Sempre que conversa com um paulistano, Nina afirma que precisa explicar que o “da Hora” é mesmo o seu sobrenome e não uma gíria. Comigo não foi diferente. Já o Nina é um dos muitos apelidos de Ana Carolina, nascida no Rio de Janeiro e criada em Duque de Caxias, na região metropolitana do estado.

A entrevista foi pelo Zoom muito mais devido à nossa distância geográfica, eu em São Paulo, ela no Rio, e não pelo entusiasmo com a plataforma tecnológica. Nina, inclusive, gosta de enfatizar que sua área de trabalho vai além do universo online.  “Tecnologia não é só digital, rede social, computador. É cadeira, copo. É todo artefato que altera o meio que está inserido. Está associada à filosofia, ao pensamento que está por trás dela”.

Aos 25 anos, Nina da Hora é hoje uma cientista da computação, mas o interesse por conhecimento vem desde pequena, principalmente pela leitura. Criada em uma família de mulheres negras, sendo a mãe professora de Língua Portuguesa, ela sempre teve a educação como referência.

“Elas ajudavam a responder perguntas. Não tinha condição para brinquedos, a gente fazia receitas, experimentos, desmontava as coisas. Eram divertidas as brincadeiras”, relata.  Sempre boa aluna, afirma que não se sentia cobrada pela mãe professora, ao contrário do irmão mais novo (Nina tem ainda uma irmã caçula). “Meu irmão era mais difícil, comigo não, ela até falava ‘para de estudar, vai comer, descansa um pouco’”.

O interesse de Nina por tecnologia fez a mãe até se matricular em um curso de informática para que a filha pudesse assistir às aulas ainda pequena. “Eu comecei a programar com 12 anos. Eu não tinha computador em casa, eu ficava na casa da minha tia por uma hora, porque minha mãe não deixava mais que isso. Eu tinha que ajudar em casa, eu era a mais velha, então não tinha a tarde toda livre para brincar”.

Na adolescência, os bons resultados também nos esportes – futsal e handebol – fizeram com que ela conseguisse uma bolsa de estudos em uma escola privada para concluir o Ensino Médio. Depois disso, prestou vestibular e ingressou na PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) em 2015.

“[Em Caxias] aproveitei muita coisa que tinha disponível: lanhouse para jogos, pesquisa, os livros que tinha. Já era bastante coisa. O que vivo hoje já veio depois, na universidade. Eu não conhecia o Rio de Janeiro, não tinha outros parâmetros. Só quando fui para a universidade, para a zona sul, andei de metrô. Hoje eu vejo que muita coisa, robótica, Arduino (uma plataforma de prototipagem eletrônica open-source ), poderia ter acelerado meu aprendizado. São coisas estruturais e básicas. Você consegue investir tempo em outras descobertas, não em conseguir a estrutura. Mas eu não mudaria nada do que eu passei.

Na periferia a gente aprende a hackear as oportunidades que aparecem. Pode sair qualquer coisa dali, cada território pensa e se comunica de forma diferente. Eu aprendi a hackear sem ter computador.

Quem não tem essa preocupação é muito previsível, só segue o que está posto, o padrão. Quando acontece um problema, meus colegas [universitários] já entram em desespero. Para nós [da periferia] não é um problema, é uma oportunidade. É diferente de quem sempre teve tudo. Se tivesse sido diferente, não estaria fazendo o que eu faço hoje”.

 

Hackear e dividir

Colocando em prática a veia educativa de sua família, na universidade Nina se engajou em ações colaborativas para inclusão de mulheres na tecnologia. Em 2016, coordenou o projeto “Pyladies”, um grupo de garotas que ensinavam a linguagem de programação Python para outras mulheres, capacitando-as para o mercado da computação.

No ano seguinte, ficou em quinto lugar na competição “Campus Mobile” da Universidade de São Paulo – USP, com um projeto de sinalização para ciclistas. Já em 2018, a estudante foi uma das brasileiras convidadas a participar da conferência anual de desenvolvedores da Apple, nos Estados Unidos.

Paralelamente às experiências acadêmicas, Nina criou os projetos “Computação Da Hora” e “Computação sem caô”, com objetivo de ajudar na comunicação e no ensino de conceitos da computação em uma linguagem acessível e com materiais do dia a dia. Em seu canal no Youtube, a cientista apresenta conceitos, principalmente voltados para o pensamento computacional.

Nina durante o curso.

Crédito: Reprodução: Youtube

“A educação é o que ajuda o Ser Humano. O que eu aprendo e consigo é para compartilhar, é uma premissa. Não devemos estudar para manter na nossas cabeças, não jogar para o mundo.

Não tem como criar conteúdo se não fizer em coletivo. Um ciclo que se fecha em uma pessoa só, só impacta ela mesma. ‘Favela venceu’ para uma pessoa só, não é assim.

Você não pode trazer o coletivo no discurso do individualismo que o capitalismo coloca. Você dá margem para que esse discurso continue sendo perpetuado e quebra um ciclo maravilhoso que é o ‘um sobe um levanta o outro’. E isso a gente não precisa divulgar, porque é uma estratégia. Se você divulgar, o sistema vai criar uma maneira de como quebrar isso.

Continuar hierarquia entre a gente, dentro da periferia, para mim é perpetuar o sistema. Tenho minhas conquistas, fico muito feliz, sou grata, mas não falo essa coisa de ‘favela venceu’. Não posso jogar isso como se fosse uma verdade para todo mundo, porque eu vivo em um lugar em que eu olho para o lado e vejo que isso não é verdade”.

Para as mulheres negras e periféricas que querem ingressar na área da computação, da Hora indica estudar pensamento computacional, antes de qualquer linguagem de programação, e procurar grupos de mulheres para troca e aprendizado coletivos.

Afrofuturista

Por meio do podcast Ogunhê, Nina realiza outra ação que lhe é muito cara, a de promover a história de cientistas africanos, seus projetos e legados. “Ogunhê” é a saudação a Ogum, que, na mitologia e religiões de matrizes africanas, é o orixá da Guerra, Agricultura e tecnologia.

“Tivemos muitos problemas, para além da escravidão, de invisibilidade. O que me motiva é o resgate e a documentação. Como tivemos uma tentativa de apagamento, de contar a nossa história a partir de uma perspectiva branca, que não contempla a gente como protagonista, o que motiva é sempre o resgate e o que eu posso documentar”, explica.

A difusão de sua pesquisa contribui, segundo ela, para o reconhecimento das contribuições africanas na ciência e para que mais pessoas conheçam essas referências.

“Para mim faz total diferença saber que existe uma cientista negra, Katherine Johnson, que trabalha com geometria analítica, e foi responsável por uma das mais importantes conquistas da Nasa. Porque na Nasa a gente só vê homem branco”.

“É importante saber que uma das maiores pesquisadoras de inteligência artificial do mundo é uma mulher da Etiópia, Abeba Birhane. É importante saber que a primeira mulher a cursar engenharia no Brasil foi uma mulher negra, Enedina Alves.  É importante para mim como referência, para que eu me veja como parte dessa história. Para mim hackear é conseguir resgatar essas histórias”.

Quando pergunto se ela considera que seu trabalho faz parte do que se define como ‘Afrofuturismo’, ela, mesmo sem graça, admite que sim. “Me sinto parte disso. Não produzo conteúdo, mas o lugar que estou ocupando e a forma que estou fazendo, aí se encaixa em afrofuturismo. Quando vejo Fábio Kabral, Lu Ain-Zaila, os dois maiores escritores de afrofuturismo do Brasil, eu leio e acho sensacional, quero pôr em prática. A gente tem muita coisa, muita gente, e isso passa por tecnologia também”, afirma.

O Afrofuturismo é um movimento estético, social e cultural que combina elementos da ficção científica com história, fantasia e temáticas de origem africana. O termo foi cunhado em 1993 por Mark Dery nos Estados Unidos, mas na década de 1950 já existiam produções afrofuturistas na arte, como o livro  Invisible Man, de Ralph Ellison, e o músico Sun Ra.

Fonte: CanalTech

“Um filme sobre o Pantera Negra não é só sobre super herói; é você ter uma produção preta falando sobre tecnologia no contexto americano, que é totalmente contra, e ter alcance global. Quando eu vejo a galera produzindo filme na favela, no Complexo do Alemão. Quando eu vejo a galera nas periferias do norte e do nordeste roteando internet de um computador para todo mundo da comunidade, debatendo segurança digital. É isso que dá força para a gente fazer o que estamos fazendo”.

 

 

 

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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.