termo.

O futuro do meio ambiente

Para buscar no passado as imagens que nos foram negadas, Nós e Azmina conversamos com Ana Lúcia dos Santos Silva, Donana, no Quilombo Quingoma, um território não só histórico, como também sagrado. Localizado em uma extensa área verde, com chão pra correr, rios e muito fruto no pé, o Quingoma está situado no município de Lauro de Freitas, divisa com Salvador. Aproximadamente, 3.500 pessoas vivem no local, reconhecido pela Fundação Palmares como um dos primeiros quilombos do Brasil.

“O quilombola anda com os pés descalços. Quem é de axé, anda de pé descalço, porque nossa planta do pé sente a energia da terra. A terra nos alimenta, nos dá energia pra gente sobreviver, pra gente viver. Então, essa lógica de destruir o meio ambiente, pra se formar uma selva de pedra, é suicídio da humanidade. É matar o meio ambiente e dentro desse matar morrer dentro dele”, é o que diz Donana.

A ameaça em torno do Quilombo Quingoma não é um caso isolado. Os ataques contra quilombolas e indígenas são uma realidade por todo o Brasil e revelam muito bem quão essencial é conhecer o passado para lutar por um futuro justo. Durante a produção desse podcast, a Comissão de Cidadania e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou Projeto de Lei (PL) 490, que restringe a demarcação de terras indígenas, levando a protestos e manifestações em todo o país.

No dia 25 de junho, os povos indígenas Guarani Mbya, das terras do Jaraguá (SP), protestaram fechando a Rodovia Bandeirantes, no extremo norte da capital paulista. Em um ato pacífico, com crianças e mulheres na linha de frente, eles mostraram seu apoio aos indígenas que estavam em Brasília e disseram mais uma vez não a esse retrocesso. Eu estive lá e ouvi a liderança indígena Sônia Ara Mirim.
“Essa PL como nós sempre estamos falando é a PL da morte, né. É uma PL que tira todos os direitos já conquistados pela Constituição de 1988. Então, ela tira direitos nossos, direito de vida, direito pela terra, direito de vivermos como povos indígena”, aponta Sônia.

Nos territórios quilombolas a situação é igualmente difícil e, para piorar, em 31 de maio, o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, excluiu uma norma que regula obras de impacto ambiental nos quilombos. Segundo reportagem da TVT, a instrução normativa assinada em outubro de 2018 garantia a proteção ambiental em torno dos territórios de milhares de quilombolas brasileiros. A decisão de Sérgio Camargo retira a participação das comunidades dos processos de licenciamento de empreendimento imobiliários, que podem gerar impactos ambientais, econômicos e culturais.

Amazônia Negra

Falar de meio ambiente no Brasil de hoje é lembrar que a gestão que tenta apagar o passado dos povos de origem africana e indígena quer construir um futuro que exclui esses grupos. Isso é uma faceta do Racismo Ambiental, que nada mais é que a prática de destinar às comunidades e populações negras, indígenas, não-brancas e periféricas os piores efeitos da degradação do meio ambiente.

O Brasil ocupa a 6ª posição no ranking dos maiores poluidores do planeta e, desde que Bolsonaro chegou ao poder, em 2018, a política ambiental do país sofreu diversos retrocessos. Alguns exemplos disso são as queimadas do Pantanal e o aumento do desmatamento da Amazônia. O desmatamento na Amazônia foi o maior em dez anos pelo terceiro mês consecutivo, de acordo com dados do Imazon, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, que faz o monitoramento da região por satélite. Segundo o Imazon, foram desmatados 1.125 quilômetros quadrados de floresta no mês de maio, um aumento de 70% em relação a maio de 2020, quando foi registrado o desmatamento de 660 km quadrados.

“Amazônia é uma ideia-lugar disputada por muitas mentes de ontem e de hoje. Essas mentes, além de repercutirem seus interesses na devastação desse território, perpetuam desigualdades por meio da estigmatização das mais diversas realidades (e mundos) presentes na região. Encontrar uma Amazônia da cor de minha pele, diferente do que eu imaginava, me permitiu acessar lugares que nunca pensei existir”, é o que aponta Marcela Bonfim, economista e fotógrafa que tem um projeto chamado Amazônia Negra.

Entre 1907 e 1912, trabalhadores da “diáspora barbadiana” contribuíram com mão de obra qualificada para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e também colaboração para uma efetiva institucionalização de serviços relacionados à educação, saúde e outras políticas sociais na região. Atualmente, novas diásporas se instalam na Amazônia, como a dos recém-chegados haitianos e venezuelanos.

Barbadiano é o termo usado para se referir aos imigrantes negros do caribe no início do século XX. Muitos deles vieram de Barbados para Porto Velho, em Rondônia, Belém do Pará ou outras cidades que integram a Amazônia. A migração barbadiana é considerada o primeiro fluxo migratório livre negro no Brasil. É sobre essa população que Marcela se debruçou em sua fotografia e criou o projeto Amazônia Negra, trazendo a ancestralidade negra da Amazônia apagada, e tentando perpetuar outras imagens para o futuro com seu novo projeto Madeira de Dentro, Madeira de Fora.

Se encontrar e se Reconhecer, seja na fotografia afro-indígena da Amazônia, nas táticas de resistência das histórias contadas de geração a geração pela griot do Quilombo Quingoma ou na luta dos povos indígenas. A fotografia de Marcela, assim como as histórias de Donana garantem que a memória e ancestralidade de povos negros e quilombolas sejam resguardadas. Como citam no artigo Black to the future, o povo preto, em qualquer lugar, sempre foi mestre do figurativo, da imaginação, pois tiveram que utilizá-la para sobreviver.

“O futuro da Amazônia Negra é o futuro dessas tantas Amazônias, né, eu falo que, hoje é….eu penso em pensar positivo. Eu penso em pensar o dia a dia com otimismo, né, a gente tá vivo, chegamos até aqui, essa é nossa história. É uma luta permanente. Agora, o futuro da amazônia negra, eu acredito, é o futuro dessas todas amazônias é o futuro do brasil, né? 

Esse foi o 1º episódio da série especial Futurar, uma parceria Conversa de Portão e Revista AzMina e faz parte de Narremos a Utopia, uma iniciativa de Puentes para imaginar um futuro feminista, interseccional e inspirador.

O Conversa de Portão é um podcast produzido pelo Nós, mulheres da periferia em parceria com o UOL plural, um projeto colaborativo do UOL com coletivos e veículos independentes. Semanalmente, nós ouvimos a  história, opinião ou análise de mulheres sobre assuntos que são importantes para nós.