Débora Dias, uma das lideranças do Movimento Mães de Maio/Divulgação

“É muito difícil para nós, mães de familiares de vítimas do Estado terrorista, esta data. É uma data muito dolorosa, uma data muito sangrenta, que não podemos esquecer o que ocorreu em maio de 2006 com os nossos filhos. O Dia das Mães é um dia de luta. Um dia de luta que ele acaba atravessando fronteiras”.

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A fala acima é de Débora Maria da Silva, uma das lideranças do Movimento Mães de Maio, que desde 2006 lutam por justiça diante da morte de seus filhos. Os assassinatos ocorreram entre os dias 12 e 14 de maio daquele ano, conhecidos como os dez dias mais sangrentos da história do Estado de São Paulo. Estima-se que, ao menos, 505 pessoas morreram na cidade naqueles dias.

“Um encontro pra gente conseguir chorar”

Neste mês, que completam 12 anos que mulheres como Débora se uniram para lutar por memória e justiça aos seus filhos, elas somaram esforços para estarem presentes no 3º Encontro Internacional de Mães e Familiares de Vítimas da Violência do Estado, que acontece em Salvador (BA) de 17 a 20 de maio. O evento é uma iniciativa da Rede Contra Violência, composta por famílias vítimas do genocídio contra o povo negro. Além da presença de mais de 100 mães de diversas regiões do país, estarão presentes mães da Colômbia, Chicago e uma filha Palestina.

O Mães de Maio, que é movimento independente e não conta com recursos públicos para sua manutenção, criou uma campanha na internet pedindo o apoio de toda a sociedade civil que se solidariza contra o genocídio do povo preto e encarceramento em massa para a que mais mães possam participar deste espaço que simboliza cura e acolhimento para muitas de suas integrantes.

“A gente está tentando suportar esse Dia das Mães com um encontro, o 3º Encontro Internacional de Mães e Familiares de Vítimas do Estado brasileiro. Esse encontro ele é muito importante para nós. Porque nós vamos nos abraçar, nós vamos conseguir o colo, conseguir chorar, nós vamos conseguir se amar, como uma mãe que não sabe o que é nome que se dá para uma mãe que perde um filho”, reafirma Débora.

A maternidade ultrajada

“Algumas mães estão adquirindo doenças oportunistas pela dor, pela saudade e pela tristeza dessa impunidade que alavanca em nosso país, destruindo famílias inteiras. O Dia das Mães, pra nós, não tem sentido mais, o Dia das Mães, pra nós, é um dia comercializado. Pra nós, é um dia de luta. Significa 365 dias do ano de luta pra que parem de matar nossos filhos, porque o país está matando mulheres negras, pobres, moradoras de favela e periferia e vidas negras, vidas faveladas importam pra nós. Esse é o recado que nós, Mães de Maio, mandamos para esse país racista e fascista que nós temos, lamenta Débora.

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O dossiê “A situação dos direitos humanos das mulheres negras no Brasil” aponta que as mulheres pretas vivem violência tanto no esforço quanto no isolamento e solidão pra tentar proteger a vida de seus filhos. Segundo o estudo, em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negras.

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“Por trás destes números há também a violência não letal, mas intensa e continuada, que afeta milhares de mulheres negras, em sua maioria mães dos e das jovens assassinados. Estas violências são vividas tanto nos intensos esforços que desenvolve, geralmente em isolamento e solidão, para proteger e tentar preservar a vida de seus jovens, mas também após a morte destes, ao longo de suas ações para recuperar a dignidade dos jovens assassinados, para recuperar e enterrar seus corpos, para buscar reparação e justiça. E há ainda a culpabilização, a representação midiática negativa e preconceituosa desses jovens”, aponta o texto do dossiê.

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