Numa sociedade em que nós mulheres, pretas e periféricas somos preteridas de todas as maneiras possíveis, não é difícil ter a resposta para a pergunta que originou esse texto.

Não fomos ensinadas que poderíamos ser boas em algo e que poderíamos receber o mérito por isso. Tudo sempre foi sobre a nossa obrigação. Sempre fomos obrigadas a darmos conta, a termos resposta e solução para tudo a todo tempo.

Nunca nos foi dito que talento e habilidades profissionais dependem de muito tempo e dedicação e que isso era digno de inspirar outras pessoas e de receber todos os elogios.

Quando fui convidada para ser uma das novas colunistas do Nós Mulheres da Periferia, tive muita dificuldade de compreender porque aquele convite me estava sendo feito. Eu não tenho muita visibilidade no meio virtual e não sou conhecida por escrever textos com frequência. Apesar de ser jornalista de formação, não tenho uma atuação padrão da profissão, trabalho como administradora e minha missão é deixar o caminho arrumado e minimamente confortável para que a minha galera possa executar. O que eu faço não é fácil de ser visto. Então, por que eu estou aqui?

Entendi que aceitar esse convite tão incrível, era como uma forma de aceitar os elogios e expor algumas das minhas vivências para um público que eu ainda não havia acessado antes. Aceitar esse convite foi aceitar o elogio. Mas mais do que isso, esse convite proporcionou que fosse possível olhar com mais atenção aos convites que chegam. E recentemente um novo convite moveu as estruturas da minha vida.

Fui convidada para atuar como especialista de comunicação em um projeto de formação cultural na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. A ideia é fazer um papel de incentivo e provocação para que o grupo selecionado possa desenvolver propostas criativas e que potencializem a comunicação das regiões em que elas vivem. Segui não tendo muita certeza sobre ser capaz de realizar essa missão, mas aceitei de cara.

O primeiro encontro foi muito além do esperado, eu me vi fazendo contribuições e falas que não imaginava, mas que foram muito importantes para o desenvolvimento das atividades. O processo criativo fluiu, de maneira que logo no primeiro dia o grupo chegou numa ideia que incluía todas as pessoas participantes e também suas habilidades técnicas e artísticas.

Eu fiquei muito grata e percebi mais uma vez que sou uma mulher negra, periférica, uma profissional extremamente dedicada e muito capaz de realizar coisas que ainda nem existem. Aceitei o elogio com muito orgulho.

É óbvio que vão ter dias em que a insegurança vai tomar conta e esse orgulho sumirá. Mas também terão dias em que você fará algo incrível, algo que não imaginava ser capaz e receberá retornos que farão você se orgulhar de quem se tornou.

Mas por que contar isso na minha coluna do mês? Porque eu demorei muito para entender quem eu sou, e compartilhar os processos que começo a experimentar na vida podem ser importantes para outras mulheres com vivências e sentimentos parecidos com os meus. Eu me orgulho de quem venho me tornando e me sinto animada para conhecer quem eu serei muito em breve.

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