Por Bianca Pedrina e Mayara Penina

Em maio, o Nós noticiou a suspensão da vacinação em grávidas do imunizante AstraZeneca/Oxford e convidou Maria Aparecida, professora no Instituto de Saúde Coletiva da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) para tirar algumas dúvidas das gestantes. A aplicação foi suspensa, após uma grávida ser vacinada, ter reação adversa e falecer. Um mês depois, 15 mil mulheres gestantes que tomaram a primeira dose da vacina AstraZeneca se organizaram e criaram um grupo com a exigência da segunda dose do imunizante. 

Isso porque a orientação do Ministério da Saúde para gestantes e puérperas – incluindo as sem fatores de risco adicionais – que tomaram a primeira dose da vacina Covid-19 da AstraZeneca – é de que aguardem o fim da gestação e do período puerpério, até 45 dias pós-parto, para completar o esquema vacinal com o mesmo imunizante.

Com isso, inúmeras mulheres que tomaram a primeira dose no início da gravidez só poderão tomar a segunda dose cerca de oito ou nove meses depois, o que ultrapassa o tempo adequado para a segunda aplicação da Astrazeneca, que é de três meses.

Lira Furtado, moradora de Goiânia, está grávida de 29 semanas e integra o grupo. Ela tomou a primeira dose em 8 de maio e aguarda a recomendação para seguir sua imunização.

A gestante explica que o grupo foi criado, a partir de trocas com outras mulheres na mesma situação pelo Instagram. “Tinha conversado com uma das gestantes, após nós duas termos comentado em um post da Anvisa sobre a segunda dose, ambas estávamos cobrando sobre a imunização das gestantes que tomaram a Astrazeneca”, explica.

As conversas por mensagens diretas culminaram com a criação de uma página na internet e caminhos para pressão no poder público. “Entrei em contato com ela por direct e conversamos sobre o que poderíamos fazer, pautamos entrar com uma ação no Ministério Público, enfim pensamos alternativas. Dias depois, ela havia me dito que criaram um grupo de Whatsapp e uma página no Instagram. E assim a gente foi se organizando”, completa.

Amanda, de 35 anos, moradora de Belo Horizonte, também integra o grupo e tomou a primeira dose na quarta semana de gestação, após orientação de sua médica, e por também ser profissional da área da saúde. Mesmo sabendo dos possíveis efeitos colaterais, comuns após a aplicação, seu entendimento era de que o benefício da vacinação e estar protegida contra a Covid-19 eram maiores.  

No entanto, uma semana após tomar o imunizante, o Ministério da Saúde suspendeu a vacinação. “Passou um misto de sentimentos na minha cabeça. Eu, como profissional da área da saúde, autônoma, como me manteria isolada? Eu dependo dessa renda para o sustento da minha casa”, frisa. O fato de gestantes serem consideradas grupo de risco e o ambiente hospitalar ser mais propício para contaminação também a preocupa.

Amanda tem data provável para o parto em 10 de janeiro de 2022. Com a orientação do Ministério da Saúde, a gestante esperaria um ano para receber a segunda dose. “E qual é a eficácia? Não tem nenhuma outra alternativa para beneficiar as gestantes e acho que tem que ter um olhar mais delicado para esse público, pelo fato de a gente estar carregando uma outra vida dentro de nós”, argumenta.

A gestante tem vivido momentos de tensão, já que continua trabalhando, sem a possibilidade de se isolar e sem a segunda dose garantida. Amanda explicou que o movimento criado está acionando o Ministério Público,  vereadores, deputados e pessoas da sociedade civil para conseguir a garantia da imunização completa. “Estamos nos mobilizando até conseguirmos uma reversão desse quadro, porque nós temos o direito, sim. Tem que ter uma solução. É uma bagunça isso tudo”, aponta.

Um manifesto e um abaixo-assinado foram criados por essas gestantes com as preocupações em torno dessa imunização. “Para algumas que  engravidaram  depois  da primeira  dose, esse  prazo  chega há  um ano  ou mais.  Há  milhares  de  gestantes  que  só  poderão  tomar  a  segunda  dose  em 2022  (sob  qual  critério  técnico  essa  decisão  foi  tomada?)”, aponta a nota.

O grupo também questiona o fato de que o imunizante não foi suspenso para pessoas não grávidas. Neste sentido, qualquer mulher fértil no Brasil, que se vacine com a AstraZeneca “e venha a descobrir uma gravidez ou mesmo engravide antes de ter recebido a segunda dose, fica impedida de completar o esquema vacinal no aprazamento correto”.

Outro argumento usado é que se a vacina é tão perigosa para a gestante, seria preciso atestado a todas as mulheres em idade fértil, já que qualquer uma pode estar grávida e não ter conhecimento e ter reação à vacina.

Para a epidemiologista e doutora em Ciências da Saúde Maria Aparecida Patroclo, existe a necessidade de uma decisão técnica que venham oferecer maior segurança às gestantes que ainda não foram completamente imunizadas.

Para isso, em sua avaliação, “é necessário contato com a sociedade de ginecologia e obstetrícia, Sociedade Brasileira de Infectologia, entre outras, e mobilizar as associações de defesa de direitos das mulheres”.

O Nós questionou a infectologista sobre alguns países, como Canadá e Chile estarem adotando um esquema de mistura de imunizantes. Maria Aparecida compartilhou análise feita pela imunologista Cristina Bonorino, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sobre essa possível imunização. “Mesmo diante de algumas incertezas, países como Espanha, França, Canadá e Finlândia já estão recomendando aos jovens que receberam a primeira dose da AstraZeneca que finalizem seu esquema com outro tipo. Isso porque esse imunizante foi associado a coágulos sanguíneos nessa população. É um possível efeito adverso muito raro, mas que preocupa as autoridades”, indica Cristina.

Para Maria Aparecida, apesar dessa orientação de mistura de imunizantes em outros países, “ainda existem muito poucos estudos no mundo e os já publicados, foram realizados com um pequeno número de pessoas”.

A epidemiologista aponta como saída para essas gestantes a imunização pela vacina Janssen, que garante proteção contra o vírus com apenas uma dose e que, segundo os especialistas, pode ser aplicada em gestantes e lactantes. “Talvez esta seja uma opção para as gestantes que receberam até o momento apenas uma dose da vacina AstraZeneca, se não houver suspeita de possível reação do organismo destas mulheres, que possa vir a inativar esta segunda vacina após ela ser inoculada”, conclui.

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