Você reparou que a palavra golpe voltou a aparecer no noticiário e nas redes sociais nos últimos dias? Em meio a uma crise sanitária, social e econômica, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vem mobilizando sua base de apoiadores para ir às ruas no próximo dia 7 de Setembro –feriado da Independência do Brasil– para medir sua popularidade.

Nas vésperas dos atos, que irão acontecer na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e na Av. Paulista, capital de São Paulo, Bolsonaro voltou a repetir ameaças à democracia brasileira, apontando que os atos serão um ultimato ao Supremo Tribunal Federal (STF).

“Não podemos admitir que uma ou duas pessoas, usando a força do poder, queiram dar outro rumo para nosso País. O recado de vocês, povo brasileiro, nas ruas, na próxima terça-feira, dia 7, será um ultimato para essas duas pessoas” […] “Eu duvido que aqueles um ou dois que ousam nos desafiar, desafiar a Constituição, desrespeitar o povo brasileiro, saberá (sic) voltar para o seu lugar. Quem dá esse ultimato não sou eu, é o povo.”, disse nesta sexta-feira (3).

Nos últimos dias, Bolsonaro tentou um pedido de impeachment contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, mas este foi negado por Rodrigo Pacheco, presidente do Senado Federal. Além disso, acompanhamos aqui no Nós as tentativas de Bolsonaro em fragilizar o voto eletrônico em prol do voto impresso, também sem sucesso.

Em contraponto aos atos pró-Bolsonaro, o movimento negro, articulado pela Coalizão Negra por Direitos, também chama o povo para o “Bloco Preto para dar freio ao genocídio negro” em diversas capitais do país, sendo esta a forma que o movimento encontrou para denunciar a política de morte do governo federal, que atinge principalmente o povo negro, que representa 56% da população do país.

Pensando nisso, o que nós, mulheres negras e periféricas, precisamos ficar atentas nesse jogo político? Como as crises entre o presidente e outros poderes interferem na nossa vida?

Para falar sobre isso, conversamos com Jaqueline Conceição. Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestre em Educação: História, Política e Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, além de articuladora do Coletivo Di Jejê, e pesquisadora sobre Feminismo Negro no Brasil. 

Confira a entrevista!



Nós, mulheres da periferia: Quais são os grandes objetivos dos atos por parte dos apoiadores de Bolsonaro?

Jaqueline Conceição: O que está em jogo agora é uma disputa de ideias. Do ponto de vista cultural, é medir forças, de quem tem uma narrativa mais potente. E a narrativa mais potente necessariamente não é a narrativa que a maioria compra, mas é a narrativa que consegue se impor para a maioria. Essa é a prática que a própria direita vem construindo não só no Brasil, como no mundo. A tônica dos atos, esse processo de ‘vai ter golpe’, ‘o grande 7 de setembro’, esse ufanismo nacional que os atos reivindicam, faz parte desde o começo da jornada do próprio processo do governo Bolsonaro. Ele fez isso com os atos na rua, os atos contra a Dilma Rousseff.

A gente está vendo agora algo como uma onda. Sabe uma onda quando vem do mar? Que a onda vem até chegar na parte que ela quebra e pega a gente desprevenida e cai no mar? A gente está vivendo agora a quebra da onda, que começou lá atrás com a derrubada do governo de Dilma Rousseff.

A grande missão e proposta da direita com os atos de 7 de setembro é a disputa narrativa de uma performance, de uma forma de fazer política que se impõe nesse lugar da violência, do controle, do medo, que usa uma ideia que, para a esquerda, é pavorosa: o retorno da Ditadura, porque tem uma memória recente do Brasil sobre isso. A última experiência que a gente teve de autoritarismo no Brasil foi a Ditadura Militar.

A extrema direita usa essa mesma narrativa da Ditadura para poder disputar essa narrativa de poder, porque o que estamos medindo agora é que o grosso da população brasileira –os trabalhadores comuns, que estão nos aplicativos, nas entregas, que estão desempregados, que estão lutando para comprar o seu quilo de carne de terceira, pagar seu aluguel em dia–, eles não estão muito preocupados com essas discussões políticas, eles estão preocupados em como vão manter a vida no dia a dia, porque está ficando cada vez mais impossível.

Essa discussão ideológica-cultural da direita e da esquerda, do golpe, é uma discussão que tem viés cultural-ideológico para disputar uma narrativa, que é a narrativa que conforma a experiência. É o famoso “quem conta um conto aumenta um ponto”. É uma narrativa que está sendo construída para dar um contorno da vida cotidiana e apontar quais vão ser os próximos passos para 2022. O que está na disputa e horizonte é 2022. Lenin diria que o que a gente está vivendo é a disputa da direção da crise. O Brasil está em uma crise política, econômica, extrema-direita e Esquerda estão tentando disputar a direção dessa crise para ver quem direciona isso em 2022.

Nós: Acredita que isso alimenta a ideia de um golpe no imaginário da população?

Jaqueline Conceição: Diferente da esquerda, que tem todo um processo de organização a partir de pautas, de reivindicações, o 7 de setembro chamado pelo Bolsonaro e pelas pessoas que defendem cegamente o governo não têm uma pauta definida. Voto impresso? Não dá nem pra dizer que isso é pauta. O que tem é uma tentativa de confirmação de narrativa, de botar uma força na rua para mostrar poder, para ele construir em um imaginário coletivo essa ideia de que ele é um homem poderoso, de que ele é um grande líder, que tem um poder oculto, que é o grande Messias. Isso é uma sacada do Fascismo. A gente não pode nunca perder isso do horizonte.

Uma das sacadas do Fascismo é fazer a disputa de narrativa o tempo todo. Não é à toa que no ápice do Governo Fascista na Alemanha e Itália, o Governo controlava totalmente a produção cultural. O clássico da Indústria Cultural, do Theodor Adorno, vai fazer essa discussão. Ele [Bolsonaro] tentou com os ministros da Cultura, ele tenta fazer esse tensionamento na Fundação Palmares, conformando uma narrativa de desvalorização em torno das conquistas raciais no Brasil. Onde isso afeta a vida de mulheres negras? Uma narrativa violenta e ufanista exclui aqueles que não estão dentro desse marco civilizatório, desse mundo branco, masculino, controlador, que a lógica do Bolsonaro, do mundo das pessoas que defendem ele. Que é essa centralidade do lugar do homem branco.

O lugar que nos afeta, é o lugar da disputa ideológica, é o lugar da disputa da narrativa, porque a nossa condição de vida enquanto mulheres negras, enquanto pessoas pobres no Brasil já está deteriorada desde o Governo do Temer. Já sofreu um abalo no Governo da Dilma, depois tem uma queda brusca no Governo do Temer e agora no Governo do Bolsonaro a condição de vida das pessoas pobres, indígenas, pretas e quilombolas, os trabalhadores que vivem com dois ou três salários mínimos, está cada vez mais deteriorada.

Os direitos estão cada vez mais ameaçados, a condição de vida cada vez mais precária.. Tem um movimento que a Coalizão Negra por Direitos tem feito que é disputar narrativa, que é estar presente nos movimentos, nos grandes atos nacionais, na entrega do protocolo do impeachment do Bolsonaro, nas manifestações.

Quem tiver mais capacidade de articulação dessa narrativa, é o grupo que vai ter mais condições de conseguir responder à crise que está dada no Brasil. O que Lenin vai dizer no livro “Revolução Permanente”, um livro super antigo, mas que nos ajuda a entender esses períodos de crise que estamos vivendo, que é uma crise internacional, com a extrema direita articulada no mundo inteiro.

A gente vê isso com o Talibã no Afeganistão, vê os reflexos disso ainda nos Estados Unidos com a crise econômica. Estamos vendo a crise da vacinação com a política liberal da Europa e a dificuldade de acesso às vacinas na África. E estamos vendo isso na América Latina, especialmente no Brasil.

O que está em disputa nessa narrativa? O que Lênin falava? Que a Esquerda Revolucionária tinha que disputar essa narrativa, tinha que fazer jornal, tinha que fazer panfletagem, programa de rádio, tinha que estar na rua com as pessoas, é isso que o Bolsonaro está fazendo.

Às vezes, eu acho que eles leram Lênin, e estão fazendo ao contrário. Porque eles estão na rua disputando a narrativa o tempo inteiro. Não só na mídia, mas na rua. Os atos que eles fazem insistentemente. Agora, também nos canais de Youtube, os influencers que eles pagam é uma forma de estar na rua.

E para as pessoas comuns, que estão fora desse aspecto de esquerda e direita, tem mais visibilidade, quem está mais presente. É tipo Big Brother Brasil. Todo dia na sua casa, com conteúdo diferente e no mesmo formato. E as pessoas consomem porque está dado, oferecido, é uma narrativa que é vendida. É o que o Bolsonaro está tentando fazer.

Nós: Quais as pautas defendidas por eles e como elas afetam a população negra e periférica?

Jaqueline Conceição: O Brasil já é um país atravessado pelo autoritarismo. A própria violência policial, que assola o Brasil, e que tem números alarmantes de encarceramento, de homicídio, o reflexo da violência urbana a gente não pode esquecer que a violência urbana também é uma forma de controle da violência. A milícia, o narcotráfico, a dificuldade de acesso a direitos, os trancamentos que ele [Bolsonaro] fez dos acessos às informações de transparência. Tudo isso já são políticas de autoritarismo. A partir da ação dele na Fundação Palmares, Secretaria de Cultura, tudo isso já é medida de autoritarismo.

A gente está achando que esses chamados dos atos, ou que ações do Bolsonaro são algo que vai ainda acontecer, ou que está fora da realidade, mas na verdade o que elege Bolsonaro é o desejo autoritário da cultura brasileira. Se for voltar no próprio processo pensado com a psicologia e psicanálise, que são os meus lugares de deslocamento profissional,  se a gente voltar na história de como o Brasil foi constituído, a experiência da escravidão, que nunca foi refletida, se for pensar na forma como a própria estrutura de classe no Brasil foi pensada, a exclusão social de corpos não brancos, das esferas públicas, políticas e econômicas, o autoritarismo é o modo de socialização de construção da história brasileira. Os atos intensificam a narrativa que o Bolsonaro vem tentando construir que é desse controle dos corpos não-brancos, controle dos corpos não-normativos: mulheres negras, pessoas pobres, indígenas, camponeses.

Nós: Por que nós, mulheres negras, precisamos ficar atentas nesses atos e próximos capítulos até as Eleições de 2022?

Jaqueline Conceição: Para nós, enquanto mulheres negras, o que é fundamental estar atenta é como o avanço desse discurso vai atacar diretamente a ponta, que ameaça a liberdade do homem branco, do homem rico branco, de homens como Bolsonaro, porque o avanço dos nossos direitos, como o direito à reprodução segura, o direito e acesso à escolarização, o direito à política de bem-estar social, proteção à maternidade, a proteção à infância, proteção da juventude, políticas habitacionais, todos os avanços desses direitos que foram conquistados do governo do Lula até o governo da Dilma,  todos esses direitos ameaçam a hegemonia de homens como Bolsonaro. Ele é o representante de um grupo de homens que certamente pensam como ele e mulheres também.

Nós, mulheres, temos que ficar atentas ao avanço dos nossos direitos, porque isso  implica na ameaça da hegemonia deles. Para garantir a hegemonia, eles vão triturar os nossos direitos. A candidatura que a gente vai eleger a nível estadual para a Assembleia, a nível federal para a Câmara, seja deputado ou senador e também as nossas escolhas de eleição para Governador e para Presidente precisam considerar programas políticos que vão garantir a retomada dos nossos direitos e a manutenção dos nossos direitos. E aí não só enquanto mulher, não só enquanto mulher negra, mas de toda classe trabalhadora.

A bola está em campo e a gente tem que estar de olho em quem vai marcar esse gol e precisa pensar quais são as candidaturas que a gente vai apoiar como bloco. Nós, mulheres negras, somos a maioria dos votos e, supostamente, deveríamos ser a maioria dos votos que elegem os nossos representantes porque nós somos a maioria da população brasileira comparado na questão de gênero.

A gente tem um peso político muito grande nessas decisões. Nós somos a maior parte da cadeia produtiva. Nós somos a base econômica do Brasil. Sem o trabalho doméstico, seja da trabalhadora que trabalha nos prédios chiques da cidade de São Paulo ou na Zona Sul do Rio de Janeiro, ou a mulher que fica em casa cuidando dos filhos para o marido trabalhar, sem a trabalhadora doméstica não haveria possibilidade de produção econômica no Brasil.

A gente tem um lugar privilegiado na relação econômica que já dizia Lélia Gonzalez que é o nosso lugar enquanto mulher inserida nesse mundo do trabalho doméstico. Estamos dentro da casa das elites cuidando dos filhos das elites e se a gente sai desse trabalho como é que as juízas e as empresárias e a socialites vão viver a vida delas, quem vai limpar a casa delas?

Quem vai cuidar dos filhos delas? Somos nós. Então a gente está na periferia cuidando dos nossos filhos, dos nossos maridos, visitando os presos, cuidando dos doentes e a gente está também na casa das elites cuidando dos filhos deles, educando os filhos deles nas escolas, servindo nas empresas deles. Nós somos a base da economia também nesse sentido. A gente tem um poder, então é importante que a gente consiga entender qual é a narrativa que a gente quer conformar, porque a gente tem esse poder não só de disputar a narrativa, mas de avaliar e dizer essa ‘história aqui ela me representa’.

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