Você lembra da última vez que comeu seu prato preferido? Lembra da última vez que escolheu o que comer em uma refeição? Você escolhe o que comer nas refeições? Enquanto você pensa nessas respostas, 19 milhões de brasileiros responderiam “não”.

É o que diz o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da covid-19 no Brasil, desenvolvido pela Rede Brasileira PENSSAN (Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar). O estudo mostra que 55,2% dos lares brasileiros conviveram com algum grau de insegurança alimentar no final de 2020, e 9% deles vivenciaram insegurança alimentar grave, ou seja, passaram fome durante a pandemia.

No 35º episódio do podcast Conversa de Portão, a socióloga Erika Galindo do Grupo de Pesquisa ‘Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia’, explica o que são estes termos e quais políticas públicas deixaram de existir para estarmos neste cenário.

Ouça o episódio:

Confira a entrevista completa:

Nós, mulheres da periferia: O que significa o conceito de segurança alimentar?

Erika Galindo: Segurança alimentar é mais do que um conceito, é um direito, ele é um direito previsto na Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan) e na própria Constituição Federal. Então, este direito diz respeito ao acesso à comida de verdade, regular e em quantidade suficiente. Além desses elementos, a ideia de segurança alimentar parte do princípio de garantir que as dimensões culturais, ambientais, econômicas e sociais, sejam resguardadas. É um conceito muito amplo que vai além da própria ideia de ter comida no prato, mas também de se resguardar várias outras dimensões, da própria ideia de produzir o alimento, de consumir o alimento.

Nós: E o que é insegurança alimentar? 


Erika Galindo: A classificação de insegurança alimentar se dá em três níveis: insegurança alimentar leve, insegurança alimentar moderada, insegurança alimentar grave. A leve é quando há a preocupação de que falte alimento no futuro. A moderada é quando começa a faltar entre os adultos daquele domicílio, as refeições do dia. E a insegurança alimentar grave é quando a família fica sem uma das refeições e isso passa a afetar não só os adultos, mas também as crianças. A pesquisa mostra que 15% dos domicílios entrevistados estavam em situação de insegurança alimentar grave, ou seja, seus moradores e moradoras estavam passando fome

Nós: A pesquisa diz que os demarcadores de gênero, território e raça fazem com que alguns lares sejam mais ou menos suscetíveis à insegurança alimentar. Você pode comentar esta afirmação?

Erika Galindo: A pesquisa mostrou que a insegurança alimentar atinge de forma desigual determinados grupos sociais. Ao colocarmos uma lupa nos dados, vemos que os domicílios com uma única pessoa responsável, ou quando a responsável é uma mulher, ou ele é uma pessoa de raça ou cor preta ou parda, esses domicílios têm percentuais mais altos de insegurança alimentar. Os domicílios que estão situados em áreas rurais e nas regiões Norte e Nordeste do país. Então, a gente consegue identificar que essas são desigualdades estruturantes que expõem determinados grupos a situações de vidas mais precárias. Sabemos que historicamente são as mulheres, negras e os negros do país que vivem em situações de trabalhos mais precárias, que vivem sob condições de vida também mais precarizadas, com menos acesso a renda, quando a gente vai comparar com outros perfis da população brasileira. Entendendo a pandemia como esse momento de agravamento de crises, ela acaba aprofundando essas desigualdades e colocando esses grupos sociais numa situação de menor proteção. São mais vulneráveis, não só à própria Covid-19, mas à própria fome.

Nós: Uma das entrevistadas para este episódio do Conversa de Portão, a Elismaura, uma mãe, catadora de materiais recicláveis, que não conseguiu Auxílio Emergencial  disse alguns dias teve que responder para a filha que só tinha bolacha para comer. A pesquisa fala um pouco sobre consumos de alimentos saudáveis e não saudáveis, não é? O que mudou durante a pandemia?

Erika Galindo: De maneira geral, percebemos uma redução no consumo de alimentos saudáveis durante a pandemia. E o que que a gente entende por alimento saudável? São os alimentos in natura, alimentos naturais, frescos, ou minimamente processados. Aqueles que passam por baixo processamento, baixa industrialização.  44 % das pessoas que participaram da pesquisa, durante a pandemia, afirmaram ter reduzido o consumo de carne; 41 % reduziu o consumo de frutas, 40% de queijos e 37% de hortaliças e legumes. Estes são alimentos bem importantes, não só na dieta alimentar, de perspectiva cultural, mas também do ponto de vista de qualidade alimentar, de alimentos saudáveis. Este dado é cruel, há uma redução concreta de consumo de alimentos saudáveis entre as pessoas durante a pandemia.

Nós: Uma das políticas econômicas que foram criadas ano passado, foi o auxílio emergencial. Qual é o papel do Auxílio Emergencial neste cenário? 

Erika: Ao olharmos para o conjunto de dados da pesquisa, a gente vê que a renda é um componente muito importante, que possibilita melhores condições de acesso a alimentos saudáveis, em quantidade e qualidade suficientes. 63% dos entrevistados que receberam Auxílio Emergencial disseram que utilizaram parte desse recurso para compra de comida. A gente pode dizer que o Auxílio Emergencial foi uma medida importante, que contribuiu para que a situação de insegurança alimentar não fosse ainda pior nos domicílios pesquisados. Sabemos que os valores de R$ 600, como foi lá no início, e de R$ 300 não são suficientes para alimentar uma família e pagar as despesas. Eu acho que é importante destacar também que existe uma importância grande das políticas de transferência de renda básica. E aí, preocupa muito a gente essa decisão do Governo Federal de reduzir tanto o valor das parcelas do Auxílio Emergencial, quanto o número de beneficiárias e beneficiários atendidos nesse ano, ainda mais, no momento em que a pandemia está alcançando números piores no Brasil. Manter um Auxílio Emergencial sobre essas condições de valores tão baixos, vai levar a uma situação de insegurança alimentar no país ainda mais profunda. É muito importante essa ideia de criar políticas públicas, de distribuição de renda e de renda básica, e que elas consigam efetivamente alterar as relações de desigualdades de renda e econômicas que existem no Brasil.

Nós: Pegando o gancho nisso, das políticas relacionadas à renda, a gente sempre pergunta para as nossas entrevistadas quais são as saídas e políticas para revertermos este cenário?

Erika: Nosso entendimento é que para o enfrentamento à fome a gente precisa construir políticas robustas que venham realmente promover a segurança alimentar e o Brasil deu passos importantes neste sentido. Precisamos combinar o conjunto de políticas que estejam comprometidas com superar as desigualdades sociais econômicas que estruturam o país, construir meios de superar as desigualdades de gênero, raça, cor e classe, combinadas com as políticas voltadas à produção e à disponibilidade de alimentos saudáveis, principalmente fomentando a agricultura familiar, mas fazendo chegar de forma justa, com preço justo e trabalho justo à população.

Os equipamentos públicos de segurança alimentar são muito importantes também: os restaurantes populares, os bancos de alimentos, e uma política macroeconômica que venha pensar o abastecimento interno da produção e também de controle das altas de preços dos alimentos. Entendemos que é uma combinação de fatores e o Brasil já mostrou isso. Foi um conjunto de medidas nestes aspectos que levaram o Brasil a sair do Mapa da Fome em 2014. Então, os caminhos que a gente identifica são esses, são políticas mais estruturantes que afetam tantos lares brasileiros, como a pesquisa mostrou.


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Sobre a autora:

Mayara Penina

Mayara Penina

Mayara é jornalista e moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.