Bianca Pedrina

Bianca é jornalista, cofundadora e gestora operacional do Nós, mulheres da periferia e comentarista de BBB nas horas vagas.

Maratonei o reality Casamento às Cegas Brasil da Netflix, que é sobre pessoas que nunca se viram antes e, no experimento, após algumas vivências e afins, saem casadas ou não.

Expliquei bem por cima, porque não é da série em si que quero tratar aqui. Não terá spoiler, mas sim uma análise dos comportamentos que vi e fizeram refletir sobre as relações e o quanto, às vezes, a gente se diminui para caber nelas.

O programa tem tudo que é tipo de homem. Desde o desconstruído até aquele que manja o que é machismo e tem todo um discurso na ponta da língua sobre o conceito, mas na realidade só disfarça melhor suas escrotices. Tem também o que não entende nada dessas coisas de feminismo e nem faz questão de esconder isso em suas ações e por aí vai.

A série me deu gatilhos sobre situações das quais me submeti e do quanto isso me desgastou mentalmente e fisicamente para receber afeto, cuja troca não era igual.

Fui casada por cinco anos (já contei isso por aqui). Após a separação, comecei a viver a vida de solteira em um mercado, digamos assim, do qual estava fora havia algum tempo. Exatos 14 anos.

Nesse ambiente, um tanto quanto hostil (pelo menos para mim), achei que me relacionar com as pessoas sem vínculos mais profundos seria algo mais fácil, que tiraria de letra. Até porque não queria nada nesse sentido. Havia acabado de sair de um casamento e a última coisa que eu queria era isso novamente.

Errei feio, claro! Na primeira ficada já me apaixonei pela pessoa (amadora). Óbvio que eu não queria reconhecer para mim mesma estar gostando dele, porque sabia que a intensidade não era a mesma do outro lado (no fundo, a gente sempre sabe). Moral da história: ele sumiu. Parou de responder as mensagens e praticou o que chamamos de ghosting, quando o cara desaparece sem dar explicações.

Depois dele, tive outras experiências. Por alguns me apaixonei, por outros não. Nessa vida de solteira, aprendi a dosar até que ponto estar com determinadas pessoas estava me fazendo mais mal do que bem. E isso foi a duras penas. Não vejo problemas em se relacionar sem compromisso, mas entender e alinhar se do outro lado a expectativa é a mesma, para mim é fundamental.

Quando escrevo que “aprendi”, quero dizer que, mesmo sabendo disso tudo, caí do cavalo diversas outras vezes. É aquilo: na teoria tudo é perfeito, mas na prática a coisa é bem mais complicada.

Tinha caras que eu me apaixonava e eu queria namorar, mas do outro lado só rolava transa. Sabe aquele sujeito que te procura em períodos sazonais só para esse fim? Esse mesmo.

Funcionou para mim por um tempo essas relações casuais, mas depois sentia falta de algo além. Pode dar certo esse tipo de troca, mas sempre ficava nessa posição de espera. Quando decidia sair, e tomar a atitude, adivinhem? O cara espanava (que preguiça).

Antes que alguém diga que mulher também faz essas coisas, já respondo logo que concordo. Mas em uma sociedade como a nossa, com pressões objetivas e subjetivas, o peso de se portar assim não é tão tranquilo de carregar. A máxima é: se a gente faz, é porque somos vadias; se os caras fazem, são pegadores.

O problema disso tudo é que, geralmente, essa troca mais casual – que pode acontecer sem crise e ser saudável – acontecia sem o mínimo de honestidade para alinhar expectativas.

Tudo seria resolvido se a gente não depositasse nossa carência e expectativas no outro, frases que os divãs de psicanálise podem nos dar como solução. É difícil fazer esse trabalho de autocuidado, quando da outra parte a pessoa só escorrega, não é honesta contigo, porque quer te manter ali na prateleira.

A tentativa de sair de relações assim pode não ser um caminho tão fácil, sobretudo, quando se está envolvida. Por que eu estou escrevendo tudo isso? Porque por muito tempo me senti culpada de me submeter a esses tipos de situações.

Temos parcela de responsabilidade quando nos relacionamos e decidimos nos manter em situações que não nos fazem bem.

Mas também temos camadas de vulnerabilidades que, por vezes, não estamos preparadas para encarar e, por isso, não saímos desses lugares. O tempo de cada um é único. Uma hora a nossa ficha cai. Enquanto isso, o que a gente busca é afeto e trocas honestas, mesmo aquelas que são apenas uma ficada.

Não vejo problemas em se relacionar sem compromisso, mas alinhar expectativas é fundamental.

Coluna originalmente publicada no Expresso Na Perifa

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