“VOZ ela já tem, meu bem! São OUVIDOS que ela quer’‘, esses são versos da poeta Queila Rodrigues, no poema “Carapuça”, que discute as questões relacionadas ao machismo que as mulheres enfrentam em seu cotidiano. Queila talvez não seja muito reconhecida no ambiente literário tradicional. Moradora de Cidade Tiradentes, no extremo leste da cidade de São Paulo, a poeta e ativista circula nos saraus e atividades culturais dos bairros periféricos divulgando sua arte.

Assim como Queila, nós, e tantas outras mulheres das periferias, tivemos nossas vozes historicamente subalternizadas, caladas, ignoradas. E apesar de alguns avanços, somos a parcela da sociedade que ainda precisa lutar para exercer o direito de se manifestar e se posicionar por si mesma.
A periferia é preta, na cor, e na história ainda não contada sobre como é sobreviver a uma cidade tão racista quanto São Paulo. Foi nas bordas dessa metrópole que nossas famílias se instalaram, enquanto o centro branco as expulsava. É aqui que permanecemos e começamos a contar não apenas a história de crueldade contra o nosso povo – onde o genocídio da juventude negra ainda é uma realidade – mas as narrativas escondidas das memórias ancestrais.
A quebrada é também nordestina e interiorana, com muitos sotaques, jeitinhos e um sem número de culinárias. São nossos familiares que fizeram dessa a maior potência econômica do Brasil, mas continuamos excluídos pelo sistema social.
Recentemente, a palavra periferia tem sido muito referida como discurso, contexto, reflexão e debate, em diversas esferas, sejam elas políticas, econômicas, raciais ou de gênero. Porém, essa análise é realizada em grande parte por meio de pessoas convidadas e que são referências, sobretudo acadêmicas. São levantados dados, realizadas projeções, elaboradas diversas hipóteses, mas, na maioria das vezes, elas não emergem da própria consciência e produção das mulheres da periferia.

estamos cansadas de sempre sermos vistas como objeto passivo de pesquisas que ignoram totalmente as histórias que fogem das metodologias.

Estamos cansadas de sempre sermos vistas como objeto passivo de pesquisas que ignoram totalmente as histórias que fogem das metodologias.


Isso não quer dizer que não reconheçamos a importância e relevância desses pesquisadores, pensadores e intelectuais, ao contrário, sabemos que o conhecimento que possuem e compartilham é extremamente necessário para fortalecer nossas reivindicações. No entanto, estamos cansadas de sempre sermos vistas como objeto passivo de pesquisas que ignoram totalmente as histórias que fogem das metodologias.
Também estamos na academia, construindo nossas próprias teorias, muitas delas embasadas por uma vivência anterior enquanto mulheres e homens periféricos. Vem crescendo o número de pesquisadores que se formaram, inicialmente, em berço periférico, e depois buscaram nos estudos as explicações para as desigualdades que nos cercam. Para além do serviço social que uma pesquisa exerce, cada uma é um estudo em causa própria, no sentido de entender e contrapor tudo aquilo que os programas sensacionalistas falam sobre as bordas da cidade, jogando luz às memórias coletivas e lutas nos mais variados campos do conhecimento.
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Não ignoramos também os dados, os quais são úteis na incidência ativa por políticas públicas que, realmente, olhem para as quebradas. Sabemos que dentre as diversas realidades existentes nos bairros periféricos, a falta de vagas em creches, o baixo número de leitos nos hospitais, a falta de saneamento básico e a má qualidade do transporte público ainda gritam latente no dia a dia da população que vive nas bordas da maior metrópole brasileira.
Os números, no entanto, não dão conta de representar e explicar a complexidade e afetividade existente entre os sujeitos que vivenciam a periferia em seu cotidiano. A resistência nasce, inclusive, pela falta. É uma garagem que se torna o centro cultural do bairro; a pracinha, antes abandonada, que se transforma no ponto de encontro dos jovens que não têm espaço para diversão; os muros viram uma galeria de arte a céu aberto e a rua ainda é o campo de futebol improvisado com chinelos na calçada. Tem até carona no ônibus para a molecada que não pode pagar. Os vendedores ambulantes dos trens – famosos marretas – são os marketeiros mais geniais escondidos sobre os trilhos de ferro.
No fim de semana, batemos laje com churrasco e cerveja. E isso não é motivo de chacota. Pelo contrário, é resultado do sentimento de fraternidade que ainda permeia nossas relações de vizinhança. Coisa que pouco ocorre nos grandes centros, onde cada um vive isolado no metro quadrado de seu apartamento.
Não é à toa que as periferias, de forma geral, possuem um acervo social de dar inveja a qualquer organização social bem intencionada. Isso porque nós, aqui, desde sempre tivemos que correr atrás daquilo que era pra ser nosso por direito, sem cartilha explicativa. As mulheres da periferia ergueram casas em mutirões nos anos 90 e não arredaram pé até ver a construção de escolas sair do papel. Fomos criadas por muitas mães, que se revezavam nos afazeres domésticos e trabalho externo para a criação de todas as crianças. Relembrando, aqui, que as mulheres negras na periferia sempre foram arrimo de família. Mesmo sem escolha e em meio à solidão afetiva que nos cerca, foi entre nossas iguais que encontramos solidariedade para erguer nossas comunidades.

Qualquer mulher da periferia, independentemente de sua origem, cor, renda, formação, é a autoridade primeira para falar sobre si mesma e para refletir sobre sua própria condição

Qualquer mulher da periferia, independentemente de sua origem, cor, renda, formação, é a autoridade primeira para falar sobre si mesma e para refletir sobre sua própria condição


Nós, que somos mulheres da periferia, e convivemos diariamente com tantas outras de nós – mães, irmãs, primas, sobrinhas, cabeleireira, manicure, advogada, dentista – conhecemos os problemas que nos afligem, assim como as opressões que ainda nos limitam e fazem com que tenhamos uma vida muito pesada. Entretanto, nos incomoda quando o outro, aquele que não vive e não passa por isso, por mais boa vontade que tenha, analisa e determina certas verdades a respeito de nossas histórias, posicionamentos e valores, tocando em feridas que são nossas e que, por isso, conhecemos e sentimos como ninguém.
Qualquer mulher da periferia, independentemente de sua origem, cor, renda, formação, é a autoridade primeira para falar sobre si mesma e para refletir sobre sua própria condição. Se, para avançar, o Brasil precisa incluir e atender nossas demandas, é preciso que, fundamentalmente, nós mesmas as apresentemos. E que nos deem ouvidos.
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Mas, não basta nos ouvir, é preciso saber nos escutar. Esse exercício é algo que requer para além de estudos, vivência. Uma hora na quebrada, um mês de projetos assistencialistas, um ano morando na casa de alguém que vive na periferia não farão acadêmicos ou estudiosos de centros de pesquisas entenderem o que nem a gente tem a pretensão de definir.
Os programas sensacionalistas continuam pintando as quebradas de tiro e porrada, mas a gente é muito mais que isso, e cada pessoa periférica é também um universo em expansão, com diversas histórias e memórias que se mesclam a esse diversificado mundo que é a periferia. Somos muitas e muitos para sermos reduzidos a apenas um.
O Nós, mulheres da periferia é um coletivo que nasceu de um vazio de representatividade. A relevância, elemento que o jornalismo sempre destacou ser um dos pressupostos para ganhar as manchetes dos jornais, está nos nossos cotidianos invisibilizados. O sistema que nos nega direitos também nos condiciona ao silêncio e nos faz acreditar que não somos capazes de falar por nós. Começamos a inverter essa lógica transformando o silêncio em voz que ecoa com a potência que merece.
O Nós, mulheres da periferia é formado por sete jovens mulheres moradoras das periferias. Aline Kátia ( Jova Rural), Bianca Pedrina ( Carapicuíba), Jéssica Moreira ( Perus), Lívia Lima (Artur Alvim), Mayara Penina (Campo Limpo), Regiany Silva (Cidade Tiradentes) e Semayat Oliveira ( Cidade Ademar).