Por Beatriz de Oliveira e Semayat Oliveira 

A ideia de que ser preto e ter dinheiro são condições rivais é uma “cilada” usada para nos colocar numa posição de subordinação. Quem diz isso é a economista Gabriela Chaves. “É preciso voltarmos para África para vermos que essa associação de pessoas negras com a pobreza é uma grande ilusão que construíram”, acrescenta. 

Fundadora e CEO da NoFront – Empoderamento Financeiro, sua empresa oferece cursos, consultorias e palestras especializadas. “Nós descendemos de reis e rainhas, temos uma África viva hoje, contemporânea, com gente muito rica e que está fazendo coisas pelo nosso povo”, explica. 

Com um método próprio, a proposta é ensinar educação financeira por meio de músicas de rap. Para ela, aprender a administrar o próprio dinheiro é uma forma de fortalecimento coletivo. Ter uma reserva de emergência para dar suporte à mãe, se necessário, ou conseguir pagar um curso de inglês para o sobrinho são alguns exemplos. 

Gabriela reforça que percebe um forte interesse das mulheres negras em aprender a investir.  Maioria da população, este grupo é composto por quase 60 milhões de pessoas ou 28% dos brasileiros, segundo a PNAD contínua do IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Para Gabriela, é urgente recusar o senso comum machista,  de que “mulheres não entendem de finanças”. 

Outro ponto de atenção que a economista levanta é o seguinte: a possibilidade de consumir não garante a emancipação do povo negro. “Conseguir comprar um celular, um tênis, não muda o fato de sermos seguidos no shopping”, diz Gabriela. Por isso, segundo ela, é necessário elevar a discussão. “Precisamos pensar na esfera da produção, o que estamos produzindo, o que temos posse, o que conseguimos dominar enquanto estrutura”. 

Confira a entrevista!

Nós, mulheres da periferia – Para você, o que significa dinheiro?

Gabriela Chaves- Dinheiro significa acesso, dinheiro é movimento. Na prática, é mais uma mercadoria, um papel, que está se virtualizando cada vez mais. Mas na sociedade em que vivemos, significa acesso, possibilidades e condições de vida.  Na nossa sociedade ninguém é uma ilha, ninguém consegue produzir tudo o que precisa para sobreviver. Então, é preciso estabelecer trocas. A gente precisa comprar comida, roupa, remédio. Nessa sociedade capitalista, o intermediador dessas trocas é o dinheiro. E essa mesma sociedade  diz que você vale o que você tem e se você não tem, é porque não mereceu. É uma ótica muito perversa porque acaba apagando os processos históricos e criando essa mística do dinheiro como definidor de sucesso e caráter.

Dinheiro significa acesso, dinheiro é movimento.

 

 

 

 

Nós – Você acha que ser visto como bem-sucedido, para quem veio da periferia, das favelas e principalmente pelas pessoas que ainda estão nesse mesmo território, ainda é um tabu?

 

Gabriela Chaves-  Sim. Especialmente no Brasil, acho que existem vários tabus em relação a ascensão social de sujeitos negros e periféricos. Porque se faz uma associação entre negritude e pobreza que é uma associação bastante particular daqui. Se pegarmos a história das pessoas negras, temos vários elementos para pensar, como o próprio Egito e outros elementos que fazem a gente recuperar que descendemos de um povo muito rico e abundante. Mas, no contexto brasileiro, partimos de processos históricos que apagaram toda essa história e é como se descendêssemos apenas da senzala, das favelas e dos processos de escravidão. Quando, na verdade, a nossa história começa muito antes. Existe um sequestro. Então, hoje, existe sim um tabu em relação à ascensão de pessoas negras, inclusive relacionada ao comprometimento com a questão racial, com as lutas que essas pessoas encaram, a partir do momento que elas ascendem economicamente. 

No contexto brasileiro, partimos de processos históricos que apagaram toda essa história e é como se descendêssemos apenas da senzala, das favelas e dos processos de escravidão. Quando, na verdade, a nossa história começa muito antes.

Esta é uma estratégia de manutenção do racismo, que começa com o sequestro e empobrecimento massivo do nosso povo. É por isso que não vemos pessoas negras bilionárias na lista das maiores fortunas do Brasil. Só agora conseguimos ver algumas figuras milionárias, mas estamos falando de pouquíssimas gerações. Se olharmos para outros grupos como, por exemplo, os judeus, eles já possuem algumas gerações organizadas financeiramente, conquistando patrimônio, conseguindo investir nas gerações seguintes. E a população negra ainda está presa às demandas do hoje: preciso me alimentar hoje, preciso resolver esse problema hoje. 

O desafio dessa ascensão econômica é superar o agora, é preciso garantir melhores condições para as gerações que virão. 

As nossas mais velhas conseguiram garantir isso para nós. O fato de hoje os jovens negros conseguirmos estudar, terminar o Ensino Médio é fruto disso. Muitas das nossas mães e avós não conseguiram terminar os estudos porque havia uma necessidade de sobrevivência. Elas trabalharam como domésticas, costureiras, seguranças, lavadeiras, na profissão que fosse, para garantir que seus filhos conseguissem terminar os estudos e acessar o ensino superior. Este progresso financeiro é resultado de todas essas lutas do passado. Por isso, é preciso rever esse tabu. 

Quando falamos de pretos ricos, nós não estamos falando das maiores fortunas do mundo e de quem detém o sistema bancário ou industrial. Isso sim é levar a discussão a um outro lugar. Mas hoje a discussão ainda fica muito no campo da ostentação e da aparência, de consumirmos mercadorias que são necessidades mínimas.

Todo mundo deveria ter o direito de ter um tênis legal e isso não deveria ser um fetiche.

Todo mundo deveria ter a possibilidade de comer uma comida daora, mas em um contexto em que o botijão de gás está R$100 ou mais e o salário mínimo é  de R$1.100, as pessoas têm dificuldade de garantir o mínimo. Qualquer coisa que saia do mínimo parece extraordinário. Mas, no final do dia, estamos falando do básico e essencial: moradia, alimentação, transporte. 

 

Nós – Você acha que, pensando na sua trajetória e em um dos trabalhos que você presta que é a consultoria, quando a gente ascende financeiramente a gente deixa a base?

Gabriela Chaves-  Há três anos a NoFront vem construindo uma história que é justamente o oposto. Focamos em fortalecer a base e ascender coletivamente. A gente fala de educação financeira não só para fortalecer um indivíduo a conseguir administrar suas contas, mas para também entender como o coletivo, sua comunidade e família, estão se organizando economicamente. 

Uma pergunta que a gente faz é: ‘quantas famílias negras você conhece que transmitem um patrimônio por mais de três gerações?’ Pode ser uma casa, pode ser um carro, não precisa ser milhões de reais.

Mas quantas famílias negras você conhece que tem um patrimônio que é transferido geracionalmente? Essa pergunta é muito importante para pensar que o processo de empoderamento financeiro não é somente para o enriquecimento individual, é um processo de consciência coletiva.

É entender que, muito mais do que consumir e ter acesso a viajar e comprar roupas ou comidas que não tínhamos acesso, é preciso se organizar em relação ao futuro. Precisamos garantir condições de saúde para os nossos mais velhos. Então, ter uma reserva de emergência para ajudar a sua mãe, caso ela tenha um problema de saúde, é fundamental. Conseguir ajudar um sobrinho a fazer um curso de inglês desde a infância sem esperar chegar aos 20 e poucos anos também é. 

 

O processo de empoderamento financeiro é pensar como a gente conquista qualidade de vida hoje, como a gente vive com tranquilidade e abandona essa relação de culpa só por querer comer bem e se vestir bem. Isso é o mínimo, está nos direitos da humanidade. Só que a nossa condição de humanidade foi tão negada que vira um privilégio comer um bife de picanha. Sendo que a burguesia está comendo caviar de 20 mil dólares o quilo, a picanha já foi para eles, há muito tempo. Mas o nosso povo tem fetiche com coisas básicas que foram negadas. 

A nossa condição de humanidade foi tão negada que vira um privilégio comer um bife de picanha

O maior desafio quando falamos do empoderamento financeiro é parar de confundir aparência com essência, entender o que a gente quer ter e não ficar à mercê do que o mercado dita que devemos consumir. É garantir estabilidade financeira e qualidade de vida para o agora e construir condições melhores para as futuras gerações. Para os pais e mães, é preciso pensar em construir um fundo para que a criança que está nascendo hoje, em 2021, possa fazer um intercâmbio aos 18 anos. E não ser obrigada a trabalhar. Hoje,  como a necessidade é imediata e é preciso pagar as contas amanhã, os jovens trabalham com o que der. Mas não precisamos viver assim, é possível um mundo em que podemos  escolher o que queremos fazer, mas isso requer condições mínimas garantidas.  O progresso econômico, nesse momento, é criar uma agenda contra o que está acontecendo. A fome voltou para o Brasil e a gente sabe que essa fome é racializada e territorializada. Os mais ricos são muito mais ricos e os mais pobres, muito mais pobres. 

Nós – Recentemente o casal Beyoncé e Jay Z fizeram uma campanha para a Tiffany & Co., empresa do ramo de jóias. Isso gerou muita discussão nas redes sociais brasileiras. Teve quem questionasse a presença deles na campanha e o fato de serem referência para a população negra aqui no Brasil. Você avalia que existe uma certa “romantização” da pobreza no Brasil, principalmente pela elite?

Gabriela Chaves –  Primeiro, é muito importante que as pessoas se perguntem porquê incomoda tanto ver pessoas negras associadas a espaços de luxo. É uma pergunta que toda pessoa que se incomodou ao ver a Beyoncé usar um Tiffany atrás de um quadro do Basquiat deveria se fazer. Por que gera tanto incômodo? A Tiffany existe há muitos anos e já fez muitas campanhas. E as pessoas que se incomodam da Beyoncé fazer propaganda pra Tiffany não estão criticando essa marca em outros contextos. Então, é muito importante se perguntar e buscar entender de onde vem esse incômodo.  

Em segundo lugar, eu costumo dizer que quem gosta de pobreza é sociólogo. Quem já viveu, experienciou ou passou perto da esquina da pobreza, quer o caminho oposto, da prosperidade, da fartura e da abundância. Mas também é preciso etender que o consumo não é uma forma de emancipação e libertação do povo negro. E por que falo isso? Porque comprar um carro não impede que um homem ou uma mulher negra sejam parados em uma blitz e questionados do porquê se tem aquele carro.

O consumo não muda as relações estruturais do racismo. Comprar um celular ou um tênis não muda o fato dessa população ser seguida no shopping quando estamos indo comprar esse celular, de ser questionada se o celular é comprado ou roubado. Ou seja, não podemos demonizar o consumo de objetos e nem colocá-los como libertação. 

É necessário pensar na esfera da produção. O que estamos produzindo? O que temos de posse? O que conseguimos dominar enquanto estrutura? Porque, muitas vezes, falamos de “empoderamento” na esfera do consumo e isso não vai mudar a realidade. A Oprah é uma das mulheres negras mais ricas dos Estados Unidos e sofre racismo quando vai comprar determinadas coisas. O consumo não nos blinda.

 

Nós – Como você vê a relação das mulheres negras com esse universo financeiro? Porque ao mesmo tempo as mulheres negras são a maioria populacional no Brasil, são as mais impactadas pela pobreza e miséria.

Gabriela Chaves-  Eu vejo as mulheres negras muito preocupadas e interessadas em aprender a administrar o dinheiro melhor, aprender a investir. A verdade é que as condições materiais da sociedade brasileira fazem com que a gente tenha que empreender e “se virar”. A famosa “sevirologia”. Eu acho um grande equívoco quando dizem “as mulheres não sabem administrar o dinheiro”. Uma mãe que sustenta os filhos com um salário mínimo é uma exímia administradora, considerando os gastos que temos no Brasil hoje. O ponto é que ela não tem a autoestima para se reconhecer como administradora e investir nisso. E investir não é, necessariamente, fazer uma faculdade. Existem vários cursos livres e formações que ajudam a gente a adquirir ferramentas para sofisticar o que a gente faz, para conseguir ganhar mais eficiência. 

Embora estejam muito interessadas em acessar essas tecnologias, a conjuntura as engole. Porque é uma conjuntura que tem demandado cuidado, principalmente com a pandemia. As mulheres são muito sobrecarregadas emocionalmente, fisicamente e também financeiramente com essa necessidade de cuidar. Por exemplo, com as escolas fechadas, como essas crianças ficaram? As mães tiveram que se virar para conciliar o trabalho com as crianças, a falta de creche, o custo de supermercado explodiu. E há ainda um desafio de linguagem.

 

As discussões sobre economia nos jornais tradicionais são feitas em uma linguagem que dificulta o entendimento. É distante, feito para não se entender.



Vejo pessoas muito desesperadas com a conjuntura atual. Tem grupos que conseguiram acessar a universidade, conseguiram se recolocar profissionalmente, mas há também uma massa expressiva de mulheres que fizeram financiamento estudantil e estão endividadas nesse momento, sem conseguir oportunidades de emprego e lidando com uma dívida da faculdade. É uma situação que tem pressionado muito a base da pirâmide, que somos nós, as mulheres negras. 

Nós – E pra fechar: ser preta e ter dinheiro são condições rivais ou opostas?

Gabriela Chaves- Com certeza não. Precisamos voltar para África para vermos que essa associação de pessoas negras com a pobreza é uma grande ilusão que construíram.

Apagaram a nossa história para dizer que somos descendentes da pobreza, mas nós descendemos de reis e rainhas. 

É importante entendermos que o comprometimento com a luta racial, com a equidade racial, independe dessa questão financeira. Não se esqueçam, Black Panthers não se financiou com o coração. Escolas e movimentos sociais demandam dinheiro e existem pessoas negras com dinheiro financiando lutas antirracistas. 

Precisamos parar de acreditar que preto e dinheiro são palavras rivais. Isso é uma cilada do Brasil para tentar nos colocar em uma caixinha de subordinação. Estamos falando de uma nova. Temos que reconquistar o que é nosso.

*Este texto foi originalmente publicado no Expresso na Perifa, no jornal Estadão.


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