Depoimento de Gabriela de Souza Pedro, 28 anos, moradora de Guaianases, zona leste de São Paulo. Gabriela trabalha com costura no Abayomi Ateliê  e escreve e recita poesias nos saraus da Zona Leste.  Seus textos contam a história de uma menina violentada por um casal na infância, e de como ela pode ajudar outras mulheres a superar traumas como esse.
Eu costumo falar que toda vez que eu recito, sai um pouco de mim a sede de vingança que eu tinha. Eu sempre desejei muito mal para eles. Hoje, já não consigo sentir tanto ódio.
Com cinco anos de idade, minha mãe me deu para a família do meu pai e fui morar numa casa com cinco pessoas. Entre eles uma prima que na época tinha uns 18 anos e um tio com 30. Todo domingo, quando íamos dormir, um dos dois me chamava para sala ou para o quarto. Lá, abusaram sexualmente de mim por anos.
Aos 11 anos consegui voltar para a casa da minha mãe depois de ter pedido muito. Quando ela me visitava, eu arrumava minhas coisinhas, colocava numa sacola do mercado e fazia um escândalo. Ninguém conseguia me segurar na rua. Só hoje eu descobri que era um sinal de uma criança que sofria abuso, mas minha mãe não enxergava isso. Até um dia que eu falei alguma coisa que mexeu com o coração dela e ela me levou embora.
Morando com minha mãe, comecei a estudar e conheci o sexo muito cedo. Acredito que foi por conta disso que tive meu filho com 17 anos no meu primeiro casamento. Larguei do pai do meu filho com um ano. Conheci uma pessoa, e entrei em outro relacionamento, em que fiquei casada por oito anos.
Nesses oito anos eu apanhava muito e sofria abuso também. Mas chegou uma hora que eu falei para mim mesma que não queria mais aquilo. Não queria mais apanhar, não quero que meu filho me veja apanhando. Já vi minha mãe apanhando do marido na frente dos filhos.
Há um ano consegui fazer com que ele fosse embora e desde então moro sozinha de aluguel. Meu filho, que hoje está com 11 anos, mora com o pai porque ele escolheu.
Superação
Já trabalhei como orientadora socioeducativa, mas não deu certo porque não consegui lidar com as situações familiares. Quando eu via algo parecido com que já passei, eu surtava.
Hoje eu estou desempregada, mas vendo lanches naturais e faço roupas na grife Abayomi Ateliê.
Além disso, eu escrevo poesia e recito em saraus. Por incentivo dos meus amigos, eles falavam que tinha uma puta história, fui colocando no papel e foi dando muito certo. Não é aquela poesia cheia de rimas, pontinhos. Tive muita dificuldade na escola por conta do que eu sofri. Não ligo de falar que eu não escrevo direito, para tudo tem um jeito. Não é uma coisa perfeita, mas quando eu mando a poesia, todo mundo sabe do que eu estou falando e pra mim é suficiente.
Eu costumo falar que sou uma pessoa muito abençoada, e o que aconteceu comigo, pode ser que eu esteja equivocada, mas eu vejo como um teste, uma lição da vida pra eu ser a Gabriela que sou hoje. Talvez se isso não tivesse acontecido comigo eu não seria a Gabriela que sou, me considero muito guerreira.
Nas poesias que mando, procuro falar disso, não vejo mais motivos pra esconder, também não me faço de coitada. Eu tomei essa decisão no dia que eu recitei uma poesia e uma mulher veio falar comigo e me contou a história dela… Eu falei: “porra, agora não vou parar mais”!

(Gabriela de Souza Pedro. Créditos: Anderson Meneses)

(Gabriela de Souza Pedro. Créditos: Anderson Meneses)


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