O hábito da leitura pode transformar realidades. É o que defendem projetos de incentivo à leitura localizados nas periferias brasileiras. Nessa reportagem, o Nós, mulheres da periferia conversa com três deles: a Gelateca Cultural Maria Betânia de Carvalho, que disponibiliza livros em geladeiras, a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, conhecida por ter ocupado durante uma década o espaço de um cemitério, e o coletivo Mulheres negras na biblioteca, atuante no incentivo a leitura de autoras negras. 

A pesquisa “Brasil que lê”, lançada em março deste ano pelo Instituto Itaú Cultural,  identificou a ligação entre projetos de leitura e o desejo de transformação da condição social. O estudo mapeou iniciativas de promoção à leitura no país, e revelou que 74,08% dos responsáveis pelos projetos são mulheres. Além disso, 39,01% das iniciativas se mantêm apenas com recursos próprios. 

Livros na geladeira: Gelateca Cultural Maria Betânia de Carvalho

‘Ler é revolucionário’: mulheres incentivam a leitura nas periferias

O projeto Gelateca Cultural Maria Betânia de Carvalho incentiva a leitura através da disponibilização de geladeiras customizadas e repletas de livros.

Crédito: Pablo Carvalho

Localizado no bairro Jardim São Paulo, em Recife (PE), o projeto Gelateca Cultural Maria Betânia de Carvalho incentiva a leitura com a disponibilização de geladeiras customizadas e repletas de livros em espaços públicos, com a realização de um sarau mensal. 

O projeto foi criado em 2018 por moradores do bairro, “que entendem a necessidade e a importância da leitura e da cultura como um dos principais meios de mudanças e propagação de justiça social”, conta Gal Araújo, umas das coordenadoras. O nome escolhido foi em homenagem a uma antiga moradora do bairro. Maria Betânia de Carvalho era professora e militante social da educação. 

Para produzir as gelatecas, os gestores do projeto pedem doações de livros e geladeiras velhas à própria comunidade. Além disso, fazem parcerias com grafiteiras e grafiteiros para pintá-las. Atualmente são três: uma em homenagem a Maria Betânia de Carvalho, outra em homenagem ao menino Miguel, que faleceu ao cair de um prédio enquanto estava aos cuidados da patroa de sua mãe, e a última leva o nome de “Gelateca da Graça”, em referência a Dona Graça, responsável por uma barraca de frutas e verduras, costumava colocar livros em caixotes. 

“O incentivo [à leitura] é para a comunidade em geral, mas nossas ações sociais e saraus atraem muitas crianças. Acreditamos que ler é um ato revolucionário e é preciso empoderar nossas crianças, nossa juventude”, afirma Gal. 

Mulher periférica, mãe solo, militante social e ativista, Gal conta que sua militância veio em parte por meio da leitura. Relata que a escolha pelos livros não é fácil. “A periferia em si, tem que escolher entre comer e estudar, eu tive que fazer esta escolha, entre trabalhar para trazer o sustento para mim e minha filha, e estudar. Não sou formada em nada, sou formada na rua mesmo, hoje eu tenho o hábito de ler porque entendo que da leitura eu faço a revolução”.  

Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura já passou por posto de saúde, cemitério e salão alugado

Localizada durante uma década em um cemitério, a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura realizava anualmente o Sarau do Terror.

Crédito: divulgação / Facebook

Em Parelheiros, zona sul de São Paulo (SP), a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura atende os moradores há mais de uma década. A iniciativa foi criada em 2009 pelo IBEAC (Instituto Brasileiro de Estudo e Apoio Comunitário) e é gerida pelo Escritureiros, coletivo de jovens da região. 

No primeiro ano de projeto ocuparam uma sala de uma UBS (Unidade Básica de Saúde), depois disso, passaram a usar o espaço da antiga casa do coveiro no Cemitério de Colônia, primeiro cemitério protestante no Brasil. O local inusitado foi explorado pelos gestores da biblioteca: realizavam anualmente o Sarau do Terror, com apresentações culturais, contação de histórias e outras atividades. 

Em abril de 2021, os gestores da biblioteca foram surpreendidos com uma ordem de despejo. A gestão do cemitério iria demolir o espaço para construir mais lápides. “A gente tem uma história de 12 anos aqui e em menos de um mês, a gente tem que entregar um espaço com uma quantidade extensa de livros”, afirma Sidineia Chagas, uma das fundadoras da biblioteca. 

Sidineia conta que conseguiram estender a ordem até o fim de 2021, e nesse tempo pensaram em estratégias para que os livros “não ficassem encaixotados”. A solução encontrada foi a campanha “Eu (A)guardo a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura”, em que moradores foram convidados a levarem para casa alguns livros do acervo até que a biblioteca encontrasse um novo espaço. Hoje, a biblioteca está em um salão alugado, que não comporta todo o acervo e não está aberta ao público.

Diante de toda essa trajetória de atuação, o projeto ganhou uma homenagem no melhor formato possível: um livro. A obra juvenil “Meia-noite na biblioteca”, de Alonso Alvarez, é inspirada na Caminhos da Leitura e traz histórias com vivos e mortos numa biblioteca dentro de um cemitério. 

Sidineia conta que vários projetos culturais e sociais em Parelheiros foram criados a partir das vivências na biblioteca comunitária e entende a literatura como ferramenta de transformação nas periferias. “A partir da biblioteca, foi possível entender nossas identidades, foi possível fazer com que outras pessoas reconhecessem suas histórias, suas ancestralidades, e saber da onde nós partimos e onde nós gostaríamos de chegar”, diz. 

Mulheres negras na biblioteca: quantas autoras negras você já leu?

Projeto Mulheres negras na biblioteca realiza rodas de conversa e clubes de leitura.

Crédito: Guilherme Menezes

Incentivar a leitura de obras de autoras negras e reivindicar a inclusão de seus livros nas bibliotecas são os objetivos do projeto Mulheres negras na biblioteca. No ano passado, lançaram uma biblioteca de troca de livros de escritoras negras. O processo é simples: acessar o acervo online, selecionar uma obra, informar qual livro dará em troca e aguardar o envio pelo Correios. 

A “bibliotroca” foi inspirada no The free black women’s library, biblioteca dos Estados Unidos composta exclusivamente por obras de autoras negras. Carine Souza, produtora cultural, idealizadora e diretora do Mulheres negras na biblioteca, revela que conheceu esse projeto a partir de uma reportagem publicada no Nós, mulheres da periferia. 

“Esse projeto começa em 2016 num curso técnico de biblioteconomia, quando a gente – na primeira formação do coletivo –  identificou que não havia obra de autoras negras na biblioteca da escola”.

Pediram doação de livros nas redes sociais, catalogaram as obras e as disponibilizaram no acervo da biblioteca.

“Naquele momento a gente já entendeu que não bastava as obras estarem nas estantes, as pessoas precisavam saber que as obras estavam ali”. 

É neste movimento de divulgar a existência de obras de escritoras negras que o coletivo realiza clubes de leitura, bate-papos com escritoras, oficinas de poesia e rodas de conversa. Entre essas iniciativas está a “Roda de poemas: Antes de nós”, que reúne poetas veteranas e da nova geração. Os eventos costumam ser realizados em escolas, bibliotecas e outros  espaços da cidade de São Paulo (SP), mas com a pandemia passaram a ser feitos também de modo virtual. 

Nas rodas de conversa, sempre perguntam ao público: “Quantas autoras negras você já leu?”. Por vezes as respostas se concentram em uma ou duas autoras. A produtora cultural lembra de uma ação promovida com alunos EJA (Educação de Jovens e Adultos), em que um homem disse que nunca havia lido um livro na vida, e que aquele que ganhou do projeto seria o primeiro. 

“Pra gente é missão cumprida, saber que a gente não só apresentou uma autora negra, a gente apresentou a literatura”, diz Carine. 


Reportagem publicada originalmente em Expresso na perifa

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