Foi no metrô voltando da faculdade que Caê Vasconcelos encontrou Luiza. Era 2017 e pelo uniforme descobriu que ela trabalhava no Masp (Museu de Artes de São Paulo). No vagão, todos os olhares estavam voltados a ela. Caê não quis ser mais uma pessoa inconveniente, memorizou o semblante de Luiza e, meses depois, foi até o Masp, apresentando-se como estudante de jornalismo. Luiza era orientadora de público. O que Caê não sabia é que ela havia percorrido diversos museus pelo mundo até chegar ali. Luiza não titubeou, topou contar sua história e se tornou a primeira do livro “Transresistência: pessoas trans no mercado de trabalho” (Dita Livros), lançado no Dia da Visibilidade Trans deste ano, 29 de janeiro.

Encontros. Reconhecimento. Sonhos. O jornalismo-literário de Caê Vasconcelos, 30, em seu livro de estreia não se resume à técnica de construir perfis. É, antes de tudo, uma lupa afetuosa sobre histórias ainda invisibilizadas.

Com um estilo que se assemelha aos escritos da jornalista literária Eliane Brum, Caê faz com que nós, leitoras e leitores, caminhemos com ele pelas ruas, vagões do metrô e subjetividades de cada uma das personagens.
Longe de usar perguntas prontas, mergulha fundo nas memórias, sejam as da infância ou da fase adulta, profissionais ou amorosas. Feito os corpos trans, neste livro tudo é político.

Mais que um contador de histórias, Caê se mostra um exímio ouvinte: capta as entrelinhas de Luiza, Renata, Bruno, Enzo, Helena, Klaus, Santana, Leona, Mar, Guilherme, Carolina e Erika – todes parte dessa transresistência.

O livro condensa um objetivo antigo que o jornalista já vinha jogando luz pelos veículos por onde passou, como a Ponte Jornalismo e Agência Mural de Jornalismo das Periferias: visibilizar histórias de pessoas trans para além das estatísticas. Visibilizar histórias positivas. Ele consegue, pois também é parte da narrativa.

Em uma conversa com o Nós, mulheres da periferia, Caê fala sobre o livro de estreia, sua história de vida e caminhos da visibilidade trans para os próximos tempos.  

Confira!

Primeiras lembranças literárias

A primeira versão do livro “Transresistência” nasceu de seu trabalho de conclusão de curso (TCC) em 2017 na Universidade Fiam-Faam . O nome continuou o mesmo, mas o subtítulo sobre “trabalho formal” foi substituído para informal, acompanhando o contexto social brasileiro e do próprio autor, que ao finalizar a obra também não estava trabalhando com registro em carteira.

Ao ouvir cada uma das histórias, os questionamentos de Caê vieram à superfície. Foi no encontro com mulheres, homens trans e pessoas não-binárias de diferentes realidades e contextos, que começou a inverter essa lógica, primeiro para si mesmo, e agora para todos que podem lê-lo e aprender com ele e todas essas pessoas.

As primeiras entrevistas demarcam também as primeiras vezes que Caê estava sentado em frente a uma pessoa trans ou travesti para conversar por bastante tempo.  “Eu não tinha pessoas trans ao meu redor. Cada perfil eu fui entendendo que estava confortável nessa conversa. Se a pessoa está confortável comigo, ela está se abrindo, eu pensava que era um super entrevistador, mas eu acho que eles já sentiam que tinha ali um Caê”.

Todo o processo de escrita encontrou as transições, externas e internas do autor, que ao longo do processo viveu um luto pela morte da mãe e também se identificou como um homem trans, finalizando o livro, inclusive, com um texto em primeira pessoa em que narra estas passagens.

“Chegou a hora de conhecer a minha história. Prazer, sou Caetano Andrade de Vasconcelos, ou Caê Vasconcelos, e sou um homem trans. A minha transição começou em 2017, ao escrever este livro pela primeira vez. Para quem chegou até esse capítulo final – e especial, já deu para ter uma noção das dificuldades que transpassam os corpos trans, não é?”, conta em um dos trechos de seu depoimento no livro.

‘Hoje eu enxergo que fui uma criança trans’


Nascido na borda norte da capital de São Paulo, Caê teve o primeiro contato com a literatura por meio da série de fantasia Harry Potter.


“A primeira vez que eu li um livro e falei ‘Meu Deus do Céu, isso é incrível, que história maravilhosa’. O pai dele [do meu primo]  tinha mais condições, então ele acabava ganhando os brinquedos que eu queria também. Eu não ganhava os brinquedos de menino. Brincava com a bola, o skate, a bicicleta, e os livros do meu primo”.

Impedido de jogar bola na rua, narrava as partidas do futebol do portão. Um dia, os meninos o ouviram, deixando-o envergonhado.

“Hoje, eu enxergo que eu fui uma criança trans que não fazia ideia que existiam crianças trans. Eu sabia que eu era muito diferente de todo mundo da minha escola, mas eu não sabia o que era”.



Na adolescência, se entendeu enquanto sapatão. A mãe descobriu antes que Caê contasse e, por isso, a resposta dela à sua identidade de gênero não foi das mais acolhedoras.

“Confesso que tem coisas da minha infância que preferi não colocar no livro. Tem ali as coisas que foram pesadas na minha criação. Fui criado pra ser uma menina cis hetero mais feminina possível. Minha mãe queria que eu fosse essa pessoa. Os maiores conflitos com ela em vida foram sobre isso. Apesar de tudo isso, eu consegui me entender como Caê”.

Ainda assim, o jornalista reconhece que pôde contar com o apoio familiar em seus estudos. “Fui criado na periferia. Minha mãe me cobrava muito o estudo. Mas não rolava aquilo de sentar juntos para fazer lição”, conta. “Não me via na universidade pública. Nunca tentei a Fuvest. Não achava que era pra mim. Achava que iria passar vergonha fazendo a prova”.

Em 2013, assistia, mesmo de longe, a potência da imprensa alternativa na rua, diante das manifestações contra o aumento da passagem. Via de maneira crítica a cobertura da chamada grande imprensa e já nessa época entendeu que queria fazer a diferença na profissão. “Decidi entrar na universidade. E ainda bem, era a profissão certa”.

Realizou a prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) três vezes. Ingressou na faculdade de jornalismo mesmo sem bolsa e na terceira tentativa do exame conseguiu uma bolsa integral, permitindo que conseguisse focar nos estudos nos dois semestres restantes do curso.

‘Nós, pessoas trans, não temos nossa história contada’

Ainda na faculdade, Caê entendeu que gostaria de ser um repórter especializado na questão LGBTQIA +, já que a cobertura midiática era e ainda é cheia de estereótipos e LGBTfobias. No processo de escrita, deparou-se com outra dificuldade: a falta de referências e produções de pessoas trans no mercado editorial.

“Quando comecei esse livro no TCC, eu num tinha essa ideia, mas hoje eu tenho: nós, pessoas trans, não temos a nossa história contada.”

 

 

Ao se entender um homem trans, Caê leu “Viagem Solitária”, de João Nery, um dos principais autores transmasculinos do país. “É como se fosse um divisor de águas para a transição, você tem que passar por esse livro. O João conta a trajetória dele. Um dos primeiros, pioneiros de transmasculinidade”.

Hoje em dia, há outras pessoas trans sendo publicadas. Mas Caê conta que quando começou o livro, em 2017, o desafio de encontrar obras de outros autores e autoras trans era gigante. “Já tinha a Jaqueline Gomes de Jesus produzindo artigos e livros academicamente, mas e as outras pessoas? Onde elas estavam? Então, eu pensei: é um espaço que a gente ainda precisa ocupar”.

‘Só me entendi homem trans ao ouvir as histórias’

caê vasconcelos

Caê é repórter das temáticas LGBTQIA+ e direitos humanos.

Crédito: Digital Zone

A representatividade não foi só uma palavra de ordem no vocabulário de Caê, mas a forma como também entendeu sua identidade de gênero. E isso é muito perceptível em sua escrita, empática e cuidadosa, que faz com que queiramos ouvir o que dizem essas pessoas.

“Eu só me entendi um cara trans quando eu comecei a sentar com os meninos trans e ouvir aquelas histórias e pensar: ‘meu Deus, será que eu não sou sapatão, será que eu estava há dez anos da minha vida achando que eu estava nessa caixinha e não era isso?”

Em 2020, a editora Dita Livros procurou Caê para publicar oficialmente o livro. Foi possível aproveitar as cinco primeiras histórias do livro original e ainda incluir mais algumas. Uma delas é a da vereadora Erika Hilton, travesti negra periférica e uma das políticas mais bem votadas do país nas eleições de 2020, com 50.508 votos.

“Era o nono dia do último mês de 1992 quando Rose deu à luz Erika, sua primeira filha. Sagitariana, com ascendente em Aquário e Lua em Gêmeos. Filha de Iansã. Erika reconhece que, às vezes, essa junção torna complexa a sua existência” (trecho do livro Transresistência)

“Eu senti que tinha que ser a Erika Hilton. Foi a melhor coisa, porque o perfil da Erika eu termino contando sobre [minha participação] no Roda Viva. Pra mim, é o momento mais histórico da televisão. Erika Hilton no centro. Eu e Helena enquanto pessoas trans na bancada. Não tinha um homem cis heteto naquela bancada. Nunca mais vai acontecer isso no Roda Viva”.

Para Caê, escrever sobre Erika é falar sobre política e a população trans nunca se curva a esse debate, já que ainda não têm seus direitos resguardados. “Ninguém parou pra pensar nas pessoas trans, em nenhum dos governos. Agora que a gente tem parlamentares trans a coisa está começando a olhar pra gente. Precisou a Erika Hilton chegar na Câmara dos Vereadores para criar um dossiê que investiga os casos de transfobia e feminicídio. O Brasil é o país que, historicamente, mais mata a população trans”.

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‘Quando decidi que esse tema seria a transgeneridade, já estava  começando minha transição’


Dentre os perfis da primeira versão, o de Helena e Klaus é um dos mais marcantes. “Quando eu entrevistei aquele casal eu nem sabia que existia o termo ‘casal transcentrado’”.

Eles surgiram aos 45’ do segundo tempo, como brinca Caê. O livro já estava pronto e uma amiga indicou a entrevista. Caê mudou todo o cronograma junto ao seu orientador e, em tempo recorde, escreveu sobre o casal. Klaus era o primeiro homem trans com quem o jornalista tinha acesso que havia feito a mastectomia, procedimento cirúrgico para a retirada das mamas.

“Ele era mais velho. Era revolucionário. Quando o Klaus contou que quando criança não tinha banheiro pra usar e urinava na roupa, eu entendi que ser uma pessoa sensível era bom, mas que vai ser difícil não chorar nas entrevistas. Eu já era um corpo trans ali naquele espaço. Quando eu decidi que esse tema seria a transgeneridade, já era eu ali começando a minha transição, mas era um universo novo pra mim”.

“Seis anos depois do nascimento de Klaus, em 11 de novembro de 1987, a história de Helena começava a quilômetros dali, na Brasilândia, bairro periférico da Zona Norte de São Paulo. A quarta da família, foi criada como filha única, dada a diferença de idade entre ela e seus irmãos, de 16, 20 e 24 anos. Ainda na infância, Helena criou uma metáfora para explicar a si mesma o que acontecia em sua vida: havia um muro, de um lado estavam os meninos, e de outro as meninas”. (trecho do livro Transresistência)

A nova curadoria e escrita de perfis aconteceu entre 2020 e 2021, já em meio à pandemia e atravessando a própria transição do autor, que no fim de 2019 sentiu o chamado para sair do armário ao assistir o filme “Bixa Travesty”, com Linn da Quebrada – que agora está no Big Brother Brasil (BBB) e conta com a torcida assídua de Caê aqui fora.

“Eu escrevi em 2017, mas comecei a reescrever a versão atual em 2020. No final de 2020, a Linn da Quebrada me chutou do armário, quando eu vi o Bixa Travesty. Foram quase dois anos e meio nessa angústia, tentando entender o que estava acontecendo. Por conhecer tão de perto essas histórias, ver quanto essas pessoas perderam da vida delas, simplesmente por serem quem elas são, eu falei: eu não tô pronto para isso agora. Porque assim que eu me formei, um tempo depois, minha mãe morreu”.

 

Pessoas transmasculinas

Caê demorou um longo tempo para trazer para si a palavra homem e, muitas vezes, a achava pesada, já que homem cis hetero traz também o peso sobre as violências contra as mulheres. Mas ser um homem trans, para ele, é poder mostrar à sociedade que existem, inclusive, outras masculinidades.

“Já foi difícil pegar essa palavra homem pra mim, fui criado, e me socializei como uma pessoa feminista e achava que homem era pesado demais. Entendi que existem outras formas. Sempre digo: a minha masculinidade não é única.

Homens trans têm masculinidades diferentes. A gente pensa masculinidade já pensa em um homem cis hetero branco opressor. Mas tem outras mil formas”



A dele, por exemplo, é forjada a partir das vivências que teve com as mulheres de sua família, já que foi criado pela avó, mãe e também sempre colaborou na criação da irmã mais nova, que ficou sob sua tutoria após a morte da mãe.“Fui criado por mulheres. Quem é o homem que quero ser, pra não ser esse opressor?  Obviamente, vou ter privilégios por ser homem branco. Se as pessoas souberem que não sou um cara cis, vai ser mais fácil.


Meus medos continuam os mesmos



Por trás dessas generalizações, o homem trans também carrega uma série de invisibilidades, já que ainda não está nas produções midiáticas ou outros cargos de poder.

“A gente não é visto, não é lembrado, as pessoas não sabem que a gente existe muitas vezes. Isso acaba tendo uma hiperssexualização do nosso corpo também”, diz. “Meu maior medo é ser estuprado, e as pessoas perceberem que sou um homem trans. Essa violência de mostrar que a genitália define o gênero. Meus medos não mudaram. São os mesmos medos”.

Para mudar esse cenário, Caê enxerga que é preciso mudar também as estruturas da sociedade e a questão econômica e financeira das pessoas trans e os lugares que podem acessar. “O mercado de trabalho está no meio de tudo isso. Estou muito orgulhoso de ter conseguido reunir essas pessoas com essas potências.. É um livro de potências. São pessoas incríveis que consegui reunir aqui neste livro”.