Quem mora na periferia, passa muito tempo no trânsito e dentro do transporte coletivo, seja para ir ao trabalho, à escola ou até para o lazer. E em meio a tantas horas para se locomover muitas coisas acontecem, muitas pessoas se conhecem e muitas histórias nascem ali. Foi assim que conheci meu marido.
Um dia em que voltávamos do trabalho para casa, na fila de ônibus do Jardim Ângela, no Largo da Batata, encontrei uma colega da escola do primário, que não encontrava há anos. Conversamos, falamos da vida e do que estávamos fazendo, até que a fila andou e começamos a entrar no ônibus. Mas como todo transporte público, se fossemos sentadas já estaríamos no lucro, mesmo estando no ponto final, encontrar um lugar para as duas sentarem juntas então, seria como ganhar na loteria.
Entramos no ônibus e  logo vi meu amor. Achei ele um gatinho, mas claro que eu nem fazia ideia de quem ele se tornaria na minha vida. Ele já estava sentado do lado da janela, perto da catraca e do cobrador, não ia sentar do lado dele, mas a minha colega disse senta aí, que eu sento aqui, não tem mais lugar para trás. Então sentei e pegamos os dois últimos lugares, uma em cada lado do ônibus. Conversávamos do tempo da escola, até que o ônibus lotou e não conseguimos mais nos ver e conversar.

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crédito: Arquivo Pessoal


 
Comecei a ler um livro e reparei que um homem que estava em pé estava com uma mochila e perguntei se queria que segurasse, ele disse que sim e agradeceu. Algum tempo depois começou a vazar água da bolsa dele, e o moço gentil sentado ao meu lado (meu amor) perguntou se eu queria ajuda. A partir daí, ele começou a puxar assunto, perguntar sobre o livro que eu estava lendo, e me disse que trabalhava em uma livraria e por aí foi.
Quando fui descer do ônibus, ele pediu meu telefone, e para a minha surpresa, sem pensar muito, eu passei. Depois ele me contou que quase não conseguiu marcar meu número, e foi o cobrador do ônibus que ajudou a lembrar o restante.
Não pensei que fosse dar em algo, mas ele passou a me enviar mensagens, me ligou e uns dois dias depois, sem combinar nada, nos encontramos de novo no ônibus. No terceiro dia a mesma coisa, até que ele me ligou no outro dia e perguntou se eu tinha namorado, respondi que não, e ele perguntou se eu aceitava ir ao cinema com ele.
Nós encontramos e fomos assistir uma comédia romântica, claro que foi eu que escolhi. E neste mesmo dia foi nosso primeiro beijo, descobrimos que fazíamos aniversário no mesmo mês e para nossa surpresa no mesmo dia, mas só acreditamos quando mostramos o RG um para o outro.
Morávamos em bairros vizinhos e nunca tínhamos nos encontrado e fomos nos conhecer em um ônibus e desde então estamos juntos. Passamos a nos ver todos os dias, ele me pediu em namoro e como era um período que estava de férias na faculdade, voltávamos juntos para casa e durante algum tempo nos encontrávamos ali onde tudo começou.
Desde então  uma amizade, um relacionamento, uma história de amor iniciou. Namoramos, noivamos, nos casamos e essa união existe há quase 10 anos. E jamais imaginávamos que nossas vidas fossem se encontrar, ainda mais dentro de um ônibus ou como ele sempre diz, dentro de uma lata de sardinha.
E seja coincidência do destino ou não,  essa colega nunca mais encontrei, e ela e nem o cobrador fazem ideia de que têm uma participação deles nessa história, que a partir desse dia tanta coisa mudou e que conheci meu companheiro e meu amor.