Meu cabelo quando criança era enorme, batia no meio das costas. Eu gostava dele. Gostava mais quando estava junto às crianças do movimento negro. Lá, meu cabelo era igual ao de um montão de meninas. A gente corria. Parava. Corria de novo e nem ligava se ele “armava ou não”.
Lá, ninguém ria de mim. Ao contrário. As mulheres mais velhas diziam: “Ohhhh, que cabelo bonito”! Minha mãe endossava: “Não te disse?!”. Olhava pra mulher com a idade dela e dizia “Como é difícil manter nossas crianças naturais, né?”. Eu olhava pra uma, olhava pra outra e voltava pra brincadeira. Não era dia de pensar na tensão que o cabelo me trazia. Ali eu era toda alegria e apaixonada por um dos meninos da minha idade, cheios de dreads na cabeça.

criança

Crédito: Arquivo pessoal
Semayat Oliveira aos 7 anos


Pena que os eventos do movimento negro duravam pouco.
Logo vinha a escola e os meus pedidos: “mãe, trança meu cabelo? Faz trancinha solta?”. As trancinhas soltas eram minha solução. Com elas eu podia jogar o cabelo de um lado pro outro e ainda prender com “piranha” e “bico de pato”. Oh coisa boa!
Na escola, vira e mexe vinha uma frase: “Você nunca solta seu cabelo?”. “Você parece uma samambaia com tantas trancinhas (risos)”. “Por que você não alisa o cabelo?”
Eu me rendi à química assim que minha tia, cabeleireira, disse que eu já tinha idade.
Eu só não sabia que a suposta solução virava uma prisão tão grande. “Minha raiz tá grande!”. “Já fazem três meses que eu não faço a raiz, me leva lá mãe!!”. “Mãeeeeee, o creme acabou!!”. “Gente, meu cabelo tá branco de creme?”. E a cada vez que eu passava química, fazia um pedido quase involuntário em pensamento: “Faz nascer liso, por favor?!”.
E depois da nossa primeira feira preta e na insistência dos nossos pais, minha irmã resolveu parar de relaxar o cabelo aos 18 anos. Eu, três anos mais nova, peguei carona na coragem.
Até meu cabelo crescer, usei tranças por um ano. Trança tiarinha, tranças soltas, trança rasteira. Tranças traças, tranças. Enquanto mais meu cabelo natural crescia, mais eu percebia que não o conhecia. Eu ia com as pontas dos dedos lá na raiz, sentia as curvinhas dos cachos, bem pequeninas, pareciam gominhos. Olhava no espelho e via o brilho que ele tinha. Era bonito sim!
Aos 16 anos, cortei as pontas lisas. Minha tia foi cortando devagar. E eu me olhava no espelho atentamente. Assustada. Ficou curto demais, um blackinho. Assim que terminou, neguei minha imagem na hora! Chorei uma noite inteira, bem na festa de Ano Novo.
Até aprender a arrumar, até parar de pedir que eu acordasse com um cacho mais definido, até eu aprender a encarar os olhares e brincadeiras das pessoas…
…na escola. Todo mundo olhando.
…no ônibus. Todo mundo olhando.
…na rua. Todo mundo olhando.
“Como você faz esse penteado?”. Eu respondia sempre da mesma forma. “Não é um penteado, ele cresce assim”. Me respondiam com cara de ué. “Cresce assim?”. Eu falava de novo. “Sim, meu cabelo é crespo. Ele nasce assim.” E quanto mais pergunta eu respondia, mais repertório eu criava. Quanto mais cantavam a música do assolam (esponja de aço da época), mais eu estudava.
Percebi que assumir o cabelo, para a mulher, é um dos principais passos do processo de conscientização. Não conheço nada tão complexo quanto a experiência de se reencontrar com o seu cabelo, aprender a respeitá-lo e a defendê-lo.
“Mas e pra lavar, demora pra água ‘entrar’?”. “Ahhhh, mas você não nunca fez uma chapinha? Não tem vontade de alisar?”. “Já pensou em colocar aplique?”. “Sério, eu acho seu cabelo lindo, mas só combina com você.
É muita coisa pra rebater, um bombardeio. Se não tivermos armas para o contra-ataque, somos facilmente abatidas pela baixa autoestima.
O cabelo se torna um símbolo da luta. E é algo tão complexo que, independente do nível de resolução que ACHAMOS ter com a questão racial, o exercício da autoestima e da preservação do natural é constante. Do movimento ou não, corte a primeira mecha quem nunca pensou na possibilidade ou de fato voltou pra química depois de se livrar dela? Comigo não morreu!
Por isso que precisamos alimentar nossas pequenas desde cedo. Sempre que passo por uma princesinha preta, tento ganhar um sorriso ao repetir o que minha mãe, sempre de black power, meu pai, dreadlocks na maior parte de sua vida e eterno rastafári, e as mulheres mais velhas do movimento negro me diziam “nossa, como seu cabelo é lindo!”.
 
 

Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo