Por Bianca Pedrina e Jéssica Moreira

Aos 58 anos, Maria de Lourdes Leite, conhecida como Dona Preta, moradora de Parada de Taipas, região norte da cidade de São Paulo, foi uma das impactadas pela pandemia na região. Empregada doméstica, trabalhava há mais de 20 anos na casa de uma senhora de 74 anos.

Saía da Parada de Taipas até o quilômetro 15 da Rodovia Raposo Tavares, em um trajeto de pelo menos 30 km de distância. A vida mudou quando a pandemia despontou no Brasil. A patroa a dispensou sob o argumento de que não queria colocar as duas em  risco e ofereceu menos da metade do salário para manter o vínculo de trabalho. Sem outra opção, aceitou. “Tive que parar porque ela era do grupo de risco. Quando começou [a pandemia], fui trabalhar na segunda, na terça ela já falou ‘que eu não podia porque o médico tinha proibido’”, conta.

O salário de R$1.500 virou apenas uma ajuda de R$500, o que faz falta, principalmente em meio a alta dos preços de alimentos e subida nas contas básicas de casa.

“É só eu e meu filho. Ele tem 37 anos, não está trabalhando. Eu recebo só R$500 por mês e conto com a ajuda [do Quilombo da Parada]. Às vezes, precisa de outras coisas, mas graças a Deus o de comer nunca faltou”, diz. “Não estou comendo carne porque está muito cara, mas o resto: fruta, verdura, tem graças a Deus. E essa ajuda da cesta, que já é o básico. Se vou comprar, só vou comprar algum material de limpeza, que o arroz e feijão já tem”, emenda.

Com pressão alta e diabetes, Dona Preta diz que na região a falta de trabalho atrapalhou outras mulheres também. “Fica complicado, né? Muitas mães de família estão paradas dentro de casa e dependem de cestas para ajudar em casa. Não está sendo fácil”, relata.

Em fevereiro de 2021, a pesquisa “A favela e a fome“, feita pelo Data Favela, em 76 favelas  brasileiras, mostrou que 68% dos entrevistados apontaram que a pandemia fez piorar sua alimentação. Esse levantamento representa um aumento de 25% em relação ao feito anteriormente, realizado em agosto de 2020.

Os resultados da pesquisa apareceram na prática. Nas periferias, não faltam relatos de dificuldades financeiras e pedidos de ajuda, sobretudo de mulheres. Na região onde Dona Preta vive, uma das alternativas aos mais pobres foi a ajuda do Quilombo da Parada.

Desde maio de 2021, o Nós, Mulheres da Periferia se uniu aos apoiadores do espaço Quilombo da Parada, por meio de parceria com a Cooperativa Terra e Liberdade do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). Uma vez por bimestre, parte do dinheiro arrecadado pelo Nós via financiamento coletivo no Catarse, é doado em forma de cestas de alimentos orgânicos para o Quilombo da Parada, colaborando diretamente com 20 famílias.

A 85 km do Centro da cidade de São Paulo, o Quilombo é um espaço urbano construído pelas mãos de mulheres negras, localizado entre as remanescências da Mata Atlântica e o concreto da periferia da Parada de Taipas, zona norte da capital paulista. No topo de ruas íngremes e estreitas, tornou-se um ponto de acolhida, principalmente para crianças, jovens e mulheres que moram no entorno.

Depois de diversas transformações, hoje o Quilombo também sedia o Instituto Esperança Garcia. Criado em 2011 pela educadora Juliana Balduino, o propósito inicial do espaço era oferecer formação artística e cultural para as crianças da região. Com a pandemia, o instituto se tornou ponto de apoio e acolhida a dezenas de famílias vizinhas do espaço, principalmente com a doação de cestas básicas.

Insegurança alimentar

Nas periferias, a falta de acesso regular aos alimentos, além da quantidade e qualidade insuficiente se tornou ainda mais comum nas casas. Segundo levantamento feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os mais pobres foram impactados pela alta dos alimentos em domicílios, energia elétrica, gás e medicamentos durante a pandemia. Em um ano, a inflação para famílias mais pobres chegou a 10,63%.

O cenário de alta nos produtos e serviços fez com que as famílias pobres passassem a depender de doações e ações de organizações em prol de um prato de comida na mesa.

Com 10 filhos e 11 netos, Katia Augusta Pinheiro é um exemplo da situação. Há 53 anos também mora nos arredores do Quilombo, na Parada de Taipas. Antes da pandemia, trabalhava como diarista, mas foi obrigada a parar. Ela também tem problemas de saúde que a impediram de assumir outros riscos na rua.

“Sou acostumada a trabalhar desde a idade dos sete anos, quando minha mãe morreu. Então, quando a gente para parece que está tudo pior”, diz. “Se a gente não se cuida, cai em depressão, sistema nervoso mexe com tudo. Eu mesma sou acostumada a depender da minha própria pessoa. Então, quando a gente se vê dependente dos outros é mais complicado”.

Além da ajuda dos filhos no período, afirma que a assistência do Quilombo colaborou para se manter mais segura com a crise sanitária. “Dependo muito da ajuda deles”, resume. Uma das coisas que destaca é a ‘falta de frescura dos filhos’. “O bom dos meus filhos é que eles comem de tudo. Não tem esse negócio de frescura para comer. Tudo eles comem”, destaca.

Também por ali, Eliene Lima de Jesus, 53, mora há 24 anos no Parque Taipas. Baiana, vive com três filhos e quatro netos. A pandemia também mudou sua rotina. “Estava trabalhando, era copeira de uma agência bancária. Com a pandemia, acabei não podendo mais trabalhar, porque servia cliente, tinha contato com muita gente, e a empresa era terceirizada, acabou me mandando embora”, lembra.

Sem emprego, ficou em casa e recorreu ao Quilombo para ter o básico na mesa de casa. “Recebo as cestas. Tenho a minha mãe, que é viúva, meu pai é aposentado e recebe um salário mínimo, e a metade do dinheiro vai para pagar contas básicas. Com a cesta, ajudo ela”, explica.

Ela diz que o desemprego é cruel, já que fazia 15 anos na mesma empresa. Acostumada a trabalhar, não se adaptou à situação. O auxílio emergencial também não foi possível, já que tinha saído há poucos meses do emprego.

“Nóis por nóis”

O Instituto Esperança Garcia virou ponto de apoio e acolhida a de famílias, principalmente com a doação de cestas básicas.

Crédito: Nós, mulheres da periferia

“A nossa frente é arte e cultura, educação e meio ambiente. Com a pandemia, a gente teve que de novo se adaptar a essa realidade, entender qual é a necessidade neste momento”, conta Sirlene de Jesus Santos, 43, arte-educadora, dançarina e a responsável pela articulação entre o Quilombo e a comunidade.

“Desde o começo da pandemia, sempre foi ‘nóis por nóis”, diz Sirlene. Após mais de um ano e meio de pandemia, as doações cessaram, mas as pessoas continuam precisando de ajuda, devido ao impacto direto na renda.

“Muitas mulheres ficaram sem trabalho nenhum mesmo, e até cair a ficha, de que aquilo não vai ser um mês, dois meses, três meses, já passou um ano. De novo, é uma constatação do abandono do Estado”, afirma. “A gente fica sem saber muito o que fazer, mas a gente vai se unindo, vai conversando, vai sempre se visitando.

Têm o isolamento social, mas na periferia acho que nem existiu isso, porque nós somos as mãos e os pés da tal economia”.

Para ela, as periferias sofreram nos últimos meses pela falta de opção e de manter cuidados necessários contra a Covid-19, como o isolamento social, manter a rotina em casa e a proteção com máscaras. “Não tem opção. É parar e pensar na sorte. Qual é a nossa sorte? A gente não tem. A sorte não existe pra gente”, emenda.

Ao caminhar com Sirlene pelas ruas que rodeiam o quilombo, é possível sentir como a comunidade reconhece o espaço como um lugar de referência. “E as atividades, já voltaram?”, perguntam ansiosas tanto as crianças, quanto as mulheres.

“É de apertar o coração, de ter que parar por algo que ninguém sabe, por algo desconhecido, a gente teve que parar, não teve jeito. A pandemia trouxe muitas reflexões também, algumas adaptações, eu acho que remexeu muito com todos nós, tivemos que nos reinventar”, aponta a educadora.

Em 2021, o espaço foi contemplado pela Lei de Fomento à Periferia e pode apoiar também o acesso à internet das famílias que já frequentam o local. “A gente conseguiu trazer os pontos de wi-fi para oito famílias. Conseguimos comprar 14 tablete para que eles tenham acesso minimamente às atividades online do quilombo”, conta.

O sonho das gestoras do espaço é que as crianças pudessem ficar com os tablets de maneira contínua, mas com a falta de verba não é possível fazer isso. “A gente sabe que muitas crianças ficaram ano passado sem estudar porque ou não tinha acesso à internet, não tinha esse ponto de wi-fi ou porque não tinham minimamente um celular”.

Fim da pandemia

Na conversa com as mulheres, o Nós perguntou a cada uma dessas quais são seus sonhos. O fim da pandemia foi a resposta unânime.

“Meu maior sonho é a gente passar com vida por essa pandemia, que a gente possa encontrar as pessoas que a gente gosta, e passar por ela com saúde”, responde Eliene. “Tomei a primeira dose da vacina, estou esperando a segunda. Espero que todo mundo consiga tomar até chegar sua vez”, finaliza.

Para Katia, voltar à vida normal é o desejo atual. “Fazer as coisas que a gente fazia, que agora muitas coisas a gente não faz”, diz. Outra coisa que ela sente falta na sociedade é o amor ao próximo, algo cada vez mais raro, segundo ela.

No caso de Dona Preta, a vacinação deveria ser prioridade no país. “Queria que o nosso governo vacinasse todo mundo pra vida da gente voltar ao normal”, indica. “As pequenas coisas que antes não faziam falta, hoje faz: estar na casa de um amigo, de um parente que não pode abraçar, são essas coisas”, lembra.


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