Quando falamos em tecnologia, aposto que você pensa em máquinas, robôs, computador. Mas será que tecnologia é só isso? Os usos e o futuro das tecnologias negras são o tema do 3º e último episódio da série Futurar, uma parceria do podcast Conversa de Portão e Revista Azmina.

Para isso, conversamos com Tais Oliveira, Relações Públicas, mestre e doutoranda em Ciências Humanas pela Universidade Federal do ABC, onde estuda o uso de tecnologias no afroempreendedorismo, e Silvana Bahia, diretora do Olabi, onde coordena a PretaLab. A Sil também é pesquisadora em Políticas e Economia da Informação e da Comunicação na UFRJ e mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF.

“Desde instrumento mesmo, de lidar com a terra, o poço, vestimenta, a bolsa, etc., tudo isso vem de uma cultura do continente africano. Onde as pessoas que aqui eram escravizadas trouxeram essa cultura de tecnologia. Além disso, a gente tem também tecnologias que já existiam lá, e aqui a gente tem de dar um jeitinho, né? Dar um jeitinho do brasileiro. Então, fazer gambiarras pra solucionar problemas é também formas de tecnologia”, contou Taís Oliveira.

Durante a conversa, Sil Bahia alerta para o racismo que se manifesta no ambiente digital. “A gente tem usado muito os dados, a inteligência artificial de hoje, pra imaginar futuros. Só que esses dados eles já são carregados de estereótipos, né? Então como que a gente vai criar um futuro mais inclusivo usando dados desse passado e desse presente, que é racista, que é homofóbico, que é misógino, que já carrega um conjunto de cultura”.

As especialistas alertam que muito desses problemas nos sistemas virtuais poderiam ser evitados se mais pessoas negras atuassem na área de tecnologias.

Segundo dados do National Center for Education Statistics, apenas 3,8% dos funcionários do Facebook são negros. 4,5% na Microsoft e 3,7% no Google. As mulheres são apenas 25% no setor em geral.

Aqui no Brasil, a pesquisa #QuemCodaBr, realizada em 2019 pela PretaLab, iniciativa que a Sil coordena, revelou que não há nenhuma pessoa negra em 32,7%  das equipes que trabalham com tecnologia no país. E 21% das equipes de tecnologia não contam com mulheres negras.

Além de atuarem na promoção de tecnologias com a participação de mais pessoas negras, Taís e Silvana compartilham da esperança por futuros mais inclusivos.

“A gente tem essa herança da coletividade, né, de comunidade, de pensar o coletivo, de pensar juntos. A gente tem que conviver com a tecnologia e conviver de forma que que ninguém seja explorado em demasia a ponto de ficar refém de tecnologia, mas que a gente encontrar um meio termo pra lidar e utilizar ali, extrair da tecnologia, soluções coletivas e harmoniosas”, afirma Taís.

Escute o episódio:

Esse foi o 3º e último episódio da série especial Futurar, uma parceria Conversa de Portão e Revista AzMina e faz parte de Narremos a Utopia, uma iniciativa de Puentes para imaginar um futuro feminista, interseccional e inspirador.

O Conversa de Portão é um podcast produzido pelo nós mulheres da periferia em parceria com o UOL plural, um projeto colaborativo do uol com coletivos e veículos independentes. Semanalmente, nós ouvimos a  história, opinião ou análise de mulheres sobre assuntos que são importantes para nós.

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Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.