Era maio de 2006, não tenho a precisão do dia. Como de costume, minha irmã e eu acordamos às 4h30, ela para trabalhar e eu para estudar. Para chegar às 7h no Tatuapé, bairro onde ficava minha escola e o emprego dela, precisávamos sair de casa, na Cidade Tiradentes, até as 4h55.
Enquanto nos arrumávamos, minha mãe, que já estava de pé antes de nós, ficava postada na janela da sala olhando na direção da rua Pé do Morro, por lá passava a lotação 3013 – Morro do Urubu. Assim que passasse pela rua Pé do Morro, teríamos cinco minutos até ela chegar no nosso portão, dependíamos dela pra chegar até o terminal de ônibus, morávamos no fim de uma ladeira, um pouco depois do Morro do Urubu (e, sim, carrega esse nome porque sempre foi local de desova de cadáveres, prática que aconteceu principalmente durante a década de 90, quando a quebrada era mais embaçada).
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Sempre que minha mãe gritava: “passou, vamos!” a gente descia correndo para o portão do prédio, as três, ela nunca nos deixou ficar sozinha no portão de madrugada esperando a lotação. Mas nesse dia, eram 4h50 e nada da “3013” passar. Ela realmente não passaria. Esperamos bastante até tomar a decisão de descer a pé até avenida e de lá tomar um ônibus para o terminal, coisa que sempre deixava minha mãe aflita, duas meninas descendo a rua antes de amanhecer.  Ela queria poder dizer: “não vão, fiquem em casa hoje”, mas isso nunca foi uma questão de escolha.
Então ela nos acompanhou até o portão e disse: “vão com Deus, que Nossa Senhora proteja e guarde vocês”. “Amém, mãe”. Ela ficou no portão acompanhando nossos passos enquanto podia nos ver, como a mesma cara aflita de todos os poucos dias em que a “3013” não passou, até que sumimos da visão e ela subiu para casa. Esse dia não seria como os outros.

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crédito: Flickr


Dois ou três minutos de descida e estávamos na metade da ladeira, quando vimos que no final da rua, lá embaixo na esquina com a avenida que era nosso destino, um carro gol branco subindo na nossa direção a milhão. Atrás dele um carro de polícia atirando loucamente, era muito tiro. Imediatamente nos agachamos no chão da calçada, assustadas, enquanto víamos eles subindo na nossa direção e o coração apertado com o barulho dos tiros. Para nossa sorte, o carro virou na primeira esquina, na rua Nascer do Sol, a rua da feira, um pouco antes de passar por nós.
Ainda ali na calçada, me lembro de ter medo de morrer pela primeira vez na minha vida. Não sabíamos o que fazer, não nos mexíamos, olhávamos uma para outra sem reação. Não sei quanto tempo ficamos assim, só sei que em algum momento levantamos e decidimos subir a rua de volta pra casa correndo. Mas aí começaram os tiros de novo, dessa vez vinha lá de cima, aí foi foda, “será que a mãe entrou no prédio a tempo?”, era só nisso que pensávamos, e sabíamos que ela devia estar pensando na gente.
Corremos sentido à avenida, rezando que nenhum outro carro passasse e algum tiro encontrasse a gente. Eu não consigo me lembrar com detalhes, só sei que chegamos no terminal Cidade Tiradentes de algum modo e já tinha amanhecido. Minha irmã também não se lembra, é como um bloqueio, ouvimos os tiros lá de cima, e não sei como e em quanto tempo chegamos até o terminal. Só lembro de me sentir aliviada, enfim, segura, e foi isso que guardei na memória.
Vi minha amiga e a mãe dela, que estavam no ponto no momento dos tiros. Contaram do medo de morrer, dos gritos e que se jogaram no chão como nós. Encontrei também meu namorado da época, ele estava indo trabalhar, todos muito assustados, mas bem, porque estávamos vivos.
Conseguimos ligar pra casa de um orelhão, não sei quanto tempo minha mãe ficou esperando essa ligação, mas com certeza foram os minutos ou a hora mais longa da vida dela. Foi um momento de alívio, nem os tiros lá debaixo nos acertaram, nem os tiros lá de cima a encontraram. Porém, ela continuava muito preocupada: “Tem gente morta aqui na rua, não voltem pra cá agora”.
Não voltamos para casa naquela hora e não sei dizer que horas voltamos, é como se o terror tivesse apagado coisas da nossa memória. Minha irmã lembra de termos voltado à pé, provavelmente porque os ônibus não estavam circulando.
Mas enfim, voltamos pra casa e a mãe nos recebeu aliviada.
Quantos não voltaram nunca mais?
Quantas mães esperam há 10 anos a volta de seus filhos?
 
Para minha mãe
Aproveitei a escrita desse relato e a memória tão dolorida desse dia para perguntar à minha mãe como foi pra ela viver isso, e ela me contou:

Me lembro de ter ouvido tiros depois que vocês saíram, mas não tinha certeza se era tiro. E me lembro que a Ester (uma amiga da rua de trás) me ligou para contar que o marido e a filha tinham voltado pra casa porque estava tendo tiroteio na rua, ela estava preocupada com vocês, e eu disse que vocês tinham descido a rua a pé, fiquei desesperada. A Bete (outra amiga da rua de trás) também esperava notícia da Bela e do Victor (seus filhos que desciam no mesmo horário para ir à escola).
Mas logo em seguida vocês ligaram me avisando que estava tudo bem, me deu um alívio! Sai ligando pra todo mundo pra avisar. Aí os meninos da Bete já tinham voltado pra casa. Na hora dos tiros eles se esconderam atrás de um poste. Graças a Deus!
Eu não consigo imaginar a dor de perder vocês. Que coisa triste é uma mãe perder um filho, deve ser uma dor que nunca passa, nunca acaba. Em sempre entrego vocês nas mãos de Nossa Senhora e confio que ela vai proteger vocês, como protegeu nesse dia.

Eu, sem querer diminuir o valor e força da fé de minha mãe, até porque acredito na proteção de Nossa Senhora quando minha mãe pede por nós, perguntei se ela sabia que mais de 500 jovens das periferias tinham sido executados pela polícia durante essa semana, e que, portanto, mais de 500 outras mães que, como ela, rezavam por seus filhos, os perderam pelas mãos do Estado.
Ela me disse que lembrava do noticiário falar do PCC o tempo todo, do terror que o PCC estava causando, do pânico nas ruas, mas não lembrava de ter notícia sobre esse tanto de jovem ter morrido desse jeito. Aí mostrei um trecho do documentário: Não saia hoje. Ela assistiu um pouco comigo, depois ficou me olhando com um olhar de pesar e demorou um tempinho pra falar:

Por que só o jovem da periferia é o alvo deles? Porque não tem ninguém por nós aqui, se fosse filho de rico eles pagariam pelo que fizeram. Às vezes eu te vejo falar dessas coisas de periferia e acho exagero, mas é assim mesmo, aqui é sempre assim.

E eu aqui só lembro do Brown dizendo pro Ice Blue: “ Podia ser a nossa mãe, que loucura!”.
Regiany Silva, é designer e integrante do Nós, Mulheres da Periferia. Mora na Cohab José Bonifácio, zona leste de São Paulo.