*Trechos desse textos foram retirados e adaptados da matéria “Jornalismo comunitário: Uma ferramenta necessária para a comunicação no Brasil” publicado no portal alemão Kobra – Kooperation Brasilien.

As favelas e periferias do Brasil são muito diversas. Isso é um fato. Muito se assemelham nas vivências, luta e falta de garantia de direitos, mas o tamanho das diferenças e particularidades que existem em cada uma é imensurável.

O fazer diário de uma favela depende de tantos fatores que é impossível determiná-los, mas sempre vai existir uma pessoa com vontade de se expressar e colocar no mundo o que de melhor existe em seu espaço.

No Complexo do Alemão, favela da zona norte do Rio de Janeiro, existe uma organização chamada Coletivo Papo Reto. Grupo do qual faço parte e que atua com comunicação baseada nos direitos humanos. Por isso, quero falar de um lugar que muito me afeta, em todos os sentidos dessa palavra: Comunicação comunitária.

Comunicação popular, jornalismo comunitário, comunicação comunitária, etc. Existem diferentes formas para nomear o tipo de trabalho que grupos como o Coletivo Papo Reto fazem. Todas essas formas estão corretas e são legítimas. O mais importante é entender a necessidade desse tipo de trabalho existir.

A comunicação popular geralmente está associada a uma ideia de transformação e de resistência. Mas, assim como existe a necessidade desses grupos produzirem uma nova forma de comunicar os problemas que enfrentam morando nas favelas e periferias do país, existe também um desejo intenso de serem reconhecidos e fortalecidos pela qualidade técnica que seus trabalhos possuem e também por suas produções culturais e de registro da memória local.

É muito comum que a pauta da violência seja a mais disseminada, visto que existe um grau de urgência e um instinto de sobrevivência que atinge os produtores de conteúdo que vivem nesses territórios. Por isso, é urgente que os jornalistas de escritório – aqueles que SÓ passam os seus dias atualizando as redes sociais em busca de alguma pauta policial vinda da favela – verdadeiramente compreendam que existe qualidade de apuração no trabalho feito por um jornalista que narra a sua própria vivência.

Durante muito tempo, ouvimos dizer que tudo o que precisávamos era de uma oportunidade, que quando essa grande chance aparecesse, deveríamos agarrá-la com todas as nossas forças e seguir por esse único e crucial caminho de vida.

Nos últimos dez anos, surgiram inúmeros novos grupos que atuam com jornalismo nas favelas, que possuem muita qualidade técnica e que passaram a ser o principal consumo de notícias das moradoras e moradores dessas regiões.

Veículos como o Nós Mulheres da Periferia, o Fala Roça, o Marco Zero, e tantos outros espalhados pelo Brasil, são a certeza de que a busca daqueles que vivem nas zonas periféricas do país é pelo desejo de ter sua história sendo contada de forma verdadeira e humana.

Se de um lado olharmos para o jornalismo tradicional e de outro para toda a revolução que esses grupos jornalísticos estão produzindo, podemos perceber que mais do que oportunidade, o que a comunicação comunitária está produzindo para o Brasil é possibilidade.

Não trata-se de dar voz, mas de ampliar e fazer ecoar todos os saberes e vivências vindos desses lugares que pulsam diariamente para fazer a cidade viver. Valorizar essas e esses profissionais da comunicação é apoiar a verdadeira revolução.

Lana Souza

Lana Souza é jornalista de formação e comunicadora popular. Lana atualmente cuida da administração do Coletivo Papo Reto, que atua no Rio de Janeiro pautando direitos humanos nas favelas a partir da comunicação e educação. Ouvir histórias inspiradoras e contá-las para o mundo é onde mais gosta de colocar energia. Lana aprecia uma boa cerveja e é uma tia apaixonada pelo seu sobrinho Miguel.

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