Na última terça-feira de noite, 7 de março, encontrei uma prima no ponto de ônibus e fizemos o caminho de volta para nossas casas juntas. Meses ausente uma na vida da outra, conseguimos reduzir parte da conversa acumulada. Eu, de um lado, com o tempo sempre escasso pelo mundaréu de coisas que QUERO dar conta. E ela, do outro, com um mundaréu de coisas de que, inadiavelmente, PRECISA dar conta.
Foram mais ou menos 40 minutos juntas. Os poucos minutos que esperamos pela linha Jardim Miriam (zs) até decidir pegar outro qualquer até a metade do caminho, fazer integração em um segundo e concluir a viagem. Passa, passa o tempo, mas a gente tem a mesma cumplicidade no olhar. Mesmo eu sentindo uma culpa danada por ter me afastado. Por ter ido pra tantos outros lugares que não duas ruas abaixo da minha para vê-la. Mas, o amor permaneceu ali, preenchendo o espaço vazio que existia entre o meu corpo e o dela no banco do ônibus.
Ela me contou das relações dentro de casa, da vontade de construir seu lar – de como ainda não vê como isso acontecer, mas verá e será – do compromisso e amor por cuidar da mãe e do seu sobrinho, que cresce educado pela tia e pela avó, sua mãe. Falou do seu irmão e de como tudo sobra pra ela no fim do mês: o fato dele não agir como pai, nem filho, amigo e, enfim, irmão. Sobram questões pra resolver, sobram contas.

crédito: Claus Tom Christensen / Flickr

crédito: Claus Tom Christensen / Flickr


Descemos no ponto de casa e começamos a subir a rua. Paramos na esquina para terminar a conversa. Ela seguiria para um lado e eu para o outro. Olhamos para o lado que ela iria e vimos a Dona Maria subindo a rua, no ponto exato onde faz a curva da descida de onde elas moram. Todos os dias, TODOS, ela busca minha prima no ponto de ônibus ou no meio do caminho, que é pra ela não caminhar sozinha ou, também – eu penso – pra ela ficar ainda mais tempo com a filha.
“Ahhh, então vocês estão ai de conversa e eu preocupada?!”. Ela toda risonha – como sempre – recebeu nós duas com abraços e beijos e perguntou como tinha sido o dia, se estava tudo bem comigo. E eu respondi feliz que sim. Minha prima já logo perguntou do pequeno, se ele estava acordado. E ela disse: “Ixii, se tá!”. Virou pra mim e disse: “Ele fica numa ansiedade pra tia chegar!”.
Já estávamos na despedida e dona Maria perguntou, com a maior cara de curiosa: “Amanhã é feriado?”. Eu respondi: “Não, é o Dia Internacional da Mulher, mas não é feriado”. Então me retrucou: “Ahh, então parabéns pra nós, mulheres! Mas bem que podiam dar um feriado pra gente, né?”. Rimos juntas.
Ela continuou: “E como está o seu pai, a mãe e a irmã?”. Eu respondi que estão todos bem e que minha irmã se casou, está em outra casa. E ela disse: “Que bom, se ela estiver feliz está bom. E você? Ahh, cê vai casar de véu e grinalda!”. Rimos mais ainda dessa vez e minha prima respondeu: “Só se for com um vestido curto”. E eu acrescentei “E de All Star!”.
Seguimos. Chegamos. Dormimos. O dia amanheceu e não é feriado. Seria bom se fosse.
Mas bom, BOM mesmo seria se, na volta pra casa, resquício nenhum de medo nos assombrasse. Que os homens deixassem de escorar sua preguiça, falta de capacidade emocional, planejamento e coragem nas costas de uma mulher. Que fossem mais pais. Que se responsabilizassem por suas escolhas. Que cuidassem de onde vivem e de quem partilha essa morada, só pra ser RECÍPROCO. Que procurassem construir relações mais saudáveis e que pudessem, de fato, contribuir para dias mais leves.
Isso não seria um favor ou uma ajuda. Muito menos um presente. Seria só um passo pra uma sociedade – um pouco – mais equilibrada, no emocional e no físico, na construção de vidas melhores. Ainda falta muito para que seja verdade desejar um “Feliz Dia das Mulheres”.

Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo