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No final de agosto deste ano o mundo se aterrorizou com imagens do Afeganistão. O Talibã, grupo fundamentalista que atua na região, retomou o poder após 20 anos de ocupação estadunidense. Olhando daqui, a realidade afegã não parece ser próxima da nossa. Mas será?

Em paralelo, o noticiário brasileiro assistia a uma mobilização endossada pelo presidente da república, Jair Bolsonaro, para atos no dia 7 de setembro. Acostumando a usar a expressão “que Deus abençoe o Brasil”, Bolsonaro investiu em ameaçar o STF (Supremo Tribunal Federal). Dias depois, recuou e publicou uma “Declaração à nação” afirmando que o tom  golpista foi por conta do “calor do momento”.

Para explicar como o fundamentalismo religioso e o conservadorismo têm se apresentado no Brasil, entrevistamos Magali Cunha, doutora em Ciências da Comunicação e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER). Estes são temas que ela tem se dedicado a estudar nos últimos anos, passando pelo uso das redes sociais por líderes fundamentalistas até uma visão latina sobre o assunto.

“O retorno do Talibã no governo do Afeganistão trouxe à tona uma série de discussões relacionadas à questão do islã. Houve muitos comentários, especialmente em redes sociais, em comparação ao que está acontecendo no Brasil e na América Latina”, explicou Magali. “Nesse caso, com o fundamentalismo na versão religiosa cristã. Mas não há uma comparação que possa ser feita tão restrita, porque são ênfases muito diferentes”.

Em outubro de 2020, a pesquisadora  publicou ​​a pesquisa “Fundamentalismos, crise na democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul”. O documento final evidencia diversas similaridades entre o momento político de diferentes países da América Latina.

“O que que a gente encontrou de comum? Uma reação reacionária aos avanços sociais que têm a ver com a defesa de direitos humanos, a busca de igualdade social, que foi alcançada em vários países com governos de esquerda, centro-esquerda, governos progressistas entre 2010 e 2020”, disse.

Magali também destacou a questão de gênero como um ponto central. “A pesquisa levantou casos como a campanha contra a legislação na Argentina, o acordo de paz na Colômbia, que colocou a questão de gênero como um ponto para dizer ‘não’ a um acordo de paz. A gente teve o caso do Peru com o tema de gênero nos currículos da educação sexual, muito parecido com o que aconteceu no Brasil”, exemplificou.

Outro aspecto é a demonização “mais intensa”, como afirmou a pesquisadora, de populações tradicionais, quilombolas e indígenas. “Isso é muito forte no Brasil com o governo Bolsonaro, mas foi identificado também em outros países, como a Bolívia, Peru e Colômbia.

Mas dá pra dizer que há alguma semelhança entre Brasil e Afeganistão? Para Magali, o que a gente tem no Brasil é a ameaça da democracia com a imposição de uma determinada interpretação de preceitos religiosos cristãos para que se transformem em leis. “Então é toda essa pressão sob o congresso nacional, sob o judiciário. Precisamos estar atentos. Há uma ocupação dos espaços democráticos para, via esses espaços democráticos, impor preceitos de um determinado grupo e suas interpretações”

Confira a entrevista!

Nós, mulheres da periferia – Como você definiria o conservadorismo?

Magali Cunha, jornalista e doutora em Ciências da Comunicação.

Crédito: ISER Assessoria

Magali Cunha – O conservadorismo é um movimento, uma tendência clássica no campo da política. Ele existe há muito tempo dentro e fora do Brasil. É aquela tendência política em que grupos, pessoas, lideranças tentam manter as coisas como elas são. É aquilo que chamamos de status quo.. Dentro desta lógica, há grupos que atuam para manter as coisas deste jeito, em termos de liderança política, quem é que lidera, quem toca processos, os costumes, a moralidade, as leis, a organização social. Esta é a concepção clássica de conservadorismo, ou seja, o conservadorismo se coloca em oposição a toda e qualquer ideia de transformação ou mudança que altere a ordem das coisas.

O conservadorismo se coloca em oposição a toda e qualquer ideia de transformação ou mudança que altere a ordem das coisas.

Nós – E quais são as características brasileiras do conservadorismo?

Magali Cunha – A gente tem uma sociedade brasileira constituída sob a colonização. Fomos colonizados por europeus que chegaram, tomaram posse da terra, mataram os indígenas, escravizaram ou colocaram em reservas e disseram: “aqui vocês podem ficar e o resto todo é nosso”. Essa é a forma que a nossa sociedade foi criada, assentada em um autoritarismo muito forte. De que tem quem mande e quem obedeça. Claro que, ao longo da história, houve muita gente que não quis isso, que se revoltou, quis mudar essa realidade, tanto homens como mulheres, como pessoas negras escravizadas. Temos a história dos quilombos, das revoluções e revoltas que aconteceram ao longo da história da colonização. Mas elas sempre foram abafadas, porque essa cultura ainda é muito forte e intensa. Sempre se trabalhou de forma conservadora para manter a ordem das coisas assim.

Nós – Podemos afirmar que esse conservadorismo se manteve em todos os momentos políticos no país? Até mesmo durante o processo conhecido como de independência do Brasil? 

Magali Cunha – A independência do Brasil foi tocada por quem? Não pelo povo que queria mudar, mas pela elite que queria adaptar a realidade do Brasil. Dom Pedro fez um pacto com a elite, com os latifundiários, com as pessoas que queriam ver o Brasil inteiro moderno e inserido na lógica desses acordos comerciais. Depois vem a república, que  foi proclamada por quem? Por militares. Então, temos a base de um militarismo autoritário que depois vai correr o século vinte segurando, abafando toda e qualquer atuação de transformação. O conservadorismo colonial está assentado no nosso chão brasileiro. Ele atua para segurar as transformações e até demonizar todo e qualquer movimento.

O conservadorismo diz  que os movimentos populares e sociais que tentam transformar essa ordem são nocivos, que estão querendo transformar o Brasil no comunismo, no bolivarianismo. E aí vem todas essas ideias de demonização, de destruir o Brasil, para poder manter a ordem das coisas. Tivemos um respiro, respiros democráticos ao longo da história. Mas teve mais conservadorismo, como a ditadura militar, com autoritarismo máximo. Depois as elites tentando democratizar, segurar a onda, abrir um pouquinho com a social democracia, que a gente teve nos anos de noventa. Vieram os governos Lula e Dilma que tentam dar um respiro, uma transformação, mas sempre pisando em ovos e fazendo acordos para poder governar. Mas esse grupo conservador disse: “não, chega”. E aí tivemos, em 2016, o que a gente viu acontecer com o golpe e o impeachment de Dilma Rousseff. Depois a entrada de Bolsonaro. Esse conservadorismo hoje está numa retomada máxima no nível do que foi a ditadura militar ou pior. Porque a gente não tem uma ditadura, né? A gente tem uma pessoa eleita nestes moldes.

O conservadorismo colonial está assentado no nosso chão brasileiro.

Nós – Eu ia entrar exatamente neste tema. Podemos dizer que vivemos hoje um dos momentos mais perigosos deste conservadorismo? 

Magali Cunha – Sim, ele é potente, ele é perigoso. Porque a gente tem uma articulação de grupos que não só não querem transformações nessa ordem social, como querem retroceder de avanços que a gente conseguiu naqueles respiros democráticos que eu falei, naqueles respiros de transformação. Quer dizer, a gente conquistou algumas coisas. Mesmo a social democracia dos governos Fernando Henrique Cardoso, depois da ditadura, mesmo sendo um pacto aí com as elites do Brasil, a gente teve avanços no campo social. Tivemos avanços nos movimentos de mulheres, nos movimentos negros, nos movimentos para superação da pobreza. Esses avanços foram ampliados com os governos Lula e Dilma. Então o que que a gente tem aí? Não só quem não queira mais avanços como quem quer retroceder. Como quem quer voltar a tempos anteriores em que a gente não tinha avanços nessa área social tão intensa. Tanto é que Bolsonaro, assim que assumiu, já em janeiro de 2019, fez um discurso em que disse: “Nós vamos destruir, nós vamos fazer o Brasil voltar ao passado”. Ele fala isso muito claramente. É o desejo de gente que quer manter privilégios que foram quebrados, não foram demolidos, mas que foram quebrados. Certos privilégios com o acesso de mulheres, de pessoas negras, de indígenas, Quilombolas, que tiveram acesso às suas terras. Enfim, tem gente que não engole que empregadas domésticas tenham os seus direitos, que pessoas pobres possam viajar num avião, estar numa universidade. Tudo isso tem a ver com aquela cultura da colônia, dos privilégios de classe, dos privilégios de cor, dos privilégios patriarcais. Tem gente trabalhando não só para barrar novos avanços, mas para impedir, retroceder e eliminar aquilo que a gente conseguiu a duras penas.

Nós: E é possível traçar um perfil de quem são os conversadores e conservadoras no Brasil? 

Magali Cunha: O que a gente observa desta movimentação social e política, é que as lideranças estão assentadas na branquitude. São pessoas brancas e pessoas da nossa chamada elite social. São os latifundiários, que vem lá do tempo das capitanias hereditárias, que foram divididas lá com a terra. Esse grupo é muito poderoso e hoje está articulado não só na posse da terra como na questão do agronegócio. O agronegócio é um grupo de poder hoje no Brasil e tem muita interferência na política, porque tem uma organização no Congresso Nacional. É a chamada bancada ruralista que tem muita força, que elegeu o presidente atual. Este é o primeiro perfil, que vem do tempo da colônia.

Temos também os empresários e empresárias. E eu não estou falando de quem faz bolinho em casa, de quem tem uma máquina de costura que faz a sua pequena indústria de roupas. Estou  falando dos grandes empresários, a FIRJAN (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro ), a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).  Esse grupo atua junto com um outro que é os dos banqueiros, das pessoas que têm o domínio do financeiro, das ações, dos investimentos. Esse grupo de empresários e banqueiros têm uma força muito grande no Brasil, sempre teve. Eles se constituíram a partir dos anos 50 com a industrialização do Brasil. Até os anos 50 quem dominava geral eram os latifundiários, aqueles das capitanias hereditárias. Depois o Brasil se industrializou, trouxe investimentos estrangeiro para o país. Aí tem as multinacionais e as articulações todas com o exterior. Depois entra o pessoal do petróleo, da energia. Quer dizer, isso aí é grande.

E aí tem um terceiro grande grupo que tem a ver com o conservadorismo e com o autoritarismo clássico que é o pessoal da segurança pública. Esse pessoal que fala em segurança pública que na verdade não está preocupado com segurança pública, está articulado em torno da segurança mesmo é privada. De salvar patrimônios, de salvar a pele. E aí tem a ver com o pessoal das armas, com as empresas de segurança pública. Eles também estão no Congresso Nacional articulado em bancadas. Basicamente os militares, o pessoal que é de polícia civil, militar, delegados. Tem gente do exército, da Marinha, da Aeronáutica, que se elegem e são financiados por esse grande poder que envolve a indústria de armas e da segurança privada. Este grupo quer interferir nas políticas de segurança pública, com viés muito conservador, que é manter o sistema que oprime a população de periferia e a população negra, principalmente, né? Esse é o pessoal da política, que não tem nada a ver com segurança, mas sim com a repressão. Isso tem história no Brasil, tem a ver com o pessoal que banca os capangas, os jagunços. É essa a lógica.

Esses três grupos: latifundiários e ruralistas, empresários e banqueiros, empresários e a segurança pública, são as três forças fundamentalistas e que são reforçadas por um quarto e último grupo que são os religiosos. O conservadorismo também está assentado neste quarto pilar, que é a religião.

Nós – Como a gente pode definir esse pilar religioso? 

Magali Cunha – Temos o catolicismo trazido com a colonização. Ainda no período da colonização, mas com mais força depois do período da independência, vieram os evangélicos que chegam com os missionários e muitos outros grupos religiosos.
Mas é o cristianismo que vai ser a base da religião no Brasil. É uma base assentada no conservadorismo colonial. É trazido primeiro com os católicos que catequizaram o Brasil e depois com os evangélicos que vêm do Sul dos Estados Unidos, escravagista, branco e muito conservador. Agora, em evangélicos e católicos que não são dessa linha conservadora? Sim, desde o começo. Pagam um preço alto por serem abafados e sufocados por esse conservadorismo que sempre sustentou a lógica colonial que eu citei aqui. Sempre sustentou latifúndio, banqueiro, empresário e o autoritarismo da repressão.

Nós –  E qual é a diferença entre conservadorismo e fundamentalismo?

Magali Cunha – O conservadorismo é um elemento que está presente no mundo político e faz parte do jogo político de uma democracia. Numa democracia há diversidade, então temos o conservadorismo e os movimentos progressistas e libertários que vão fazer o jogo democrático de colocar as discussões na arena política. Aí tem o voto e as pessoas escolhem. Então o conservadorismo faz parte. O fundamentalismo é o ultraconservadorismo, é um movimento religioso que leva ao extremo esse conservadorismo, a ponto de tentar impedir que haja o diverso, de que haja o outro. Esse outro é visto como um inimigo, como um demônio que tem que ser combatido. É o que estamos  vendo hoje no Brasil. As pessoas dizem que a oposição tem que ser eliminada, é essa a palavra. Inclusive o presidente da república já apareceu em cenas segurando uma arma e dizendo: “vamos metralhar essa esquerda”. O conservadorismo não pensa assim. O conservador vai debater e fazer campanha pelo voto. O ultra conservadorismo não, ele vai atuar inclusive com ações violentas. É a extrema direita. E o fundamentalismo se dá hoje dessa forma.

Nós – Como o fundamentalismo começou? Como ele se apresenta no Brasil?

Magali Cunha – Quando o fundamentalismo nasceu no ensino século XX era um movimento religioso para resguardar a fé do modernismo, da ciência. Os fundamentos da fé deveriam ser protegidos, resguardados. Não tinha esse caráter tão destrutivo e bélico. Mas ao longo do século XX, nos Estados Unidos, foi adquirindo um caráter mais político e religioso. O movimento negro, o feminismo, os movimentos pelos direitos civis, os movimentos LGBT, foram vistos como inimigos da fé e foram colocados num caráter de terem que ser combatidos, impedidos. Assim, o fundamentalismo vai se constituindo como um movimento e ampliando dos cristãos para outras religiões. Tanto é que ele foi atribuído a grupos islâmicos, radicais, que fazem terrorismo em nome da religião. O judaísmo também tem os seus fundamentalistas. Não temos fundamentalistas islâmicos no Brasil, não há fundamentalista judeu ou budista, mas sim os fundamentalistas católicos e evangélicos que se unem para impedir que avanços sociais sejam alcançados por grupos que eles consideram inimigos da fé. E quem seriam esses inimigos da fé? As feministas, o movimento LGBT, os indígenas, os quilombolas, aqueles que querem valer seus direitos sociais.

Nós – Essa visão progressista tem menos espaço no Brasil, não é?

Magali Cunha –  Sim. Sempre teve um espaço muito pequeno no Brasil, muito minoritário. Desde que os missionários chegaram, tanto evangélicos como católicos,  sempre houve teólogos, pessoas de fé que tiveram essa visão progressista, transformadora. Mas muitos pagaram o preço, foram perseguidos. Os jesuítas foram expulsos do Brasil porque tinham uma visão diferenciada do que seria o papel da igreja e o papel da fé católica. Depois vieram os os missionários evangélicos com a perspectiva do evangelho social. Abriram escolas, trabalharam com centros culturais, sociais. Atuaram em várias frentes e também sofreram muitas perseguições. A Confederação Evangélica do Brasil foi criada nos anos trinta, teve um papel muito importante e foi fechada durante a ditadura militar. Toda essa minoria que atuou no universo católico, evangélico e outras religiões também, vão sofrer as consequências da maioria conservadora e, mais recentemente, de viés fundamentalista.

Nós – O uso das redes sociais por personalidades conservadoras aumentou muito nos últimos anos. Destaco como exemplo a deputada estadual Ana Campagnolo, de Santa Catarina. Ela se diz conservadora e antifeminista, bolsonarista e tem milhares de seguidores nas redes sociais. Como você avalia este cenário?

Magali Cunha –  Os grupos conservadores e fundamentalistas também ocuparam de forma muito intensa as mídias digitais. E isso vem já faz um tempo. Desde 2002, 2007 que venho acompanhando.  Não tanto com Orkut., mas depois com a explosão do Facebook, Twitter, o YouTube. Os grupos conservadores e religiosos sempre ocuparam as mídias no Brasil, como com a televisão e rádio. Com a explosão das mídias digitais, também ocuparam de forma muito eficaz. O que deixa os grupos progressistas em desvantagem, porque nunca investiram. Os grupos progressistas investiram em publicações, livros, material impresso, tudo isso. Um ou outro blog ou site quando veio a internet, mas a ideia era estar na rua, fazer reuniões. Não enxergaram que a gente viveria numa sociedade digital. Mas esses grupos conservadores sim. Tanto é que a gente vê a explosão dos chamados YouTubers e dos influenciadores digitais que ocuparam esse espaço do universo religioso desde o início dos anos 2010 pra cá, com uma explosão intensa. São figuras como Ana Campagnolo. No campo católico, a Sara Winter. Personagens, entre mulheres, que vem com força e ocupam. Há um primeiro desafio para os grupos progressistas que é virar essa chave na cabeça.Nós não estamos mais no mundo analógico e isso não é questão de classe não. É uma questão de cultura. O mundo digital é que convoca, que coloca as pautas. As pessoas estão conectadas vinte e quatro horas por dia. Nós, no Brasil, temos uma afeição à cultura digital há muito tempo. Tanto que os nossos bancos eletrônicos são avançados. Este grupo ocupa com eficiência e sabedoria, usando uma linguagem, uma narrativa, um discurso que atinge as pessoas de um modo geral.

Nós – Existe algum elemento específico nessa linguagem que você destacaria?

Magali Cunha – Tem uma manipulação da linguagem, que trabalha com o terror, o medo e o pânico moral. É a base do fundamentalismo. Tem um terror verbal que é instituído nesses discursos. E aquela ideia de precisar manter as pessoas no pânico de que a família vai ser destruída, que as mulheres e crianças estão sob risco das feministas, dos movimentos LGBT, enfim. É um discurso muito duro de ouvir. Soma-se a isso as fake news e a desinformação. Para criar pânico, se trabalha com muita mentira também.

Nós – Como uma pessoa religiosa, qual é a sua opinião sobre a nossa conjuntura política?

Magali Cunha – Em primeiro lugar é a ideia de que a religião ou as religiões são componentes muito significativos na realidade do Brasil e da nossa América Latina. Não dá para jogar fora que as religiões dão sentido à vida das pessoas, estão embutidas na realidade, na cultura, na existência da sociedade. É claro que existem pessoas que não têm religião, que não têm uma crença.

Mas a grande massa da nossa população brasileira e latino-americana tem uma vinculação religiosa ou uma forma de crer. Isso tem que ser levado em conta e não pode ser desprezado ou descartado em toda e qualquer perspectiva política.

Os grupos conservadores e fundamentalistas fazem uso disso e usam muito bem, instrumentalizando de forma política essa dimensão religiosa. E usam isso para impor medo, para colocar ideias e valores de demonização de grupos. Mas os grupos progressistas também têm um elemento a contribuir, olhando como as religiões são libertadoras e dão um lugar social para as pessoas. Quando penso nas religiões de matriz afro, nas mães de santo e nas mulheres, que têm um lugar tão forte nesse grupo religioso. Durante a semana, uma mãe de santo pode ser uma faxineira, uma empregada doméstica. Mas quando ela está no seu grupo religioso, é uma pessoa de poder, uma pessoa respeitada, que tem voz. Isso se dá também na igreja evangélica. Quando a empregada doméstica, a faxineira, veste a sua roupa mais bonita, chega domingo na igreja e fala, prega, faz oração, diz uma profecia. Isso dá um sentido pra vida dessas pessoas e isso precisa ser compreendido, respeitado.

Não pode ser visto como alienação, como muitos grupos dizem. Não é alienação, as pessoas religiosas têm na religião o sentido para a vida e sabem ler a realidade que as cerca.

Tem muitos grupos progressistas, assim como grupos conservadores, que falam muito e querem colocar coisas na cabeça das pessoas. Está na hora de ouvir. Acho que a gente ouve muito pouco. E, em segundo lugar, a necessidade de se compreender essa cultura digital e como os grupos religiosos podem e devem estar inseridos nessa cultura e construindo um discurso que não seja autoritário. Não dá mais pra pensar o mundo analógico, um mundo em que um só fala e os outros ouvem. As pessoas fazem muitas coisas com o que recebem no mundo digital. Há que se pensar lá na frente. Quando eu lançar um conteúdo, o que as pessoas vão fazer com ele? A comunicação hoje dita as posturas.


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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo