O que está na Boca do Povo este mês é que a conta de luz de setembro já vai chegar mais cara, pesando no bolso da trabalhadora. Isso porque neste 1º de setembro passa a valer a nova tarifa de R$14,20 a cada 100 kWh (quilowatt-hora) consumidos. A chamada “Bandeira Escassez Hídrica” substitui a Bandeira 2 Vermelha, que já havia aumentado a conta de luz para R$9,49 por 100 KWh. Se você é beneficiária da chamada “Tarifa Social”, fique tranquila, pois sua tarifa não vai sofrer alterações, segundo informações do site Ministério de Minas e Energia.

Como isso afeta você?

“Qual é o problema agora: que a energia vai ficar um pouco mais cara porque choveu menos?”, comentou de forma irônica o ministro Paulo Guedes sobre o aumento da tarifa de energia. E ainda acrescentou “não adianta ficar chorando”.

Senhor ministro, o senhor sabia que a conta de luz representa pelo menos 4,5% do orçamento familiar e que para as famílias mais pobres esse valor pode chegar até 6,5% ou 7%? Atrás do consumo de gasolina, a energia elétrica doméstica é um dos itens que mais impacta na inflação.

Uma família que possui apenas um salário mínimo em São Paulo, hoje no valor de R$ 1.163,55, teria que desembolsar pelo menos R$81 só de energia elétrica. Nos últimos 12 meses, houve uma subida de pelo menos 20% neste item, o que é sum grande impacto para as famílias mais pobres, já que precisam pagar aluguel, contas de água, telefone, internet e ainda garantir a alimentação de famílias.

Além disso, a população periférica poderá sentir um aumento de produtos e serviços no valor final. Especialistas avaliam que o setor de serviços, que tiveram uma queda na pandemia e começavam a crescer, também podem sofrer novos impactos, como salões de beleza, academias e restaurantes, que precisam aumentar o preço de produtos e serviços diante da maior despesa com energia. Um exemplo disso pode ser o preço do pão francês, um item básico na dieta da população, que pode sofrer alteração de valor, dada a despesa com energia das padarias.

Em que contexto isso acontece? 

O aumento vem em meio a uma crise no sistema hídrico. Ou seja, com a falta de chuvas principalmente na região Sul e Sudeste, os níveis de água dos reservatórios de hidrelétricas também diminuíram. Estima-se que esta é a pior seca nos últimos 91 anos. Para substituir as hidrelétricas, o Governo utiliza usinas termelétricas, que têm custo mais alto.

Como faço para reduzir minha conta de luz? Fizemos uma lista com dicas para pagar menos. Clique aqui para conferir

Em maio desta ano, a ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) emitiu uma nota técnica para a Agência Nacional de Águas (ANA) alertando que pelo menos oito grandes usinas hidrelétricas instaladas na região Sudeste estão com seus reservatórios perto do colapso total até 30 de novembro, fim do período de estiagem.

Mas o uso dos reservatórios é a única forma de gerar energia? Não! Nos últimos 20 anos, após a crise do apagão de 2001, o custo da energia aumentou em 10% para a população. Essa crise fez com que outras fontes fossem exploradas.

Hoje, cerca de 11% da energia elétrica vem de geradores a vento; 2,5% são gerados pelo sol. Houve uma queda na dependência de hidrelétricas de 83% em 2001 para 63% atualmente. Só que: os reservatórios das usinas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste são responsáveis por mais de 70% da produção e, no início de julho, estavam operando com apenas 29% da capacidade.

Mas o fato é que ainda dependemos de fatores climáticos: chuva, vento, sol. E o pior é que as atuais condições políticas em relação ao clima e meio ambiente não são favoráveis no Brasil. Segundo a ONS, o Brasil vive a pior crise hídrica dos últimos tempos. A entidade afirma que “nos últimos sete anos os reservatórios das hidrelétricas receberam um volume de água inferior à média histórica”.

Recentemente, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) informou que pelo segundo ano seguido, o Brasil registrou no mês de junho recorde de queimadas na maior floresta tropical do mundo, a Amazônia. Especialistas tem alertado que o aquecimento global altera a dinâmica do clima em todo o mundo. O desmatamento da Amazônia, neste sentido, só piora esse processo.

O desmatamento da Amazônia também teria um impacto direto na questão da crise elétrica. “O aquecimento global muda a dinâmica do clima em todo o mundo, e o desmatamento da Amazônia também age nesse sentido, mas mexe diretamente com os ciclos hidrológicos no país, que tanto depende deles para a geração de energia, a produção agrícola e abastecimento das cidades”, afirma Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima ao El País. A conta é simples: ao destruir a floresta, altera-se a capacidade elétrica do país. De acordo com Astrini, “o desmatamento e o aquecimento global atuam juntos e se retroalimentam”.

Então, o aumento da conta de luz é, também, uma questão ambiental. Olhar para essa questão de forma desagregada não ajuda.

Bônus: O que é o Incentivo à Redução Voluntária? 

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, também anunciou o Programa de Incentivo à Redução Voluntária, que vai funcionar de setembro a dezembro de 2021. O bônus para quem economizar pode chegar até R$50 para cada 100 KWH reduzidos. O programa vale para consumidores domésticos mas também para a indústria ou o comércio.

Como funciona na prática? A base de cálculo será o gasto de energia do usuário entre setembro e dezembro de 2020. Vamos pegar o exemplo dado pela Folha de S. Paulo: uma família que tenha consumido 120 kWh em setembro de 2020; 130 kWh em outubro; 110 kWh em novembro; e 140 kWh em dezembro de 2020, terá como base mensal média kWh 125. Se ao fim de dezembro de 2021 essa família diminuir seu gasto e o total for de 116,25 kWh, isso já irá representar uma economia de 15% e um bônus de R$37,50.

“Se essa família passar a consumir 105 kWh em setembro de 2021; 110 kWh em outubro; 100 kWh em novembro; e 110 kWh em dezembro de 2021, terá consumido, em média, 116,25 kWh durante o programa —o que representa uma economia de 15% em relação à média do ano passado. Ao final do programa, terá um crédito de R$ 37,50 a ser pago na conta de janeiro de 2022”.

As famílias precisarão reduzir no mínimo 10% de energia e, no máximo 20%, para ter o bônus. Quem reduzir menos que 10% não terá direito ao bônus e quem economizar mais que 20% também não terá bonificação adicional.

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