“Hoje eu faço aquilo que eu quero, do jeito que eu quero e no formato que eu quero. Eu sei dizer não, sei dizer sim. Sei ser convidada e entrar, e quando eu não sou convidada, eu me convido”. É assim que a velhice chegou para a dançarina e atriz Mona Rikumbi. “Sou arteira e artista”, define. 

Mona faz história: foi a primeira mulher negra cadeirante a dançar no Theatro Municipal de São Paulo e participou da construção do movimento negro no país. Tem na religiosidade de matriz africana uma forma de entender o mundo e viver nele. Foi essa tradição que a ajudou a ressignificar seu lugar enquanto pessoa com deficiência. Quando se tornou cadeirante, reencontrou a arte da dança. A militância não foi uma escolha. Clama pelo direito de continuar sendo mãe. 

Seu nome de batismo é Érica Andrea Martins. “Eu sou a segunda filha de uma mulher negra, mãe solteira. Ela me deu este nome porque é uma flor que conseguia resiste mesmo no cimento. Ela sabia que eu ia ter que ser forte”, conta. O nome Mona Rikumbi, que significa filha do sol, foi lhe dado quando iniciou na tradição religiosa africana banto. 

Quando criança, Mona teve contato com o teatro por meio das idas a um centro cultural próximo de casa. Já a relação com a dança era mais ligada à tradição do terreiro. “Minha brincadeira com as minhas amigas e com a minha irmã era botar as roupas da minha mãe, bater o tambor e imitar as divindades, as entidades”. 

A artista de 51 anos de idade mora na zona sul da cidade de São Paulo. Entre os anos 80 e 90, fez trabalho de performance em uma banda chamada Évora. Aos 24 anos, engravidou, saiu da banda e passou a atuar como enfermeira. 

Em 2000, teve o diagnóstico de neuromielite óptica, uma doença neurológica rara que pode levar a cegueira e paralisia, com maior incidência em mulheres de descendência africana e asiática. Após alguns tratamentos e cirurgias, passou a ser cadeirante em 2007. 

“Nunca tinha visto uma bailarina na cadeira de rodas”

Quando começou a viver com a cadeira de rodas, Mona enfrentou um processo de luto, sua primeira impressão foi de que não havia mais espaço para ela nos ambientes em que frequentava.

“Eu nunca tinha visto uma bailarina na cadeira de rodas, nunca tinha visto ninguém numa cadeira de rodas numa roda de candomblé, capoeira ou de jongo”. 

Foi então que procurou aprender mais sobre sua própria tradição de matriz africana. “Eu fiquei surpresa, mas também muito realizada quando eu entendi porque Oxum dança tão lentamente e lindamente. Ela dança lentamente, porque num certo momento, em uma das várias brigas de Oxum com Obá, Obá jogou dendê quente nos pés de Oxum. Em nenhum momento Oxum deixa de ser sagrada mesmo trazendo os pés queimados”. A partir disso, passou a entender que a sua deficiência não a impediria de ocupar espaços e que a cadeira é apenas seu meio de locomoção. 

Em 2007, a artista teve um reencontro com a arte. Descobriu que existia dança de cadeira de rodas e começou a participar de aulas. “Eu só consegui entender a dança e dançar efetivamente, quando pude extrapolar esse olhar de quem é vivenciador para aquela que faz a manutenção da tradição [africana]. Então, toda vez que eu estou com a minha cadeira e entro em qualquer roda, qualquer lugar que eu danço, eu estou mais uma vez dizendo: ‘Não é inclusão, é pertencimento. É a radicalidade de entender que tudo que tem vida é sagrado e importa’”.

O dia que dançou no Theatro Municipal

Mona Rikumbi

Mona Rikumbi é atriz e dançarina.

Crédito: Lethicia Galo

Em julho de 2017, Mona não sabia que estava fazendo história quando subiu ao palco do Theatro Municipal. Abriu e participou do espetáculo Sonhos, da Associação Fernanda Bianchini – Cia Ballet de Cegos. Foi a primeira mulher negra cadeirante a se apresentar no teatro em seus mais de 100 anos de existência. Até então, só tinha entrado nesse espaço como espectadora. 

Mesmo num dia de conquista, a dançarina enfrentou problemas de acessibilidade: a entrada de artistas não tinha rampa e ela precisou da ajuda de bombeiros para subir as escadas. Mesmo assim comemora, porque em uma segunda apresentação, em agosto do mesmo ano, já havia uma rampa. 

A proposta da companhia era que as três atrizes que apresentariam o espetáculo estivessem vestidas de gala. Ela propôs que vestisse uma “gala negra”, com roupas de inspiração africana. O diretor apoiou a ideia e Mona entrou em contato com uma estilista senegalesa que conhecia. Pediu a ela que fizesse uma roupa inspirada em uma rainha.

“Eu fui a primeira a entrar e fazia o som do tambor na boca. Imagina, uma companhia toda branca que até então era só de bailarinas cegas dançando clássico, e aí chega eu bem preta!”, conta. 

Por mais que sua entrada não tenha passado de cinco minutos, foi um episódio marcante e simbólico. Ela se orgulha de ter enfrentado o teatro lotado, dançado e recitado. 

Militância: “não foi escolha, foi sobrevivência”

Durante a juventude de Mona, o país passava pelo processo de redemocratização. Em 1988, quando ingressou no Ensino Médio, já participava de discussões e movimentos sociais, como as Diretas Já, a construção da Assembleia Constituinte e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 

Para ela, a militância “não foi escolha, foi questão de sobrevivência”. “Sendo da periferia e querendo atuar na arte, qual era o caminho senão lutar para que este espaço me entenda e me acolha?”, explica. 

A ativista participou ainda da consolidação do movimento negro, relembra das dificuldades dos encontros que eram feitos em escolas públicos, com colchonetes finos para dormir e sem água quente. “Em 1990, a gente teve o II Encontro Nacional de Entidades Negras, você não tem ideia o que era em pleno 1990, a gente sem telefone em casa, um movimento de maioria jovem, a gente ainda não tinha o legislativo negro, e construir um movimento nacional. Pensa bem o que foi isso!”. 

Relembra dos atritos que existiam no movimento: machismo era presente, e por vezes os homens não davam espaço para as pautas levantadas pelas mulheres. Mona conta que logo viram a necessidade de criar um movimento de mulheres negras. Outro ponto era a questão da religiosidade de matriz africana. Segundo ela, isso era colocado em segundo plano. 

Há quinze anos, quando se tornou uma pessoa com deficiência, passou a atuar também nesta causa. Dentro do movimento negro e de mulheres, não havia uma vertente para a pessoa com deficiência. 

Pelo direito de continuar sendo mãe 

Mona Rikumbi

Mona Rikumbi é atriz, dançarina, ativista nas causas raciais e das pessoas com deficiência.

Crédito: Lethicia Galo

“Ser mãe foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. No meio de todo esse turbilhão de coisas que eu vivi, é muito bom saber que eu botei um cara do bem no mundo. Um cara que vai saber respeitar a mulher, que sabe entender de onde veio, e sempre a partir desta visão de mundo africana”. 

Mãe solo, e filha de outra mãe solo, Mona conta que está abrindo mão de qualificar sua maternidade desta maneira. Propõe outra reflexão: o direito de continuar sendo mãe. 

“As mulheres negras são as que mais deixam de ser mães. Quando a gente perde a mãe a gente vira órfão, quando a gente perde o filho não tem nem nome. Nós, em função da nossa vulnerabilidade, em função do processo racista, toda vez que nosso filho sai, é o caso do meu que já tem quase 30 anos, aparece a dor e o medo de botar esse filho na rua e saber que uma bala perdida pode achar o corpo dele”. 

Mona lembra que costurava os bolsos da calça do filho para evitar que a polícia colocasse algo, e que orientava ele a jogar bola com camiseta, para em caso de morte fosse possível identificar. “Que mãe que não é preta tem que passar por esse caminho?”, questiona. 

Na infância, a mãe de Mona sempre dizia que, teria que ser excelente para ser considerada regular. Passando pelo processo de redemocratização e luta no movimento negro, Mona achou que não precisaria falar isso para seu filho, mas precisou. Talvez o mesmo deverá ser dito a seu neto. 


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