Antes do acirramento da pandemia, o governo do estado de São Paulo e as prefeituras municipais haviam planejado a volta às aulas para o mês de fevereiro deste ano. A retomada voltou a ser adiada após o número de casos de contaminação e mortes causadas pelo novo coronavírus voltar a crescer.

No dia 9 de março, a Justiça de São Paulo suspendeu a volta às aulas presencias em todo o estado. A liminar proibiu escolas públicas e privadas de receber alunos enquanto as fases vermelha e laranja estiverem em vigor.

Poucos dias depois, o desembargador Geraldo Francisco Pinheiro Franco,  do Tribunal de Justiça de São Paulo, derrubou as liminares que proibiam a convocação de professores e a realização de aulas presenciais nas escolas públicas estaduais e municipais e particulares em cidades que estiverem nas fases vermelha e laranja do Plano SP.

Com essa decisão, a expectativa é que o governo do estado e as prefeituras possam liberar o retorno às aulas presenciais ao término da fase emergencial, em 30 de março,

Por outro lado, um comunicado do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo indica que, em fevereiro deste ano, a classe prefere permanecer com o trabalho remoto. Segundo a APEOESP,  a decisão teve apoio de 81,8% da categoria.

Diante de tanta incerteza no cenário da educação brasileira, o Nós, mulheres da periferia conversou com Ednéia Gonçalves,  socióloga, educadora e coordenadora executiva adjunta da ONG Ação Educativa.

Para ela, antes de tudo é preciso compreender que “todas as pessoas interessadas e que acham que a educação é um direito humano querem a aula presencial”, entretanto, esse retorno precisa garantir todas as presenças necessárias para que este retorno aconteça. 

O primeiro desafio é a gente pensar que o tempo não está claro. E se nós não temos definição de tempo, o planejamento fica muito prejudicado. Então, penso que a melhor coisa a se fazer nesse momento é garantir a vida das pessoas”, opinou. 

Além disso, a especialista falou como o impacto da pandemia na educação acirra as desigualdades e gera frustração em cuidadores, professores, alunas e alunos.

Entre suspensões e adiamentos, a única certeza da educadora Ednéia Gonçalves é sobre o acirramento das desigualdades na educação

Crédito: Agência Brasil


Nós, mulheres da periferia: Como pensar na volta às aulas em 2021? 

Ednéia Gonçalves: Acho que a primeira coisa que precisamos pensar é como fazer essa pergunta, né? Porque pra mim o fundamento é que todos os educadores, todas as pessoas interessadas e que acham que a educação é um direito humano querem a aula presencial. Agora, essa aula presencial tem que vir com garantia de segurança sanitária.

E aí, a gente precisa saber quais são os protocolos e quais são as medidas. E, pra serem construídos esses protocolos, é  preciso ouvir a comunidade escolar e  considerar que existe uma diversidade imensa nesse estado e nessa cidade que precisa também ser vista. Então a demanda de um território não é a mesma demanda de outro.

O básico é que nós precisamos ter procedimentos e protocolos que deem conta de proteger todo mundo: famílias, crianças, jovens, adultos, gestores, professores, os profissionais da cozinha, de serviços gerais, todo mundo. Todas as presenças têm que ser protegidas. Todo mundo quer que volte, a gente também quer, eu também acho que o presencial é o melhor, mas tem que ter segurança sanitária e isso tem que ser bem divulgado e comunicado.

NMP: E em relação à aprendizagem, como  você avalia a defasagem que a gente teve em 2020?

EG: Olha, a primeira coisa que a gente precisa olhar, se tratando de aprendizagem,  é para quais soluções foram apresentadas e o quanto essas soluções atingiram realmente a população que a gente tá se referindo.

Quando eu penso na periferia, vejo que tinham colocado como principal solução a possibilidade da educação à distância. A gente já concluiu que o acesso foi realmente impossibilitado para a maioria dos jovens pretos, a maioria dos jovens de periferias e de comunidades.

Tendo em vista que a gente não acredita que o investimento tem que ser no autodidatismo, que as pessoas tem que aprender sozinhas, tendo em vista que o contato e a mediação entre professor e aluno é essencial pra a aprendizagem, a gente já sabe o que falta. Então, precisamos pensar o seguinte: o que que foi feito?

Eu sei que vários coletivos trabalharam tentando compensar essa defasagem, tentando compensar esse distanciamento, mas a gente tem que pensar sempre na perspectiva do direito. O direito à educação de qualidade ainda é vigente, então a educação de qualidade que esses alunos não receberam precisa ser considerada como esse ponto de partida de diálogo com a comunidade escolar.  É urgente fazer uma grande avaliação diagnóstica pra saber o que os alunos sabem ao invés da gente pensar no que eles não sabem. 

“O básico é que nós precisamos ter procedimentos e protocolos que dêem conta de proteger todo mundo, disse Ednéia

Crédito: Arquivo Pessoal

NMP:  E qual é o principal desafio neste momento? 

EG: Primeiro que é assim, a gente tem o desafio do tempo, né? Eu não posso te dizer que a pandemia vai terminar em março, nem em abril, em maio. Não posso garantir que a vacina vai chegar daqui a um mês, daqui a quinze dias,  o quanto que essa fila vai andar e como vai andar para a população preta e periférica. Então, acho que o primeiro desafio é a gente pensar que o tempo não está claro.

E se nós não temos definição de tempo, o planejamento fica muito prejudicado. Então, penso que a melhor coisa a se fazer nesse momento é garantir a vida das pessoas. A vida é tão importante, mas é tão importante, que precisamos ver todas as possibilidades de nos mantermos vivos.

NMP:  Como você avalia o impacto da atual conjuntura da educação na desigualdade social? 

EG: Quando a gente fala em educação à distância, o que que vem a cabeça? O tal do homeoffice com  uma mesa, uma conexão que às vezes cai, tem um caderno e uma pessoa do seu lado te apoiando. Mas a gente sabe que as famílias têm, no máximo, um celular para a família e não por pessoa. O filho fica esperando a mãe chegar pra usar o celular. A mesa que você vai estudar é a mesa que você come e passa roupa. Esse é o lugar que você tá considerando como o espaço alfabetizador.

E é, de fato, um espaço riquíssimo de aprendizagem. Mas essas mães se tornam as educadoras e a gente quer medir o quanto elas conseguiram ensinar pro filho. Essas mães são as nossas alunas do EJA, que tá fechando. Então, quando a gente fala em EAD (ensino à distância), estamos falando de quê? De quem? Qual EAD?

Eu sei como é dentro dessas casas, tem um cômodo e tudo acontece ali. E aí, eu quero que tenha um espaço de biblioteca, onde você coloca o acervo da família? Quero um lugar aonde o estudante pode te ver no quadradinho? Eu quero que esse estudante possa imprimir material?

Não é assim, a vida real não é essa. Então, eu acho que a grande crueldade desse período é mais uma vez a população pobre tentando correr atrás de dar conta de um processo que não foi construído considerando as suas realidades.

NMP:  E essas dificuldades também atingem os professores?

EG: Sim, não são só os estudantes os excluídos digitalmente, tem muito professor também. O professor, de repente, teve que se virar. Teve que fazer uma aula interessante para essas plataformas e 20 minutos de aula são três horas de gravação. Você tem que preparar, tem um jeito de falar com a tela, um jeito de interagir.

A gente não pode também exigir que uma formação que não foi dada com intensidade e profundidade, agora, dê resultados. A gente sabe o quanto é complicado pros professores.

Então, temos as mães que não são professoras se frustrando, porque elas querem dar conta da aprendizagem do filho, acham que elas têm que ser didática e que têm que entender de todos os instrumentos metodológicos pra fazer o trabalho de professores, mas elas não são professoras. E, do outro lado, você tem professores frustrados porque o professor precisa construir um material que seja interessante e ele também não domina todas as ferramentas e está começando a entender esse período. 

NMP:  E os impactos da pandemia vão muito além da educação, né?

EG: Sim. Além de pensar na pandemia e no luto que essa produz, tem as questões das violências que a gente tem visto, totalmente exacerbada. O genocídio negro ampliou-se nesse período, sabemos o efeito que tem um jovem preto com máscara entrando num comércio, isso também se acirrou.

Acirrou-se a sensação de insegurança, acirrou-se a fome.  Sabe o que é não ter gás em casa e não ter a perspectiva de ter?  E quando a gente fala do desemprego, estamos  pensando naquelas velhas correrias que todo mundo faz pra tocar a vida e que nesse momento tá sendo impedido. Então, tem essa perspectiva de você não saber por quanto tempo se planejar.

Pra mim, nesse momento, tudo é permanente. Principalmente as articulações que foram feitas nas comunidades, toda a organização que os coletivos fizeram  pra atender as necessidades e demandas sociais urgentes. Hoje a gente tem que falar também sobre as potências que foram identificadas, para que a gente possa enfrentar essa falta de perspectiva e esse tempo que a gente não sabe até quando ele vai. 

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo